Este Benfica

OPINIÃO19.08.202206:30

A águia vai ganhando bem mas vai, também, disfarçando algumas insuficiências

CONHEÇO gente que diz gostar, naturalmente, que as suas equipas de futebol ganhem, mas gostarem ainda mais de as ver jogar bem. Creio que essa gente o diz da boca para fora, porque no fim de contas acabamos todos por concluir que, mesmo jogando bem, sempre e quando não se ganha lá começa a carga de trabalhos. Podia recordar aqui alguns (bons) exemplos, mas nem vale a pena estar a levar o leitor a perder tempo.

Importante é percebermos o essencial: no futebol, na realidade, não há nada como ganhar. Pode a equipa jogar bem (melhor ainda), menos bem, assim-assim ou até mesmo menos do que o aceitável, mas se conseguir vencer, e, sobretudo, continuar a vencer, o que poderia parecer cinzento vai-se tornando cada vez mais cor de rosa.

O Benfica, por exemplo, tem disfarçado as evidentes insuficiências com uma muito boa série de vitórias, entre os jogos da pré-temporada e os jogos das competições a sério. Até agora, a águia do alemão Roger Schmidt fez um total de 11 jogos (seis de preparação, cinco de competição), somou 11 vitórias, marcou 34 golos e sofreu 8. Aparentemente, um rolo compressor. Mas só para quem ainda não viu a equipa jogar!

Dir-se-á, a propósito também desta fase de qualificação da Liga dos Campeões, que o Benfica está, apesar de tudo, a fazer bem melhor do que a encomenda, e a vitória desta semana, na Polónia, sobre os ucranianos do Dínamo Kiev, não apenas atira a águia para uma presença agora mais do que provável na fase de grupos da grande competição europeia de clubes, como lhe confere o direito de reclamar ter obtido uma fantástica vitória fora de casa, o que, nos tempos que correm, seja entre que adversários for e em que competição for, não pode deixar de ser visto como um extraordinário resultado, ainda por cima nesta fase da época, quando ainda nem tudo está afinado, nem os jogadores estão na melhor das condições.

Ponto assente, portanto, que o Benfica fez ainda melhor do que lhe competia, porque lhe competia trazer um bom resultado para a segunda mão, na Luz, na próxima terça-feira, e um bom resultado fora, em jogos a doer, pode até ser um empate, e acabou por trazer uma muito boa vitória, que obrigará o Kiev a conseguir, no mínimo, vitória igual, ou um improvável 1-3, na Luz, se quiser atirar o jogo obrigatoriamente para o prolongamento.

Ponto assente, também, que nesta fase, mesmo quando não se joga como se gostaria de jogar ou os adeptos gostariam de ver, é ganhar que dá saúde. Torna tudo mais confiante. Dá moral. Cria embalagem. Enche o balão. E, no futebol - em muita coisa, mas sobretudo no futebol -, a confiança é uma parte significativa da solução.

Um exemplo: ao contrário do que muito por aí se vai dizendo, eu vi, a época passada, o Manchester United fazer muito boas exibições, mas como não ganhava, a equipa perdia confiança e, sem confiança, ia-se afundando inevitavelmente. Até ao ponto em que está agora. Entre alguns outros jogos do último campeonato, vi, ainda como exemplo, o Manchester United arrasar o Watford e chegar ao fim do jogo com um desolador e amargurado 0-0. Quando não se ganha, tudo é desinspirado, triste, cinzento, frio, desconfiado, e a atmosfera que rodeia a equipa vai sendo sucessivamente mais instável, escura e negativa. Perguntem aos ingleses como se livram disto e eles dirão: ganhando!
 

SE perguntássemos, pois, a Roger Schimdt (ou a qualquer outro treinador) se prefere, sobretudo nesta altura, ver a equipa  jogar bem ou, simplesmente, a ganhar, ele diria, certo como 2 e 2 serem 4 (ele ou qualquer outro), que prefere ganhar! Porque se não for ganhando, então dificilmente a equipa virá a jogar melhor. É o destino do futebol.

Mas se as vitórias trazem confiança, também disfarçam, por vezes, insuficiências. Parece-me ser o caso deste Benfica, que o treinador alemão se esforçará, creio, por manter de ânimo elevado e eficácia absoluta, sabendo como precisa - se precisa - de mais um ou outro jogador de peso para poder assumir, claramente, outra ambição, quer no que à Liga portuguesa diz respeito, quer para a tão desejada presença na fase de grupos da Liga dos Campeões e a indispensável boa figura que os benfiquistas (como portistas e sportinguistas) esperam que a equipa venha a fazer, se confirmar, na próxima semana, esse agora ainda mais exigido carimbo no passaporte europeu da Champions.
 

