Papas, bolos e ‘i-voting!’...

OPINIÃO08.08.202003:00

Vim para férias fora de Lisboa, como de costume para a Barra/Costa Nova, isto é, mudei de ares. Mudar de ar, porém, não significa que tenha mudado a interrogação dos sportinguistas com quem me cruzo, e são muitos, neste distrito de Aveiro.
Antigamente - a última vez foi em 2017 -, normalmente, em Lisboa ou aqui, perguntavam-me: então doutor, este ano é que é? Infelizmente há muitos anos que respondia que era preciso ter calma, para não denunciar a minha forte convicção de que ainda não seria nesses anos. Talvez só tenha existido em mim alguma esperança no primeiro ano de Jorge Jesus!
Depois, em 2018, foi o que foi e não vale a pena estar sempre a recordar isso, ainda que Sousa Cintra tivesse manifestado a sua esperança de que o Sporting seria campeão. Não acho que o fosse - e não por falta de capacidade de José Peseiro -, mas não custaria ter dado a oportunidade a um treinador que nos havia quase conduzido, na mesma época, a uma vitória europeia e ao título nacional. Logo então, infelizmente, se manifestou a arrogância e incompetência, apanágios indisfarçáveis desta administração que conduz os destinos da SAD, desde Setembro de 2018!
Esta administração (ou outra já nem sei dadas as mudanças) encheu o seu ego com vitórias na Taça da Liga e Taça de Portugal, aproveitando o trabalho de outros, não só do treinador despedido, como também da comissão de gestão. Sousa Cintra foi criticado por ter recuperado Bas Dost e Bruno Fernandes, coisa que a actual administração não conseguiria fazer, pois, em vez disso, quase vendeu tudo o que havia para vender. E Varandas bem tinha dito que era o mais capaz para fazer voltar os que rescindiram! No mínimo deviam ter tido a humildade de dividir esses triunfos com a administração imediatamente anterior e reconhecer que se Sousa Cintra não tem recuperado Bruno Fernandes onde iam buscar os milhões da venda! O mérito dessa venda é de Cintra e não de Varandas!
Por isso mesmo, porque só dependiam do seu trabalho, a época de 2019/2020 iniciou-se de forma desastrosa e terminou num quarto lugar. Mas a arrogância continuou e depois de uns 5-0 impostos pelo nosso rival, o presidente, no final desse jogo, não ficou preocupado. Eu e quase todos os sportinguistas ficámos preocupados. Não me lembro de uma reacção semelhante por parte de um presidente do Sporting!
Não vi, pois, no inicio da época que há dias terminou, nenhum sportinguista esfregar as mãos e dizer «este ano é que é»! Percebeu-se demasiado tarde porque é que o presidente não estava preocupado. A sua estratégia vencedora, mas inconsciente e irresponsável, passava pela contratação, por empréstimo, de Bolosie, Fernando e Jesé, sobre os quais o presidente se pronunciou de forma apenas não entendida pelos ignorantes do futebol:
Bolasie: «Optámos por estes três jogadores que estavam na lista do nosso scouting. O Bolasie é um jogador de rendimento, é um jogador feito, maduro. Temos um plantel muito jovem e precisámos de jogadores com maturidade. É um extremo com 120 jogos na Premier League. Na última época, no Anderlecht, fez oito golos, oito assistências e 38 jogos. Está habituado a campeonatos de alta intensidade.»
Jesé: «O Jesé é um avançado que está identificado há muito tempo. Finalmente encontra-se comprometido com a sua profissão. Se me perguntarem se gostaria de ter o Jesé de há três anos eu digo que não. E disse isso mesmo ao jogador. Mas agora é diferente, recolhi informações com pessoas que partilharam o balneário com ele e hoje sei da vida dele dentro e fora de campo. Saiu o Bas Dost, mas o Jesé é também um avançado centro. Não é igual ao Dost ou ao Luiz Phellype, mas também não queria isso. O Jesé é avançado centro, mas mais móvel, dá outras mais-valias. E o Vietto também pode jogar a avançado centro, fez assim a melhor época no Villarreal.»
Fernando: «O Fernando é um extremo que foi considerado dos melhores do campeonato brasileiro em 2016/2017 e 2017/2018. Foi uma revelação do campeonato brasileiro».
Era suposto darem muito trabalho às equipas adversárias, mas, ao fim e ao cabo, apenas deram trabalho ao Paulinho, nosso querido roupeiro, para lhes tratar do equipamento!...
E pergunto, com a inocência de um futuro i-votante: além de se assumirem responsabilidades, não ficaria bem um pedido de desculpas?
Recordar as tristezas desta época é puro masoquismo que os sportinguistas não merecem. E agora que a época de 2020/2021 está prestes a iniciar-se, tanto quanto me apercebo do que leio e ouço na comunicação social, já que a do Sporting está ocupada com o i-voting, não sei com o que me devo preocupar: com as contratações que não se fazem, com aquelas que se apontam, com as vendas dos melhores ou com as penhoras dos credores?
Enfim, preocupo-me com o rumo sem rumo que o Sporting está a tomar!
Mas, voltando ao início desta crónica, renovo a minha afirmação de que mudei de ares, mas os sportingustas dirigem-se a mim com a mesma interrogação que me faziam em Lisboa: então doutor, e o nosso Sporting?
Esta pergunta não é feita com alegria, nem com tristeza, mas com a preocupação estampada no rosto! O pior, porém, é que alguns se interrogam com manifesta indiferença pela ausência de rumo, desportivo e financeiro, do Sporting Clube de Portugal, e, mais particularmente, da sua SAD. E pior ainda é que não lhes sei responder
E esta indiferença e falta de entusiasmo preocupam-me, uma vez que a época ainda não começou. E se começa mal, quando ainda não nos deslocamos ao estádio, o que poderá acontecer se, quando houver autorização para os sócios e adeptos já estiverem mais indiferentes e ainda menos entusiasmados?
Receio o pior com gente tão pouco humilde a gerir o clube? E fico absolutamente espantado como é que perante uma crise financeira e desportiva da SAD, a preocupação seja o i-voting como se esta forma de votação no clube resolvesse a questão da incompetência que grassa na SAD!
Peço muita desculpa, mas se com papas e bolos se enganam os tolos, não é com o i-voting que se enganam os sócios do Sporting Clube de Portugal e, por tabela, os accionistas da Sporting SAD! Os sócios e adeptos merecem respeito e não podem ser tratados como pagode!...

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