O exemplo do Algarve — mais do que jogar, ganhar valores

Mais do que formar atletas, pretende-se formar cidadãos

Vivemos tempos em que os valores que deveriam unir comunidades parecem, por vezes, diluir-se num mar de polarizações. No desporto, gestos e reações desencadeiam debates acalorados sobre respeito, limites e responsabilidade, lembrando-nos que a competitividade, sem uma base sólida de fair-play, pode rapidamente resvalar para o conflito. Mas o que está em causa não é apenas uma jogada polémica: é a forma como nos relacionamos, como lidamos com a frustração e como transformamos o campo de jogo num espaço de respeito mútuo.

O futebol, e o desporto em geral, sempre foi um espelho da sociedade. Aquilo que se passa dentro das quatro linhas não nasce ali: reflete o que somos enquanto comunidade. Quando vemos intolerância nas bancadas, agressividade entre jogadores ou pressão excessiva sobre árbitros, estamos também a reconhecer comportamentos que existem fora do estádio. Por isso, discutir fair-play é, acima de tudo, discutir cidadania.

Vivemos ainda uma era de amplificação. As redes sociais transformaram qualquer lance ou decisão num fenómeno imediato, sujeito a julgamento público constante. A crítica, muitas vezes legítima, torna-se facilmente desproporcional. Educar para o fair-play é também educar para a responsabilidade digital, saber discordar sem agredir, analisar sem destruir.

Fora dos relvados, o cenário internacional devolve-nos, com crueza, a importância de valores que transcendem fronteiras. A escalada de tensões entre Estados Unidos/Israel e Irão, recorda-nos que a ausência de diálogo, aliada à incapacidade de colocar a humanidade acima de interesses estratégicos, pode ter consequências devastadoras. Essa mesma ausência de equilíbrio e respeito manifesta-se, em escala diferente, quando rivalidades desportivas ultrapassam o seu propósito saudável e se transformam em hostilidade. Em ambos os casos, o problema não está na competição em si, mas na forma como escolhemos vivê-la.

É neste enquadramento que iniciativas como o projeto O Fair-Play Joga em Casa, da Associação de Futebol do Algarve, assumem particular relevância. Mais do que formar atletas, pretende-se formar cidadãos. Pessoas que compreendem que competir implica aceitar regras, que ganhar exige respeitar o adversário e que a verdadeira vitória está na capacidade de conviver com a diferença.

Mais do que um projeto de punição, trata-se de uma estratégia de prevenção. Como reconheceu o presidente da Associação de Futebol do Algarve, João Pedro:

— Apesar do comportamento exemplar da esmagadora maioria dos agentes desportivos, persistem episódios pontuais que não dignificam o desporto e é precisamente aí que importa atuar, com uma abordagem pedagógica e transformadora.

Num universo onde, todos os fins de semana, milhares de jovens entram em campo, o impacto de uma cultura positiva é incalculável. Um treinador que privilegia o respeito, um pai que incentiva sem pressionar, um jogador que aceita a derrota com dignidade — são estes gestos que constroem uma identidade coletiva.

Os objetivos são claros: tornar a ética e o respeito valores estruturais do desporto algarvio. A valorização do cartão branco, as ações de sensibilização dirigidas a atletas, treinadores, dirigentes, árbitros e encarregados de educação, passando por iniciativas nos clubes e comunidades, a campanha procura criar uma cultura onde o fair-play não seja exceção, mas antes a norma.

Importa também sublinhar o papel da formação. Não basta exigir comportamentos corretos, é necessário ensiná-los. A educação para o desportivismo deve começar cedo, integrada no treino e na vivência dos clubes.

A ambição é clara: transformar o Algarve numa referência nacional no respeito e na ética desportiva. Uma meta exigente, mas possível, sustentada por um compromisso coletivo. A adesão de associações, árbitros, autarquias e figuras do panorama desportivo revela uma vontade real de mudança.

