Eu, Professor me confesso - Parte 6 (artigo de José Neto, 74)

Espaço Universidade 15-11-2018 13:20
Por José Neto

Pensava eu que havia concluído o tema referido nos dois artigos anteriormente publicados, mas há sempre algo que fica na memória das coisas passadas e que ou por distração ou pela necessidade de encurtar o texto ou ainda pelo facto de quando nos colocamos em posição de pessoalizar a função, entrar em posição de reserva, o facto é que não gostaria de terminar a temática do Desporto na Cadeia, sem fazer um reconhecimento público aos colegas que nesta última fase me foram acompanhando. Da justa e exemplar forma de liderar o projeto pedagógico, a atitude verdadeiramente humanista da Dr.ª Alice Costa, que deixou bem vincada a sua competência. Uma autêntica embaixadora na arte de educar pelos valores da cidadania, bem representativa nesse mundo para “além das grades”.

 

Outro facto que gostaria de mencionar foi, (como tem sido ao longo do tempo), o encontro entre atividades desportivas de meus alunos de mestrado em treino desportivo do Instituto Universitário da Maia – ISMAI no seio da prisão.

 

Não é propriamente o ato de participar através da atividade lúdico- desportiva que mais interessa, mas sobretudo colocar estes jovens em final de curso em contacto com uma realidade tão expressiva, quanto dispensada.

 

Os altos muros, as janelas, as paredes e as celas, condicionam e limitam a possibilidade de vislumbrar pouco mais do que a clareza do céu, gerando-se, nas horas de contacto com o pátio, um forte contraste de luz, pela reflexão que a incidência do sol nas paredes caiadas a branco provoca. Como consequência, esta deformação de perceção visual, gera dores de cabeça, tonturas e vertigens, em especial quando na saída nos confrontamos com o mundo voltado para o exterior.

 

Ainda no que concerne ao ruído permanente do fechar e abrir dos gradões e portas das celas, o cheiro caraterístico da prisão, onde o intenso odor da lixívia, creolina e outros produtos de limpeza no contraste com o uso exagerado de perfumes, leva a que permaneça na memória a vontade de “fugir” cá para fora.

 

Ainda as fardas ou roupas impostas à condição de recluso, a identificação através do número em vez do nome, o desleixo pela apresentação, algum descuido de higiene pessoal que estes desavindos ou “vencidos da vida,” que olham para tudo e para nada, deixam uma imagem que a todos persegue nas horas em que os portões se voltam a abrir.

É assim que os meus alunos me confidenciam aqueles momentos, como os de maior significado pela aprendizagem da vida: “que bom respirar este ar puro …  tão bom estarmos em liberdade”!...

 

Ainda nesta abordagem contextual, posso aludir o facto de há uns bons anos ter feito um jantar de Natal na Prisão e que até transferi em conto (também publicado em tempos nesta rúbrica) e que se me permitem, já que estamos em tempos próximos da época festiva, retiro do mesmo, uma das partes:

 

“ Foi sim… numa tarde de vésperas de Natal que resolvi fazer duma surpresa uma visita. Cheguei à Cadeia quando algumas visitas de familiares se abeiravam do portão de saída. Notei em quase todos os rostos meios descobertos algumas lágrimas e também nas mãos de crianças, pequenos embrulhos cobertos por fitas reluzentes duma só cor.

 

Uma saudação com resposta quase inaudível e lá me desloquei para o primeiro pátio, aguardando o simpático atendimento do guarda de serviço, que me acompanhou ao segundo portão de acesso ao primeiro corredor que fazia ligação com novo portão e, este, a um outro espaço aberto por onde circulavam alguns vultos encobertos pelo triste regresso ao espaço bem próximo entre o refeitório e as celas.

 

Eram 18 horas duma tarde que se fazia noite e já alinhados, centenas de pratos em mesas corridas com canecas de alumínio, e, lá se iam sentando, um recluso e outro e mais outro … e tantos outros cobertos por um manto cor de silêncio!...

Não faltavam as batatas, o bacalhau, a hortaliça e demais iguarias … mas notava-se faltarem as forças para fazer do apetite a vontade de comer, que de forma serena e pautada, pelo recato se ia processando.

 

No momento da despedida, olhos fitados num estado de amargura, iam-me acenando o que a boca impedia resposta e, entre alguns abraços, toquei-lhes o rosto e, não tive sequer forças para lhes desejar um Bom Natal… apenas aquele olhar com o desejo para lhes dizer com o coração que num outro Natal, outro apetite de consoada fosse acontecimento de vida.

Entretanto alguém me chama. Volto-me e dois reclusos se me dirigem trazendo entre mãos um cesto feito de vime e lá dentro algumas peças de barro por eles moldadas, cosidas e pintadas – eram nada mais, nada menos do que uma ovelhinha, o Menino Jesus e um pastor!... Nesse momento, senti fazer-se Natal!.”..

 

Outros encontros e demais histórias de vida fazem testemunho, quando para tal vou encontrando nas estradas da liberdade alguém que, passou a ter o nome escrito nas barreiras do tempo, e deixou para trás, com estilete rasgada na praça da liberdade, uma palavra feita rancor e mágoa …NÃO VOLTARÁS!...

 

 

José Neto é Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./ U.E.F.A.; Docente Universitário.

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