Entrevista A BOLA: «Não me arrependo de sair do Benfica»

Benfica Entrevista A BOLA: «Não me arrependo de sair do Benfica»

NACIONAL22.06.202318:38

Recebeu-nos no coração do Baixo Alentejo, na vila natal de Almodôvar, como bom embaixador do futebol alentejano, sob um manto de calor e simpatia. Viajámos dos 12 anos, quando Diogo Gonçalves chegou ao Seixal, até aos 26, quando trocou o Benfica pelo Copenhaga. O que muitos julgariam ser passo atrás na carreira significou, afinal, duas festas de campeão nacional.

Deixou o Benfica em janeiro, depois de quase década e meia de ligação e quando até tinha utilização. Qual a razão?
- Foi um processo natural, o Copenhaga queria contratar-me há muito, começou a falar com o meu empresário em setembro, foram conversando e negociando calmamente e em janeiro confirmaram que queriam contratar-me.


Era um suplente utilizado no Benfica, tinha tempo de jogo.
- Sim, mas conversei com o meu empresário, com o meu pai, decidimos que este era o projeto ideal para mim. E até havia o interesse de outros clubes. Era o passo a dar, precisava de um estímulo novo, precisava de mudar.


Esteve emprestado ao Famalicão e ao Nottingham Forest, mas decidiu cortar a ligação ao Benfica.
- Tinha de dar outro rumo à minha carreira, procurar outros ares, procurar ser feliz. E nunca me arrependi de sair do Benfica.


Tem 22 anos, está no Benfica, no centro de estágio do Seixal, desde os 12 anos. Não terá sido, ainda assim, uma decisão fácil.
- Mais de metade da minha vida foi passada no Benfica e claro que irá sempre manter-se um sentimento especial pelo Benfica.


Saiu, mas ainda deu para celebrar o título de campeão.
- Sim, significa que consegui o queria, já andava à procura disso há algum tempo. Nestes anos todos de equipa principal procurei ser campeão e felizmente acabou por correr bem.


E quanto a Roger Schmidt? Os jogadores que partem elogiam a frontalidade do treinador alemão.
- É muito honesto, muito honesto. Chamou-me quando já sabia que eu iria aceitar proposta do Copenhaga e disse-me: ‘não é por minha vontade que vais sair, percebo o teu lado, queres jogar mais, mas por mim podes ficar, não prometo que vais jogar sempre, mas terás a mesma coisa, tens jogado’. Disse-me isso. Eu agradeci-lhe: ‘sei disso, mas também preciso de outras coisas, preciso de jogar e de outros estímulos, preciso de mudar’.


«O treinador veio a Portugal falar comigo»


Dinamarca, país diferente, contexto diferente, clube diferente, primeira experiência sem qualquer ligação ao Benfica, dado que noutras ocasiões saiu por empréstimo, como é que as coisas correram?
- Senti um apoio enorme de toda a gente, senti que as pessoas gostaram muito de mim, quer o staff, quer os meus novos companheiros, que foram espetaculares comigo, sempre com a preocupação de saber se estava tudo bem comigo ou se precisava de alguma coisa, inclusivamente havia um jogador português, Zeca, que me ajudou muito na fase de adaptação.


Sentiu que chegava a Copenhaga com estatuto de estrela da equipa, depois de ter jogador a Liga dos Campeões pelo Benfica?


- Sim, vinha de um clube grande, vinha do Benfica, e eles olham muito para isso. Cheguei e senti que pensavam imediatamente: ‘este vem para ajudar, para acrescentar, para fazer a diferença’. E na realidade aconteceu um bocadinho assim, pois quando cheguei íamos atrás, com oito ou nove pontos de desvantagem, e no final conseguimos ganhar campeonato e taça. E isso foi muito importante para mim. Íamos em terceiro, atrás de Nordsjaelland e Viborg.


 Mas nem tudo foi perfeito.
- Na verdade nem tudo foi fácil, tive uma lesão logo ao fim dos primeiros quatro ou cinco jogos e que me impediu de estar no meu melhor, sentia alguma dor, depois fiz tratamento, senti-me melhor, fui recuperando e os resultados começaram a aparecer.


