A geopolítica do apito
É importante não ter memória curta: o último árbitro central português numa fase final de Mundial de futebol foi Pedro Proença, no Brasil, em 2014. Nas duas últimas competições máximas da FIFA para seleções nacionais, Portugal apenas “colocou” Artur Soares Dias como árbitro assistente de vídeo na Rússia, há oito anos.
No Qatar, em 2022, nenhum colegiado português foi escolhido, num universo de apenas onze juízes de campo representantes da Europa, para um total de 64 jogos da competição. Este é o passado recente, e importa levar em consideração múltiplos aspetos que norteiam as decisões da Comissão de Arbitragem da FIFA, presidida pelo italiano Pier Luigi Collina, ele próprio árbitro de uma final de Mundial, em 2002, no Japão, entre Brasil e Alemanha.
A designação dos juizes de campo (também dos assistente e, mais recentemente, dos “Video Asistant Referees”), assente numa cuidada observação das características físicas, técnicas e psicológicas dos árbitros internacionais das seis confederações que sustentam a federação internacional. O que, evidentemente, não se resume a seis meses ou um ano, mas ao todo de um “ciclo” entre mundiais que, tal como o ciclo olímpico, integra quatro anos de atuações e evolução. Nesse particular, a FIFA entrega a cada confederação continental a responsabilidade de detalhados relatórios, para lá da própria observação e avaliação efetuada pelo organismo com sede em Zurique.
Há, em permanência, uma triagem qualitativa, procurando que os oficiais sejam verdadeiramente dignos da “Team One”, a feliz designação encontrada pela FIFA para caracterizar as equipas de arbitragem, concedendo-lhes a devida importância e, sobretudo, enviando deste modo uma clara mensagem a todo o “planeta Futebol” a propósito da necessidade de respeito por atletas de alto rendimento que, para lá das invejáveis condições físicas e do domínio técnico inquestionável, devem ser capazes de tomar decisões sob pressão em frações de segundo, ao ritmo de quatro a cinco (no mínimo…) por minuto, aliando a esse processo a exemplar colocação no retângulo de jogo e a capacidade de acompanhamento de proximidade de todos os lances passíveis de avaliação. Portanto, e para que não restem dúvidas: estamos perante atletas cujos parâmetros “competitivos” se assemelham a qualquer jogador de futebol de elite.
As decisões finais em relação ao lote final de árbitros (normalmente com as habituais duplas de árbitros assistentes que os acompanham durante a temporada) e de árbitros assistentes de vídeo, estão prestes a ser tomadas. Há uma ideia já muito aproximada do grupo final, mas alguns ajustes são ainda possíveis, e competirá a Colllina e ao seu “braço direito”, o suíço Massimo Busacca (também antigo juiz de primeiro plano), ajustar o grupo a um Mundial ainda mais desafiante, quer do ponto de vista logístico (pela dimensão continental e “coast to coast” dos territórios canadiano, estado-unidense e mexicano), quer no âmbito da condição física e psicológica (temperaturas tendencialmente altas, elevado desgaste e pressão redobrada), quer, também, na projeção de um número inédito de jogos (104, ao longo de quase seis semanas de competição).Há parâmetros indiscutíveis e inegociáveis: o “momentum” e as características psíquicas de cada juiz de campo, mas também a sua experiência em jogos de alto risco e de elevada exposição mediática.
Porém, há outras “nuances” (tão ou mais significativas, no momento das decisões finais…), que integram as cotas continentais e a satisfação das “exigências” diplomáticas de cada confederação continental. Neste particular, Artur Soares Dias esteve, por exemplo, à porta do Mundial 2022, sendo “traído” pela nomeação de dois juízes ingleses e outros tantos franceses (entre os quais a senhora Stéphanie Frappart), o que, de imediato, truncou uma maior diversidade nacional dos árbitros europeus.Para o Mundial 2026, há 16 árbitros do “velho continente” numa derradeira “short list”. Estarão reunidos entre o final de março e o início de abril na cidade-natal de Collina, a italiana Viareggio, em dois grupos (o primeiro de sete juizes, o segundo de nove).
João Pinheiro está entre eles. Afinal, o árbitro minhoto foi quarto árbitro da última final da Liga dos Campeões e apitou a Supertaça Europeia, passado recente suficiente que lhe deveria garantir, “a priori”, lugar nos eleitos para o Mundial. Mas nada é líquido, até que as nomeações sejam consumadas e a lista final divulgada. De novo os dois juizes ingleses (Anthony Taylor e Michael Oliver), e dois franceses (Clément Turpin e François Letexier), “ameaçam” desequilibrar as balanças nacionais, no âmbito do “numerus clausus” da UEFA.
Tenho, de Collina, uma ideia de justiça, ao mesmo tempo que me parece seguro que a Itália (país de árbitros de qualidade, desde Sergio Gonella a Nicola Rizzoli), terá em Maurizio Mariani o seu representante “diplomatico”. Mariani foi promovido à “Elite” da UEFA em janeiro de 2025, em simultâneo com Pinheiro, e dirigiu, o ano passado, a final do Mundial de sub-20, no Chile (prova onde o árbitro português também esteve presente). É o elevado número de jogos do “Mundial das Américas” que me faz pensar que João Pinheiro terá, legitimamente, lugar no contingente europeu. Ele terá, em breve, a responsabilidade de arbitrar uma das meias-finais dos “play-offs” da UEFA para o Mundial, e dirigiu sete encontros noutras tantas consecutivas jornadas da Champions League.
Jogam-se, agora, os últimos cartuchos, sobretudo diplomáticos. O peso relativo dos países e absoluto dos árbitros envolvidos terá a palavra final, para um Mundial em que o árbitro da final não deverá ser europeu, respeitando a “alternância continental”. Um sul-americano estará na calha. Mas lançou, a uma distância razoável da competição, dois nomes: o norte-americano Ismail Elfath ou, sobretudo, o “eterno” iraniano (também de nacionalidade australiana) Alireza Faghani. Será, sempre, a geopolítica do apito a ter a última palavra.