Editorial: A deselegância
Sérgio Conceição Foto: IMAGO

Editorial: A deselegância

OPINIÃO26.11.202308:42

Ainda as palavras do treinador do FC Porto que atingiram o selecionador Martínez

Admitindo não ter querido propriamente atingir o selecionador nacional Roberto Martínez, e admitindo ainda a ligeireza e o tom sorridente com que o fez, foi de extrema deselegância o que o treinador do FC Porto, a propósito da ida do lateral João Mário à Seleção, disse na conferência de imprensa de antevisão ao jogo da Taça de Portugal com o Montalegre, que o dragão, como se esperava, venceu com relativa facilidade por 4-0. Pode o treinador do FC Porto não ter tido a intenção que lhe estará a ser atribuída pelo que disse. Pode até ter procurado passar uma mensagem apenas ao seu jogador (João Mário), sempre com um sorriso e aquele tom de ironia que parece ter feito escola nos mais de 40 anos de presidência que leva o dirigente líder do FC Porto. 

Mesmo que tenha sido meio a brincar, meio a sério, a verdade é que saiu ao treinador do FC Porto o tiro pela culatra. Creio que não foi elegante no puxão de orelha a João Mário, que poderia limitar ao balneário, e muito menos elegante acabou por ser para com o selecionador, o espanhol Martínez. No limite, terá sido uma brincadeira… de muito mau gosto. Acusar publicamente João Mário de ter andado os últimos dias a dormir após chegar da Seleção, e avisá-lo ainda publicamente da necessidade de perceber que no FC Porto tem um «treinador português» e não um «treinador espanhol» não ficou nada bem ao treinador portista. Creio que nem o sorriso com que o disse nem a imagem de frontalidade o ajudam, neste caso, a atenuar a deselegância ou o desconforto que terão sentido o próprio João Mário e Martínez.

 Não foi, aliás, a primeira vez, longe disso, nem será, tudo leva a crer, a última, que o comandante da equipa portista dá públicos puxões de orelhas a um ou mais jogadores. Está, evidentemente, no seu direito, assumindo, naturalmente, as responsabilidades e consequências do que diz. No debate público, ficou o treinador do Benfica com as orelhas a arder por criticar (com bastante normalidade, diga-se) o guarda-redes Vlachodimos, após o jogo com o Boavista, da 1.ª jornada deste campeonato. Bastou Schmidt afirmar não ter Vlachodimos tido a sua «melhor noite» para logo lhe cair meio mundo em cima. Com toda a franqueza, não me lembro de ver cair o Carmo nem a Trindade quando o treinador do FC Porto, há mais ou menos um ano, apontou publicamente o dedo ao jovem David Carmo por causa de um erro (lembra-se, caro leitor?) num jogo da Champions («a este nível, não é normal um jogador cometer um erro destes!», disse o técnico), e muito menos quando, ainda em 2021, arrasou a equipa após um empate com o Boavista, atingindo sobretudo os mais jovens. «Não basta ser da formação ou ser bonito nas redes sociais», afirmou, parecendo, então, meter no mesmo saco os jovens João Mário ou Fábio Vieira, titulares naquela noite, no Dragão. Com as declarações, agora, sobre o mesmo João Mário que, por tabela, atingiram o selecionador nacional, foi o treinador do FC Porto duramente criticado, não entre nós, mas sobretudo em Espanha. Compreende-se. 

Devemos, porém, continuar admitir não ter sido intenção do técnico dos dragões faltar ao respeito ou diminuir o espanhol Roberto Martínez. Creio mesmo que o treinador portista foi apenas infeliz no modo como disse o que queria e acabou a dizer, também, o que porventura não queria. João Mário era o foco do técnico. Mas o treinador portista pode não ter avaliado bem o estado do terreno e acabou por escorregar, mesmo não sendo normal, a este nível, um treinador cometer um erro destes! PS: Em alemão, inglês ou português, aguarda-se que Roger Schmidt consiga explicar por que está o Benfica a jogar tão pouco. Ontem, o campeão voltou a ganhar e voltou a desesperar os adeptos!