Até em Riade devem ter gostado dos Principezinhos de Portugal (crónica)
Se o problema era a Noruega, como disse Jesus, o problema foi resolvido com classe. Muita classe, aliás. Um golaço de João Cancelo na sequência de um lançamento lateral para a entrada da área — jogada ensaiada, aparentemente — e uma brilhante jogada a três (Vitinha-Félix-Ramos) para fechar o resultado e o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Não houve rei no Dragão, como não houve em Oslo e em Copenhaga, mas bastaram os Principezinhos de Portugal para carimbar o passaporte para a fase seguinte e somar a quarta vitória de rajada da era JJ.
A ideia de Jorge Jesus girava muito em torno de Haaland: não deixar que a bola chegasse ao gigante norueguês e, se ela chegasse, impedir que ele criasse perigo. Esta ideia, apesar do muito trabalho que o camisola 9 adversário deu aos defesas e aos médios de Portugal — sobretudo com os cotovelos —, passou no exame quase com distinção.
Depois, era necessário soltar o génio. E com João Cancelo, João Félix, Nuno Mendes, Francisco Conceição e Vitinha em campo — sobretudo estes —, tudo é possível. A juntar a este quinteto, Gonçalo Ramos: associativo, a jogar muito e bem de costas para a baliza, com constantes tabelas sempre que a bola lhe chegava. Para quem está de fora, tudo simples: defesa compacta, com os quatro do costume à frente de Diogo Costa, e Palhinha a servir de tampão ou de terceiro central, sempre que fosse necessário. Depois, era esfregar a lâmpada e aguardar que o génio se soltasse.
Claro que ainda houve um susto. Num livre sobre a esquerda, executado por Odegaard, a bola chegou a Ajer e este, à entrada da área, disparou uma trivelada fulminante e abriu o marcador no Dragão: 0-1. Monumental golo!
Com possantes jogadores pela frente e em vantagem no resultado, poderia haver o perigo de aparecerem os nervos e, com eles, o génio apagar-se, momentaneamente ou não. Não houve, porém, tempo para nervos, ansiedades ou roer de unhas, pois 159 segundos depois do golo (aliás: golaço!) do central norueguês, João Cancelo recebeu um lançamento lateral de Nuno Mendes para a entrada da área, deixou a bola bater no chão e depois, meus amigos, fez um golo de levantar qualquer estádio: 1-1.
Empate inteiramente merecido e, a caminho do intervalo, Portugal recolocava-se na rota de carimbar já o passaporte para os quartos de final. A Seleção Nacional jogava bem, aqui e ali até encantava, e soube ultrapassar, com distinção, o tremelique do golo de Ajer ao minuto 36. O monumental golo de Cancelo ajudou, assim, a baixar o ritmo cardíaco dos portugueses.
Após o descanso, a Seleção Nacional entrou numa fase de querer encantar. E tem estatuto para isso, como agora tão em voga está dizer-se e escrever-se. Muitas tabelas, muitas aproximações à área norueguesa, mas, sejamos justos, poucas verdadeiras oportunidades de golo. E curiosamente até foi Haaland quem começou por estar perto de marcar, quando fugiu a Rúben Dias, mas rematou de forma disparatada. Pouco depois, após passe de Bruno Fernandes, outro Rúben, o Neves, falhou o golo por pouco, desviando por cima da baliza.
Portugal tinha bola, conseguia levá-la até perto da área dos nórdicos, mas sem criar perigo junto de Selvik, até porque a bola chegava menos a Gonçalo Ramos e a João Félix. Porém, génio que é génio nunca desaparece. E assim foi ao minuto 79: Vitinha viu o que ninguém via (João Félix a desmarcar-se), João Félix viu o que toda a gente via (Gonçalo Ramos a aparecer, quase sozinho, na área) e depois Gonçalo Ramos fez o que tão bem sabe fazer (meter a bola na baliza, embora com um desvio um pouco atabalhoado): 2-1.
Faltavam pouco mais de dez minutos para Portugal colocar três carimbos neste ciclo de jogos: bater a Noruega, garantir a presença nos quartos de final da Liga das Nações e somar a quarta vitória seguida sob o comando de Jorge Jesus.
E, tal como no primeiro tempo, quando Ajer fez o 0-1, também surgiu, no segundo, um pequeno momento de ansiedade: duplo amarelo de rajada e consequente vermelho para Francisco Conceição ao minuto 86, deixando Portugal a ter de sofrer para manter o 2-1. Sofreu um pouquinho, nem por isso muito, e quando surgiu no Dragão o apito final do senhor Mariani, suspiraram todos os portugueses que gostam de futebol e da Seleção Nacional. Até, presume-se, na longínqua Riade. Onde o Rei desavindo deve ter gostado de ver a exibição dos Principezinhos de Portugal.