Toni faz 80 anos e foi com A BOLA visitar o Museu do Benfica para recordar a carreira e falar da vida (Foto: MIGUEL NUNES)
Toni faz 80 anos e foi com A BOLA visitar o Museu do Benfica para recordar a carreira e falar da vida (Foto: MIGUEL NUNES)

No futebol, estamos habituados a medir a grandeza pelos títulos, pelas vitórias e pelos lugares ocupados na história... raramente começamos por uma qualidade mais difícil de quantificar: a bondade. Toni completou 80 anos e, entre tantas homenagens merecidas, houve uma expressão que me fez pensar: Pedro Proença chamou-lhe um homem bom. Num universo onde a autoridade tantas vezes se confunde com dureza e a ambição com falta de escrúpulos, talvez este seja um dos maiores elogios que se pode fazer a alguém que passou a vida a liderar.

Ser um homem bom não significa ser um líder menos exigente. Significa compreender que podemos exigir sem humilhar, corrigir sem diminuir e vencer sem esquecer quem nos ajudou a chegar lá. E a carreira de Toni oferece-nos uma oportunidade para refletir sobre essa forma de liderar, cada vez mais necessária num futebol onde os resultados parecem justificar quase tudo.

De Mogofores ao Anadia, da Académica ao Benfica, Toni construiu um percurso extraordinário. Na Luz conquistou oito campeonatos nacionais e quatro Taças de Portugal como jogador. Como treinador principal, voltou a ser campeão, em 1988/89 e 1993/94, venceu a Taça de Portugal e esteve ligado a uma das grandes campanhas europeias do clube, mas os títulos, por mais importantes que sejam, não explicam inteiramente a dimensão de quem os conquistou. Há jogadores e treinadores que ficam na memória pelo que ganharam, outros permanecem também pela forma como fizeram sentir aqueles que trabalharam consigo.

Rui Costa conhece bem essa diferença... ao recordar o título de 1993/94, falou de um Benfica marcado por dificuldades financeiras, divisões no balneário e enorme incerteza - atribuiu a Toni uma parte decisiva do mérito por aquela conquista. Mais do que a competência tática, destacou a disponibilidade de alguém que nunca virou as costas ao clube nos momentos difíceis. Liderar quando tudo corre bem é relativamente simples. Liderar quando faltam recursos, quando a confiança está fragilizada e quando os interesses individuais ameaçam o coletivo exige outra dimensão humana. Exige capacidade para unir, escutar, decidir e fazer com que as pessoas voltem a acreditar umas nas outras.

José Mourinho, numa mensagem de homenagem ao antigo treinador, escolheu também colocar o homem à frente do currículo. Recordou a admiração pelo jogador e pelo treinador, mas destacou, acima de tudo, o privilégio de poder chamar amigo a alguém que considera único. É um testemunho particularmente significativo vindo de uma personalidade que conhece profundamente a exigência da liderança no futebol de alto rendimento. A competência pode conquistar o respeito profissional, mas são os valores, a lealdade e a forma como tratamos os outros que permitem transformar esse respeito em relações duradouras.

Jesualdo Ferreira, que partilhou com Toni muitos anos de amizade e trabalho, resumiu esse reconhecimento numa expressão simples: toda a gente gosta de Toni. À primeira vista, pode parecer um elogio menor num meio tão competitivo - não é. Conseguir preservar relações de respeito e afeto ao longo de décadas, atravessando vitórias, derrotas, decisões difíceis e interesses contraditórios, exige uma consistência de caráter que nenhum resultado desportivo consegue garantir.

João Vieira Pinto acrescentou outra perspetiva ao sublinhar o carinho generalizado que Toni desperta, e há aqui uma questão que merece reflexão: quantos líderes conseguem ser respeitados pela sua competência e, simultaneamente, estimados pela forma como se relacionam com as pessoas? No futebol, como nas empresas ou em qualquer organização, confundimos demasiadas vezes autoridade com distância, exigência com agressividade e liderança com imposição. Toni recorda-nos, através do seu exemplo, que é possível ser firme sem deixar de ser próximo e tomar decisões difíceis sem perder a consideração por quem delas é afetado.

A relação com Sven-Göran Eriksson ajuda a compreender essa dimensão... em abril de 2024, quando o treinador sueco regressou à Luz para uma homenagem, Toni esteve entre aqueles que o receberam. Décadas depois de terem trabalhado juntos, permanecia uma amizade construída sobre confiança e admiração mútua. O futebol é feito de relações intensas, frequentemente condicionadas pela pressão dos resultados. Preservá-las quando já não existem cargos, contratos ou objetivos comuns é, na minha opinião, uma das demonstrações mais genuínas de respeito.

Há ainda um ensinamento particularmente interessante na forma como Toni olha para o próprio percurso. Numa entrevista recente a A BOLA, afirmou que o futebol lhe deu mais do que aquilo que ele lhe ofereceu. Depois de tantos títulos, responsabilidades e homenagens, continua a falar com gratidão, e quando recorda as pessoas que marcaram a sua vida, encontra sempre espaço para reconhecer a influência de outros: a honestidade de Borges Coutinho, a grandeza de Eusébio, os ensinamentos de Mário Wilson e as relações construídas ao longo de várias gerações. A gratidão não diminui as nossas conquistas, muito pelo contrário, dá-lhes contexto e lembra-nos que ninguém chega verdadeiramente longe sozinho.

Também a forma como enfrenta as desilusões merece atenção... Toni admitiu que gostaria de ter regressado ao Benfica para encerrar o seu percurso, mas aceitou que os caminhos fossem diferentes. Deixou uma reflexão tão simples quanto profunda: as mágoas azedam a vida. Num ambiente onde tantas relações terminam em ressentimento e tantas divergências se transformam em conflitos públicos, há uma enorme maturidade em saber seguir em frente sem transformar a frustração em amargura.

Aos 80 anos, Toni continua ligado ao futebol, é diretor na Federação Portuguesa de Futebol e conserva o sonho de acompanhar o Mundial de 2030. A sua maior ambição não está associada a um resultado ou a um troféu... na conversa com A BOLA, explicou que consideraria cumprida a sua missão se tivesse ajudado alguém a acreditar mais em si próprio, a ser mais confiante, melhor profissional e melhor pessoa. É uma definição de sucesso que merece ser estudada por todos os que exercem responsabilidades de liderança, independentemente da área organizacional que esteja envolvido.

Na rubrica «Liderar o Jogo», interessa-me precisamente esta dimensão… liderar não é apenas alcançar objetivos, é criar condições para que os outros cresçam, desenvolvam confiança, descubram capacidades e se tornem melhores. Os resultados são importantes, naturalmente que são, mas uma liderança verdadeiramente transformadora deixa marcas que sobrevivem aos resultados. Está nas pessoas que ajudámos a formar, nas oportunidades que criámos, na confiança que inspirámos e na forma como fomos capazes de conciliar exigência com humanidade.

Toni construiu uma carreira suficientemente grande para ser recordado pelos campeonatos, pelas finais europeias e por décadas de dedicação ao futebol português, mas o testemunho de quem com ele trabalhou revela uma conquista ainda mais difícil: o respeito que permanece quando os jogos terminam, os cargos mudam e os troféus deixam de ser o centro da conversa.

O futebol precisa de treinadores competentes, dirigentes preparados e líderes capazes de vencer, mas precisa, na minha opinião, cada vez mais, de pessoas que não percam a humanidade pelo caminho. Toni mostrou-nos que é possível ganhar sem deixar de ser um homem bom e, no fim, essa também é uma forma de ser campeão.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar» 

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