Mery Andrade: «Renovei com os Raptors até 2030, gostam do meu trabalho»
NOVA IORQUE - Destemida, sem receio de desbravar caminho na NBA onde até hoje poucas pisaram e tiveram oportunidade para o fazer, Mery Andrade continua a fazer história no basquetebol. Aos 50 anos, a antiga internacional portuguesa e ex-jogadora da WNBA consolida a sua afirmação ao mais alto nível como treinadora-adjunta dos Toronto Raptors, num projeto de reconstrução onde acabou de renovar contrato até 2030.
Em entrevista a A BOLA, após um duelo elétrico frente aos Knicks no Madison Square Garden, em Nova Iorque, mesmo com pouco tempo disponível, Mery falou sem rodeios sobre as exigências de trabalhar no topo, as barreiras que ainda persistem para as mulheres no desporto de elite e de um campeonato de homens, a cultura de exigência que molda em Toronto e o orgulho incontido de ver Neemias Queta brilhar na maior liga do planeta. Uma conversa intimista e vibrante com uma mulher que recusa acomodar-se e continua a pedalar rumo ao futuro… como a mãe sempre a incentivou e avisou: querias ir de bicicleta? Então pedala!?
— Esta vai ser a sua quarta temporada na NBA e como treinadora-adjunta dos Raptors. Como tem sido a experiência?
— Espetacular! Estou muito contente com a escolha que fiz de vir para uma equipa que ia recomeçar. Quando chegámos, assistiu-se à transição da geração de 2018/19, quando eles ganharam o campeonato. Então começámos com uma equipa jovem — o que é muito difícil na NBA quando se começa com jogadores muito jovens, como é o caso de Washington [Wizards], Charlotte [Hornets] e Atlanta [Hawks]. E isso leva anos…
— E por vezes nem sai dali…
— Exatamente. Nós acreditamos no trabalho, acreditamos no progresso e em dois anos conseguimos melhorar muito. Já no nosso terceiro ano [2025/26] estivemos nos play-offs e fomos a Jogo 7 na primeira ronda [derrota por 4-3 contra os Cavaliers]. Mas na época também é preciso ter um bocado de sorte. Sofremos algumas lesões, nomeadamente de dois elementos do cinco inicial, e acho que a história teria sido diferente se o [Immanuel] Quickley e o [Brandon] Ingram tivessem jogado nos play-offs da temporada passada. Contudo, como o treinador disse sempre, não está cá ninguém que tenha ficado satisfeito com esse resultado — apesar de já ter sido muito bom. Penso que isso nos deu muita força este verão para trabalhar e estar prontos para a nova época.
Hoje [derrota ante os Knicks por 122-120 no quarto jogo da pré-temporada, no passado dia 15] foi um bocado o exemplo disso. Acho que Nova Iorque no ano passado foi a nossa peste. Foi das poucas equipas — creio que foram apenas duas — a quem não conseguimos ganhar durante a época regular. E hoje tivemos oportunidade [tiveram os dois últimos lançamentos], atuando com todos os jogadores.
— Superou todas as suas expectativas quando chegou em 2023/24? Salvo erro, vinha do Petro de Luanda, portanto um mundo totalmente diferente... Nestes três anos — prestes a começar o quarto —, o percurso tem superado o que imaginava?
— Sim e não. Eu vinha dos [New Orleans] Pelicans e com eles foi um bocadinho o contrário. No primeiro ano em que estive lá, chegámos ao play-in, começámos a ganhar e depois fomos aos play-offs. Mas depois essa equipa foi mudando, enquanto esta não: esta foi reconstruída e está a crescer. É um bocado como na Europa: quando se consegue ter a mesma equipa durante vários anos, cria-se uma cultura e dá-se continuidade ao projeto. Acho que é isso. As expectativas que temos passam por trabalhar duro, escolher sempre jogadores de caráter — que não tenham medo de trabalhar, gostem de defender e tentem dar resultados. A nossa identidade é mesmo essa e está a correr bem.
— Em julho, os Raptors renovaram com Darko Rajakovic [treinador principal]. Renovaram consigo também?
— Sim!
— Até quando?
— [risos] Até 2030.
— Até 2030 em Toronto. Esse seu entusiasmo deve-se também a ter a certeza de que estão a contar consigo para este trabalho a médio prazo? Ou seja, não é algo efémero, é para continuar e chegar a algum lado?
— Sim, sim… Gostei muito. Aconteceu durante o meu verão, que foi um bocado atribulado devido à documentação americana do Green Card [visto de trabalho e residência para estrangeiros]. O treinador telefonou-me — por acaso eu estava em Itália — e disse-me: 'Olha Mery, renovei agora e gostava muito que fizesses parte do nosso projeto. O que é que tu achas?'. E pronto, gostei. Na época passada, os meus jogadores [por quem é responsável] eram atletas sem muitas oportunidades, mas quando as tiveram estavam sempre prontos, e ele gostou muito disso. Disse-me: 'Continua a fazer o trabalho que estás a fazer, é isso que esperamos de ti'. Este ano tenho mais jogadores novos e jovens, o que é sempre um desafio. Já estou pronta para trabalhar…
— E a questão do Green Card? Estudou cá [Estados Unidos], jogou na WNBA... Nunca pensou em adquirir a nacionalidade americana para evitar o problema de ter de pedir um visto de trabalho ou Green Card todos os anos?
— Normalmente ouço sempre os conselhos da minha mãe — e você sabe, ela é a minha rock [rocha], como se diz aqui nos Estados Unidos. Esta foi a única vez em que eu disse: 'Ó mãe, eu faço depois, faço depois'. Durante a universidade não pensei nisso, vou dizer a verdade; mas na WNBA, onde era mais fácil por causa do estatuto, a minha mãe fartou-se de me avisar e eu não fiz. Depois deixei de jogar na WNBA [2004] de um dia para o outro. Entretanto, quando voltei para a universidade [San Diego, 2015-2019] como treinadora, tentei tratar disso, mas foi na altura em que mudaram de presidente [da administração Obama para a presidência de Donald Trump] e as coisas complicaram-se. Ao fim de 10 anos, lá consegui…
— Como treinadora-adjunta, quais são exatamente as suas funções atuais?
— Faço Player Development [desenvolvimento de jogadores], ajudo nos treinos e na preparação. Algumas das minhas responsabilidades passam também pela equipa da G-League [Raptors 905]: ter a certeza de que eles fazem o mesmo que nós fazemos e, por isso, por vezes tenho de ir controlar. Quando noutras ocasiões não me vê aqui nos jogos é porque tenho de os ir observar. A maneira como trabalhamos faz com que, se vir uma partida da G-League, seja como ver os Raptors: a defesa, a intensidade... Tanto que na temporada passada tiveram um registo incrível de 15 vitórias seguidas. Isso também faz parte das minhas responsabilidades.
Continua...
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