Os erros de 'casting'
Nos últimos meses, o futebol em Angola tem passado por alguma turbulência, seja do ponto de vista competitivo (a nível da seleção principal), seja nas estruturas de decisão e organização. E este, por si só, é um aspecto interessante e que, se bem orientado, contribuiria para a valorização do jogo, das suas componentes de suporte e de amplificação para o exterior.
Todos sabemos (pelo menos, os que regularmente visitam o país), o quão apaixonado é o povo angolano pela modalidade. Aliás, com o basquetebol masculino e o andebol feminino, o futebol é o desporto que mais acolhe consensos na sociedade angolana, movendo montanhas no apoio aos seus praticantes e clubes favoritos.
Por isso, não espantou a onda de apoio generalizado aos Palancas Negras após a brilhante carreira na fase final da CAN-2023 (realizada em janeiro e fevereiro de 2024, na Costa do Marfim). A chegada aos quartos de final, a dimensão competitiva demonstrada e o retorno da seleção à predileção do povo foram elementos marcantes, a que se seguiu, curiosamente, uma imaculada fase de qualificação para a CAN-2025, com a seleção nacional a ultrapassar o Gana e a terminar o mini-torneio qualificativo sem averbar qualquer derrota.
O mais fácil era não estragar. Bastaria compreender o enquadramento, não mexer (ou a avançar apenas ajustes de pormenor), e permitir que a equipa, entrosada e cada vez mais habituada a um selecionador (Pedro Gonçalves), que havia orientado e formado muitos dos jogadores agora seniores, aquando da sua passagem pelas camadas mais jovens do futebol angolano, pudesse seguir o caminho pensado e que, na realidade, começava, a nível internacional, a dar frutos e a obter reconhecimento dos seus pares continentais.
Porém, o advento da nova direção da Federação Angolana de Futebol (FAF), e do respetivo Presidente (Alves Simões), alterou radicalmente o cenário. Sou dos que, à altura do processo eleitoral, depositaram confiança no atual líder, em face da sua experiência no dirigismo, como Presidente do Interclube e como responsável (por exemplo, na CAN-2010, organizada por Angola) pela seleção nacional do mais populoso país africano de língua oficial portuguesa.
Daí ao descalabro não foi preciso muito tempo, nem foram necessários muitos passos. Bastou estragar o que estava feito, e não trazer práticas de gestão com a qualidade e a visão necessárias para propor vias alternativas.
Uma sucessão de momentos infelizes que começou, a apenas dois meses da fase final da CAN-2025, em Marrocos, com o afastamento do selecionador e de toda a sua equipa técnica, sem nenhuma (sublinho, nenhuma) razão substantiva e sem nenhum motivo, sequer, circunstancial. Gonçalves terminaria contrato em junho de 2026, e era absolutamente lógico e natural que pudesse completar o seu percurso à frente do combinado nacional angolano, incluindo tal, obviamente, a CAN-2025.
Contratado Patrice Baumelle, um francês com experiência como adjunto de Hervé Renard, foi estabelecido um objetivo desportivo quase inatingível para a competição em Marrocos: fazer igual ou melhor que dois anos antes, isto é, chegar, no mínimo, aos quartos de final. Populista, a liderança da FAF quis ficar bem perante o adepto, mas colocou o novo selecionador sob intensa pressão, e só os analistas menos atentos deram crédito a essa meta competitiva.
Não só Angola ficou longe do objetivo, como nem ultrapassou a fase de grupos, deixando num equilíbrio periclitante o responsável técnico, e reféns da inocência dos objetivos traçados os responsáveis federativos.
O espaço e o tempo foram absolutamente negligenciados, revelando falta de visão estratégica e de comportamento organizacional. As paragens do Girabola decididas com pouquíssima antecedência são apenas uma das pontas do iceberg de contradições e demonstrações de desorganização interna. Ademais, os contratos assinados com a operadora de difusão ZAP (para a transmissão de jogos do principal campeonato angolano de futebol) e com a Unitel, gigante de comunicações angolano, para o naming da competição, surgem como operações de cosmética, com a participação da ANCAF (Associação Nacional dos Clubes Angolanos de Futebol). É que as cláusulas de confidencialidade integradas nos respetivos contratos, a propósito das verbas envolvidas, e as declarações difusas dos responsáveis, deixam margem a interpretações dúbias, quando bem sabemos o quão importante, estas circunstâncias, é a transparência dos negócios, para que todas as partes (e, sobretudo, os clubes…), possam conhecer e acatar as regras do jogo.
O futebol angolano tem uma imensa base de recrutamento (englobando na ideia Luanda mas, sobretudo, as diversas províncias do país), e dispõe hoje de um conjunto de futebolistas seniores na diáspora que podem servir de estrutura à mobilização para uma seleção nacional forte e em crescendo no panorama continental.
Mas a organização e o planeamento devem começar na própria FAF e a sua dimensão terá de ser profissional, formada e direcionada, na exata medida das ambições de engrandecimento do futebol no país.
E se não tenho dúvidas das boas intenções de Alves Simões e da equipa federativa, é também evidente e penalizadora a inabilidade que o executivo da FAF tem revelado, neste primeiro ano do seu mandato.
Talvez seja preciso baralhar e dar de novo, como me dizem muito bem colocados amigos em Angola, sempre atentos e com responsabilidades suficientes para ajudarem na solução. Só há, para já, uma certeza: qualquer que ela, a solução, seja, jamais poderá passar por novos erros de casting…