A sua afirmação na equipa e a recuperação da equipa coincidiram e as coisas começaram a correr muito bem, o que é que o treinador lhe dizia? E as pessoas com quem se cruzava?
- O treinador é muito próximo dos jogadores, falava sempre comigo, sempre preocupado depois de cada jogo, se precisava de alguma coisa, se a família estava bem, são detalhes, mas fazem a diferença, foi o treinador que veio a Portugal ter comigo tentar convencer-me a trocar o Benfica pelo Copenhaga.


Conte-nos esse processo.
- O treinador [Jacob Neestrup] veio a Portugal com o diretor desportivo, em dezembro, tivemos uma conversa - nem vou chamar-lhe reunião pois foi mesmo uma conversa muito aberta entre eles, eu e o meu empresário -, basicamente falou-me do projeto, mostrou-me vídeos sobre a forma como queria que o Copenhaga jogasse, mostrou-me vídeos com imagens minhas de maneira a mostrar-me como gostaria que eu me integrasse no modelo dele para a equipa do Copenhaga, disse-me que era o jogador que ele queria. ‘Eu vou ajudar-te e tu vais ajudar-me’, disse-me.


Treinador ainda jovem, 35 anos.
- Nunca tinha trabalhado com um treinador tão novo, mas nem é tanto pela idade, é mais pela forma como o treinador trabalha, a liderança, o acompanhamento do jogador, isso também é muito importante.


Sentiu menos responsabilidade por jogar fora de Portugal?
- Não, na verdade havia aquele estatuto de que falámos, que me obrigava a chegar lá e a mostrar imediatamente o que valia. Isso, naturalmente, pesava, mas também sentia que estava livre e que as pessoas acreditavam em mim. ‘Vou mostrar o que valho’, foi mais por aí que eu encarei as coisas.


Quais são as expectativas para a próxima temporada?
- Para já é importante começar e prepararmo-nos bem, tentar ao máximo entrar na Liga dos Campeões, é muito importante. No ano passado estivemos na fase de grupos. Expetativa do clube é estar lá novamente, seria brutal, os adeptos estão entusiasmadíssimos, é o prestígio do clube, os clubes que vão jogar à Dinamarca, as viagens que podem fazer para ver os jogos, é muito giro para eles, é a melhor competição.


Foi encontrar Zeca Rodrigues, 34 anos, jogador português, internacional grego.  
- Posso dizer que em tão pouco tempo criámos uma ligação muito grande, uma amizade boa, é uma pessoa maravilhosa. É aquela pessoa que num minuto está a dar-te um conselho e no minuto a seguir está na brincadeira contigo. Foi-me dizendo como funciona isto, como funciona aquilo.


O clube tem mais ou menos regras do que o Benfica?
- Tem obviamente as suas regras, mas na rua mesmo que as pessoas te conheçam deixam-te à vontade, não te chateiam, até podem acenar, mas não se aproximam, não vão pedir fotos, nesse aspeto é mais discreto do que em Portugal. Podemos estar tranquilamente entre amigos ou com a namorada num local público.


Copenhaga é muito diferente de Lisboa?
- Sim, é uma cidade diferente, muito diferente, posso dizer por exemplo que não há trânsito, as pessoas andam muito de bicicleta, vão de bicicleta praticamente para todo o lado. É uma cidade linda, dá para fazer tudo e tudo é perto, tem rio e as pessoas de verão até fazem praia lá. Não é só gelo, a cidade é maravilhosa, cheia de monumentos para visitar, há de tudo um pouco para fazer.


Há quem olhe para uma mudança do Benfica e da Liga Portuguesa para o Copenhaga, da liga dinamarquesa, como um passo atrás.
- Não vou dizer que é um clube tão grande como o Benfica, mas é um clube grande, que luta todos os anos para ser campeão, que tem a ambição de entrar todos os anos na Liga dos Campeões, não diria portanto que é um passo assim tão atrás, é um passo mais certo que eu quis dar e se puder darei passo ainda maior.


Que expectativas tem para a sua carreira? Tem 26 anos, onde se vê, por exemplo, aos 28 anos?
- Gostava de jogar Premier League ou Liga espanhola, gosto muito do futebol da Liga espanhola. Mais técnica, não tanto pela velocidade, mais tática. E, claro, também adoro a Premier League.