Mourinho entra em 'modo combate' e dispara em várias direções
O discurso sereno e conciliador dos primeiros tempos deu lugar à versão mais combativa de José Mourinho. Na sala de imprensa do Estádio Olímpico de Roma, após atingir a marca de dez jogos até 15 de outubro, o técnico português elevou o tom das críticas, visando desta vez a LaLiga e o Comité de Disciplina, que se juntam a uma lista que já inclui árbitros, imprensa, o futebol espanhol, jogadores — com exceção de Mbappé — e até os próprios adeptos.
O primeiro motivo de forte contestação esteve relacionado com o momento da divulgação do castigo de quatro jogos aplicado a Vinícius, comunicado apenas duas horas antes do apito inicial em Roma. Apesar de ser habitual a publicação das sanções às quartas-feiras, a ausência de um horário fixo e a proximidade do encontro motivaram a indignação do treinador.
«Tu és o jornalista, mas... deixas-me fazer-te uma pergunta? Achas normal que um jogador de uma equipa espanhola, que tem de disputar uma partida que também é importante para o futebol espanhol... achas normal que duas horas antes de um jogo um jogador saiba que apanhou quatro jogos de suspensão? Não é necessário que me respondas, mas é a pergunta que eu faço. Achas normal?», questionou Mourinho.
Mantendo um tom calmo nas palavras, o técnico recorreu a uma expressão portuguesa para ilustrar o seu desagrado: «Não podiam fazê-lo agora [depois do jogo]? Não podiam fazê-lo amanhã de manhã? Temos de vir de autocarro e quase a chegar ao estádio é que sabemos que o Vinícius tem quatro jogos. Em português diz-se: 'Gato escondido com o rabo de fora'. Parece-me que agora o gato já não está escondido. O gato anda à solta, anda sem vergonha. Anda à solta. Duas horas antes de um jogo, um jogador de uma equipa espanhola que conquistou três pontos para o prestígio do futebol espanhol, não me parece normal.»
Calendário sob mira
O calendário foi o alvo seguinte do treinador do Real Madrid. Na primeira semana de novembro, antes da paragem para as seleções, o clube defrontará o Valência, no Mestalla, a um sábado, depois de ter jogado em Atenas na quarta-feira anterior, cumprindo no limite as 72 horas de intervalo.
«No mínimo, é uma falta de respeito. Jogar em Atenas na quarta-feira à noite, chegar a Madrid certamente às cinco da manhã ou algo parecido e depois jogar no sábado em Valência, num fim de semana que antecede uma semana de seleções, onde não faz sentido nenhum obrigarem-te a jogar no sábado em Valência, que é um jogo dificílimo... Não me parece inocente», sublinhou.
Mourinho rejeitou ainda as justificações habituais relacionadas com os direitos de transmissão televisiva: «As desculpas de sempre, eu não as engulo. Porque estou no futebol há 25 anos. As desculpas da televisão, de que 'foi a televisão que decidiu', 'foi a televisão que escolheu que o jogo fosse ao sábado'. Já estou demasiado velho para engolir isto. E esta história do Vinícius, sabermos duas horas antes do jogo que tem quatro jogos de suspensão... Não merece comentários. Os madridistas não são estúpidos e eu farei tudo o que for possível para abrir os olhos às pessoas.»
Recorde-se que, dias antes, o treinador já tinha visado a comunicação social na sequência de situações extradesportivas de Mbappé, acusando a imprensa de tentar promover um ambiente hostil no Bernabéu, além de ter faltado a uma conferência de imprensa no recinto madrileno motivado pelo descontentamento com as arbitragens.
Ao fim de apenas dez jornadas disputadas e com a temporada ainda a meio de outubro, José Mourinho já entrou em definitivo em modo de combate. O técnico não tem poupado nas palavras e disparou em várias direções, visando a arbitragem, o comité de disciplina, os adeptos e até os próprios jogadores. O setor da arbitragem foi o principal alvo do treinador, com foco particular no dérbi do Metropolitano e na atuação de Ortiz Arias e do responsável pelo VAR, Trujillo Suárez. «O Comité de designação arbitral tem de estar feliz, porque foi tudo muito estranho. A primeira coisa é que uma semana antes do jogo já se sabe quem é o árbitro quando, segundo me dizem, é 24 horas antes. Depois, coloca-se um que com 41 anos não tem internacionalizações... pois não será porque é um grande árbitro», disparou Mourinho.
O ataque estendeu-se a Trujillo Suárez na sala do VAR: «Tem uma história muito completa como VAR nos jogos do Real Madrid. E sem ir mais longe, na época passada, a Real Sociedad na Taça, Osasuna, Girona... É um VAR que tem muita história e do pobre árbitro, pois pode dizer-se que era alguém sem experiência e dimensão para vir a um dérbi... mas este senhor não tem pressão. Porque aí, em Las Rozas, não há pressão. Ou há pressão e nós não sabemos. Esta combinação, um pobre árbitro que só fez jogos pequeninos e o senhor VAR, que tem uma grande história, pois... parabéns ao Comité de designação arbitral.»
O desagrado já vinha a acumular-se devido a critérios díspares em lances anteriores, nomeadamente no encontro com o Villarreal, onde apontou a existência de dois foras de jogo milimétricos com decisões antagónicas: um assinalado contra o Real Madrid e outro ignorado a favor do Villarreal. As dúvidas sobre as decisões estenderam-se ao jogo com o Betis: «Não foi repetido o penálti contra o Betis porque o VAR não conhece o regulamento... ou porque o VAR não quis? Porquê?»
Em paralelo, o técnico ironizou sobre o caso Negreira, apesar de já ter classificado a situação como o maior escândalo de corrupção arbitral do futebol mundial caso não haja punição: «O Negreira já não está, pois não? Ou ainda está? Não está, não? Ah, se não está, não está manchada por Negreira. Se já não está...»
Além dos órgãos federativos e da RFEF, Mourinho também deixou mensagens claras para a bancada e para a imprensa, abordando os possíveis assobios a Mbappé e o tratamento dado a Vinícius. «A minha esperança é que o Bernabéu seja capaz de ser justo. E para mim, ser justo é também ser inteligente. Ser capaz de ler nas entrelinhas. Ser capaz de entender as dinâmicas. Ser capaz de entender os objetivos», disse. Quanto a Vinícius, considerou que as reações negativas surgem de adeptos «provavelmente influenciados por muitos de vocês», em alusão direta aos jornalistas.
O balneário não escapou à exigência do treinador. Depois de ter classificado a equipa como «ingénua e inocente» no início da época, lamentando a falta de astúcia e de carácter competitivo, Mourinho não hesitou em repreender Asencio, após o jogador ter sido condenado por conduzir com uma taxa de álcool que quase quadruplicava o limite permitido: «Erros cometemos todos, mas acumulados... é outra coisa.»
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