O projeto reúne um conjunto alargado de embaixadores que lhe conferem credibilidade e alcance. Entre eles, destacam-se os internacionais algarvios pela Seleção A, João Neves e Gonçalo Ramos, bem como o presidente da Liga Portugal, Reinaldo Teixeira. A estes juntam-se nomes relevantes como Rodrigo Cavaleiro, presidente da APCVD, José Borges, presidente da APAF, e ainda Luciano Gonçalves e Nuno Almeida, respetivamente presidente e vice-presidente do Conselho de Arbitragem da FPF. Também as forças de segurança, como a GNR e a PSP, se associam à iniciativa, reforçando o seu caráter abrangente.

A lista inclui ainda os selecionadores nacionais Roberto Martínez, Jorge Braz, Luís Conceição e Mário Narciso (esta semana Bruno Torres assumiu o cargo), num alinhamento inédito que reúne, pela primeira vez, responsáveis técnicos de diferentes modalidades em torno de um projeto promovido por uma associação distrital.

Particularmente relevante é o papel dos municípios, enquanto pilares no apoio ao tecido desportivo local, assegurando condições, infraestruturas e financiamento essenciais à atividade dos clubes. Numa iniciativa desta natureza, todas as autarquias são decisivas. Até ao momento, seis municípios já formalizaram o seu compromisso, tendo a Câmara Municipal de Loulé, presidida por Telmo Pinto, sido a primeira a fazê-lo - um sinal claro de liderança e envolvimento. A expectativa é de uma adesão generalizada a curto prazo.

A articulação entre políticas públicas e comportamento desportivo revela-se, aqui, determinante. Quando os municípios assumem um papel ativo na promoção de valores, contribuem para uma mudança estrutural no ambiente competitivo. Exemplos de autarquias que começam a associar incentivos financeiros a boas práticas apontam um caminho consistente e eficaz: premiar o respeito, valorizar a ética e criar mecanismos concretos que desencorajem a indisciplina.

Ao mesmo tempo, a proximidade entre associações, clubes e comunidades fortalece a mensagem. Quando os valores são vividos de forma consistente nos campos, nas escolas e nas famílias, tornam-se se parte integrante da cultura.

Outro aspeto essencial é a proteção dos árbitros e de todos os agentes desportivos. Sem respeito por quem garante as regras, não há competição justa possível. Criar um ambiente mais seguro, onde todos se sintam valorizados, é fundamental para a sustentabilidade do desporto.

O comportamento das lideranças - treinadores, dirigentes e figuras públicas - tem igualmente um efeito multiplicador. Um gesto de respeito vindo de um treinador, uma palavra ponderada de um dirigente ou uma atitude ética de um jogador profissional têm impacto direto na forma como os mais jovens interpretam o jogo e o mundo. São exemplos que moldam a forma como os mais jovens interpretam o jogo e a vida.

A campanha O Fair-Play Joga em Casa tem, igualmente, o mérito de ultrapassar as fronteiras do futebol. Os valores que promove são universais e aplicáveis a qualquer modalidade. Esta transversalidade reforça a ideia de que estamos perante algo maior do que uma iniciativa pontual: trata-se de uma visão para o desporto enquanto espaço de formação humana.

Numa sociedade onde o ruído se sobrepõe ao essencial, projetos como O Fair-Play Joga em Casa recordam-nos que o desporto continua a ser uma das mais poderosas ferramentas de educação social. Ensina-nos a ganhar e a perder, a respeitar regras, a lidar com emoções, a trabalhar em equipa - competências fundamentais para a vida em sociedade. Talvez seja aqui que reside a maior força desta iniciativa: na capacidade de nos lembrar que o adversário não é um inimigo, mas alguém que partilha connosco o mesmo espaço, as mesmas regras e a mesma paixão. Sem adversário não há jogo e sem respeito não há desporto.

No fim, os valores que aprendemos em campo são os mesmos que levamos para a vida. E se forem o respeito, a empatia e a responsabilidade, estaremos não apenas a melhorar o desporto — estaremos a construir uma sociedade melhor.

Mais do que ganhar jogos, importa ganhar valores. E esse é um campeonato que todos devemos querer vencer todos os dias, dentro e fora de campo.

Nota final: Um muito obrigado ao Presidente da Associação de Futebol do Algarve, João Pedro, pela colaboração neste artigo.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».