O Hugo Sánchez de Barcelos

Bar Nilo é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Verdade que só é chamado após as dispensas de Rodrigo Mora e Rafael Leão e numa convocatória onde não há Cristiano Ronaldo. Todos lesionados. O contexto parece diminuir o peso da decisão, quase como se fosse um recurso de última hora. Mas nem sempre aquilo que chega mais tarde vale menos. Às vezes, chega apenas no momento em que já não pode ser ignorado. Este regresso de Paulinho à Seleção é da mais elementar justiça e até peca por tardio.

Aos 33 anos, quando muitos começam a sair de cena ou a aceitar papéis secundários, Paulinho vive uma segunda vida. Uma vida sem o ruído das grandes ligas europeias, sem o julgamento permanente das redes sociais portuguesas, sem a pressão diária de ter de justificar cada toque na bola. No México, ao serviço do Toluca, encontrou algo raro no futebol moderno. Espaço para jogar, confiança para falhar (falha muito pouco) e tempo para afirmar-se (não precisou de muito). E, com isso, está a fazer aquilo que melhor define um avançado: golos. Para todos os gostos.

Desde que rumou ao México, soma 55 remates certeiros em 80 jogos. Números que não são apenas bons. São dominantes. São números de quem não se limita a participar, mas de quem decide.

Melhor marcador da liga por três vezes consecutivas e campeão na última temporada. Regularidade, impacto, liderança. Num campeonato que por cá ainda se olha com sobranceria, mas que é intenso, competitivo, apaixonado e exigente. Um campeonato onde não há jogos fáceis, onde o ritmo é alto e onde a pressão das bancadas pesa tanto ou mais do que nos estádios europeus.

Neste cenário, Paulinho tornou-se a figura central da competição. Assiste e marca. Constrói e destrói defesas adversárias. Em qualquer uma destas duas épocas no México, já ultrapassou aquela que era a temporada de maior faturação: 25 golos ao serviço do SC Braga em 2019/20. É um futebolista que não vive de momentos virais, mas de ações repetidas com precisão. Movimento certo. Tempo certo. Finalização certa. E isso, no futebol, continua a ser a moeda mais valiosa.

Pudessem os mexicanos naturalizá-lo e teriam, no próximo Mundial, um Hugo Sánchez nascido em Barcelos. A comparação pode parecer exagerada, mas traduz uma ideia simples. Há jogadores que pertencem ao lugar onde fazem a diferença. E Paulinho, hoje, faz a diferença como poucos no México. Mas há algo que não se naturaliza. O percurso. A identidade. O caminho feito desde os campos de formação do Santa Maria, em Barcelos, até ao topo. E esse caminho, com Trofense, Gil Vicente, SC Braga e Sporting, é bem português e o claro exemplo de uma carreira feita a pulso que não teve como base o conforto e as condições das academias dos grandes clubes.

Paulinho deve estar no Mundial. Não como exceção. Não como surpresa. Não para entrar no lugar de eventuais lesionados. Deve estar porque merece. Porque, olhando para as opções disponíveis, é difícil encontrar um ponta de lança português que marque mais, que seja mais regular, que viva um momento de forma tão evidente.

Cristiano Ronaldo continua a ser uma referência, um símbolo, um caso único, mas está com 41 anos. Mira afinada, mas, naturalmente, sem a intensidade e participação no jogo de outros tempos. Gonçalo Ramos, apesar de muito utilizado, não é titular indiscutível no Paris Saint-Germain. E depois há um vazio que não se preenche com potencial, mas com rendimento.

Roberto Martínez tem aqui uma decisão que separa o discurso da convicção. Falar de meritocracia é fácil. Aplicá-la quando ela aponta para fora do radar mediático é mais difícil. Paulinho não tem campanhas. Não tem narrativa construída. Não tem o brilho artificial de quem vive mais nas redes do que no relvado. Não é tendência. Não é moda. É eficácia.

E talvez seja isso que mais o penalizou ao longo dos anos. Nunca foi o jogador que pede espaço. Nunca foi o jogador que se vende. Foi sempre o jogador que trabalha, que se posiciona, que finaliza. Num tempo em que a visibilidade muitas vezes vale tanto como o rendimento, Paulinho ficou preso entre o respeito silencioso e o esquecimento conveniente.

Mas o futebol, no fim, continua a ser simples. Os golos não se discutem. Contam-se. E quem os marca de forma consistente, em qualquer latitude, tem de entrar na equação. Dizer que joga no México não pode ser argumento para exclui-lo quando se olha com naturalidade para outras ligas fora do eixo europeu. Muitos dos habituais convocados de Martínez atuam na Arábia Saudita. Sendo mais rica, mais mediática, mais apetrechada de craques, não será muito mais competitiva do que a liga mexicana. E a competitividade de Paulinho não se mede em milhões. Mede-se dentro do campo.

Esta chamada não pode ser folclore. Não pode ser apenas uma nota de rodapé numa convocatória condicionada por lesões. Não pode ser apenas porque Paulinho já estava no México e assim podia juntar-se à Seleção sem fazer tantos quilómetros. Tem de ser o reconhecimento de um percurso, de um momento, de um jogador que continua a provar, semana após semana, que ainda tem muito para dar ao mais alto nível.

O futebol é dos novos e dos velhos. Sempre foi. A diferença está em quem consegue continuar a decidir. E Paulinho, nesta fase, decide como poucos. Num jogo que muda todos os dias, há verdades que permanecem. Uma delas é simples. Os golos são de quem os marca. E, hoje, nenhum português marca tanto como ele.