Comparar as políticas antidopagem (artigo de Vítor Rosa, 165)

Espaço Universidade 25-08-2021 18:31
Por Vítor Rosa

Criada num contexto de crise em 1999, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) é financiada e dirigida a 50% pelas federações desportivas internacionais e o movimento olímpico e a 50% pelos Estados. No entanto, isso não é suficiente para lhe dar uma força jurídica no plano internacional. Para comparar as políticas antidopagem e as dificuldades de harmonização, apoiamo-nos no âmbito de um primeiro inquérito exploratório realizado em cinco países (Brasil, Espanha, França, Japão e Moçambique), em que participámos no âmbito do exercício das nossas funções de investigação e docência na Université Paris Nanterre La Défence, em 2015-2016.

 

Esta amostra de países, bem contrastada, foi retida em razão da dispersão de certas caraterísticas: dispersão geográfica, dispersão linguística (à qual a UNESCO é sensível), dispersão da intervenção dos Estados em matéria desportiva, dispersão do desenvolvimento económico e dispersão da implementação de políticas de saúde pública.

Para a realização deste inquérito, recorreu-se ao apoio de equipas universitárias locais. Os critérios articulavam a vontade de envolver os Estados que acolhiam os investigadores, com a nossa equipa. Este projeto, que teve o apoio do Ministério Francês do Desporto e da UNESCO, através de uma Cátedra, inscreve-se numa problemática mais abrangente que o dossier de luta antidopagem. Procurou construir programas nacionais de investigação, dando a possibilidade às equipas de estreitar laços e de encontrar formas de financiamento, articulando com as instituições locais de luta antidopagem.

 

Os dados recolhidos foram analisados, recorrendo à socio-informática (programa Prospéro), historicamente ligada à sociologia do risco. Existe uma pluralidade de tratamentos de corpus de textos, nomeadamente estatísticos. A preocupação da equipa de investigadores foi a de ligar quatro dimensões: dimensão estatística, permitindo tratar uma grande quantidade de dados; dimensão semântica, capaz de dar conta dos significados atribuídos a temas ou a personagens, fórmulas ou argumentos; uma dimensão histórica, reenviando para os fenómenos de gradualidade ou de ruturas, de retorno ao passado e de compromisso para o futuro; e, por fim, uma dimensão pragmática, ligada a quadros de ação ou de enunciação. Os textos (corpus) recolhidos puderam descrever estas quatro dimensões, sem sofrer enviesamentos das interpretações teóricas.

 

Os resultados sobre a comparação internacional em matéria de luta antidopagem permitiram constatar que estão ligadas ao modo de governância, que visam legitimar uma política pública, os promotores ou os “chefes de fila” numa lógica concorrencial, muito próximo, aliás, da competição desportiva. Por outro lado, verifica-se que desejam anunciar uma exemplaridade, uma ética, uma pureza na produção da performance. Trata-se de mostrar que o seu país oferece mais garantias do que o seu vizinho na pureza desportiva, sinal de que é, provavelmente, mais justo. As dúvidas sobre a pureza da performance incidem sobre a qualidade das avaliações restituídas às instituições supranacionais.

 

Solicitados para contribuir para uma aproximação mais cooperativa do que concorrencial, a equipa de investigadores procurou questionar sobre a independência e o conhecimento das diferentes equipas académicas locais, por forma a examinar, de forma mais aprofundada, as ações públicas nacionais e os processos de implementação.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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