A verdade de Porti(r)mão (artigo de José Antunes de Sousa, 114)

Espaço Universidade 02-05-2022 20:01
Por José Antunes de Sousa

É verdade: nada há, ou julgamos haver, de mais instável e movediço do que ela própria, a verdade: todos a buscam, mas cada um a veste à sua moda e a investe das roupagens garridas da sua inegociável subjetividade - ela move-se ao ritmo da girândola dos interesses de cada qual. Aliás, já diziam os latinos que 'todo o pensamento é axiológico', o que, traduzido e proclamado em uniforme de campanha, quer dizer que não há um único pensamento que não tenha a movê-lo uma qualquer espécie de interesse. Eis, amigos, a razão, que é antes uma des-razão, para a imparável engorda da falange do cepticismo: escasseia quem ame a Verdade e por ela paute a sua vida.

 

E se há campo onde mais sugestivamente a verdade se confunde com o interesse esse é o acanhado e acotovelado mundo do futebol: a estridência exultante e exaltada da patibular reacção ao golo que se urde não rouquidão das uníssonas gargantas determina o valor da verdade que inelutavelmente se esquiva.

Apesar do carácter deslizante da verdade, o homem necessita de dotá-la de um minimum aceptabile, para que, à volta dela, seja possível a organização social assente num suporte ético e, nessa medida, se possa exorcizar a ameaça anómica - uma vida 'sem rei nem roque'. Sim, o homem precisa de dispor de um mínimo de verdade lidável, como meio útil de estabilidade psicossocial - e foi essa verdade, no caso, desportiva, que, no passado fim-de-semana, foi obscena e provocadoramente espezinhada e falseada.

 

Em tempo de Páscoa, houve amêndoas do Algarve (amêndoas especiais, envoltas em farinha de alfarroba): o Portimonense entrou garbosamente na fortaleza do Dragão com a prévia garantia: já perdemos, antes de jogar. Aquele jogo foi, com efeito, dado por dirigentes, técnico e jogadores antecipadamente como perdido - não contava minimamente para os de Portimão, só contava, e  muito, para o Porti(r)mão! O clube algarvio perdeu por falta de comparência, o que à luz dos regulamentos, acarreta derrota por 3-0, mas como insistiram na farsa, acabaram com 7-0 no cabaz.
 

De facto, se há verdadeiro motivo para nos espantarmos com a longevidade ganhadora do Presidente do FCP ele prende-se com a sua capacidade (leia-se poder informal) para urdir e arregimentar imprevistas cumplicidades, bem para lá da pura lógica da solidariedade geográfica. Até parece que tais cumplicidades capricham em surpreender - elas tecem-se quase sempre por uma lógica do avesso, da improbabilidade: assim, o efeito gerado é mais impressivo e convincente. É o movimento flutuante das alianças conjunturais, movimento que gera intencionalmente uma particular dinâmica de autoafirmação: inviesada, caprichosa e egocêntrica. É o reino do tacticismo e do salamaleque.
 

Com o inefável Presidente do clube nortenho sempre o mesmo desígnio: obter a referencial genuflexão do oportuno súbdito que, por sua vez e a troco de ilusórios e fugazes benefícios, aceita de boa mente desempenhar o papel de uma luzidia subalternidade, mesmo que tal lhe possa granjear algum tipo de enxovalho público: minimiza-se o enxovalho em troca do enxoval!
 

O certo é que num país a sério o arranjinho do FCP- Portimonense dava 'cana': a verdade desportiva foi despudoradamente defraudada - um crime.

E foram estes os mesmos que, em honra da santa hipocrisia nacional, se levantaram contra o apelidado jogo da vergonha. Que topete!
 

Naquele jogo ainda foi possível descortinar atenuantes em contraponto com as agravantes de agora: os jogadores da B SAD não puderam jogar, estes não quiseram. Então, só jogaram sete, agora, nenhum. Foi uma equipa e um clube que aceitaram não jogar: caso de polícia.

Investigue-se.

 

José Antunes de Sousa
Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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