MANTENHO o que já escrevi e me continua a parecer evidente: se quiser ganhar em dimensão o tal nível acima em comparação com a época passada, o Benfica precisa, inevitavelmente, de pensar em contratar mais um ou outro jogador. O ideal talvez fosse mais um médio (um 6 de qualidade indiscutível), mais um outro jogador que, na posição 10, pudesse também fazer a meia-esquerda, lá está, uma espécie de Ricardo Horta, para que o leitor melhor compreenda o que procuro definir, e, finalmente, atacante capaz de fazer esquecer Darwin. É muito? Sim, não é pouco. E depende também do dinheiro.

A própria liderança encarnada (dirigente e técnica) deve saber perfeitamente o que a equipa precisa, porque se não soubesse há muito que já não alimentaria a novela Ricardo Horta nem andaria à procura de um médio como o norueguês Fredrik Aursnes - de quem se tanto se tem falado -, o tal 6 não apenas capaz de preencher muito do espaço defensivo, como de se bater no confronto físico, que é, sobretudo este, um aspeto no qual o futebol do jovem Florentino é mais frágil - e como se tem visto, de muito contacto físico exige o jogo que Roger Schmidt quer que a equipa jogue, quer pela pressão, quer pelo ataque ao adversário que recebe a bola.
 

UM novo médio completaria o número de quatro jogadores para as duas posições do duplo pivot com que Roger Schmidt põe as suas equipas a jogar. Não me parece, pois, com franqueza, que a entrada de um novo médio dependa da saída, como se tem dito, de Weigl.

Se por um lado posso presumir, ou melhor, admitir que o Benfica visse com bons olhos uma transferência de Weigl por um valor semelhante ao que custou, porque não vale a pena ignorar que a eventual saída de Weigl baixaria consideravelmente o valor mensal da folha salarial da equipa.

Mas isso não quer dizer que o Benfica, ou mesmo Schmidt, queiram ver Weigl pelas costas no sentido de não lhe atribuírem valor para integrar o plantel. É tudo uma questão de relação custo/rendimento.

Meité é que faz sentido não contar para este totobola, porque não acrescenta à equipa nada do que ela precisa. Weigl não. Weigl é um excelente jogador, e creio mesmo que é ainda com Weigl e Enzo Fernández, pelo que tenho visto, que a equipa menos se desequilibra após a perda da bola - e muito ela se desequilibra quando perde a bola e concede ao adversário espaço que não pode conceder, e ainda não chegaram os jogos frente às grandes equipas. Mas é só a minha opinião, reconhecendo, porém, que o jovem Florentino me parece hoje, na verdade, o jogador que nunca foi até aqui.

Quanto a um novo atacante, ele passa a ser uma necessidade absoluta se o jovem Gonçalo Ramos vier a deixar a Luz até ao final deste querido mês de agosto, mas deveria, ainda assim, ser um objetivo mesmo com o jovem Gonçalo, sobretudo se o Benfica o mantiver apenas a ele mais o ainda insuficiente Yaremuchuk, e Henrique Araújo (o mais promissor de todos) a crescer.
 

JÁ nem falo da questão do guarda-redes, que tanta controvérsia tem gerado entre analistas, observadores e adeptos, porque se fosse para mudar, creio que o Benfica já o teria feito. Independentemente da minha opinião (Vlachodimos continua não me parecer o grande guarda-redes que precisa qualquer equipa que quer ser grande), creio que Vlachodimos continuará a ser o guarda-redes titular esta nova época.

Se chegar, por isso, a mais dois ou três dos reforços que acima enumerei, poderá então o Benfica, a meu ver, desafiar esta temporada com mais sólida ambição, tendo em conta que precisa de voltar a discutir o título - pelo menos discuti-lo até final do campeonato -, que, entrando na fase de grupos da Liga dos Campeões, precisa de fazer boa figura, e precisa ainda, como sempre (e como os seus principais rivais em Portugal) de deixar, mínimo dos mínimos, marca nas restantes competições (as nossas Taças), sendo que para Benfica, FC Porto ou Sporting, deixar marca é, invariavelmente, chegar às finais… e não as perder.

É a vida das equipas grandes dos grandes clubes. A expectativa, essa mantém-se: a de vermos se as equipas grandes - como é o caso - conseguem ou não tornar-se grandes equipas!

PS: Cristiano Ronaldo não geriu bem o que lhe sucedeu, e ele fez por suceder,  este verão. Certo. Mas a verdade das mentiras tem-me parecido demasiado gritante e injusta para um grande profissional, um futebolista de eleição e um português de exceção como é Cristiano Ronaldo. É o meu desabafo!

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