O fim dos velhos dinossauros

OPINIÃO02.09.202306:30

Figo e Proença poderão protagonizar uma corrida que se pode tornar decisiva para uma discussão essencial sobre o futuro do nosso futebol

LUÍS FIGO, 50 anos, admitiu, a A BOLA, candidatar-se à sucessão de Fernando Gomes na presidência da Federação Portuguesa de Futebol. Eis uma notícia que pode mexer com a calma corporativa do futebol português. Figo é mais do que um nome maior do futebol nacional. Ele é uma personalidade de prestígio mundial, sempre manteve uma relação estreita com as principais instituições do futebol internacional, em especial com a UEFA, onde se tornou um dos conselheiros mais influentes do presidente Aleksander Ceferin. Tem um importante historial na criação de escolas de formação de futebol e participa ativamente com organizações de solidariedade com crianças desprotegidas nos países mais pobres do mundo.

É também conhecida a vontade, aliás já manifestada, da candidatura de Luís Figo tanto à presidência da UEFA como à presidência da FIFA, algo que o português entende como sendo mais possível se partir de uma posição intermédia de presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

Fernando Gomes terminará na FPF a sua missão de sucesso por limitação de mandatos, sairá para o órgão máximo da FIFA para trabalhar sob a presidência de Gianni Infantino e o apetecível lugar de presidente da Federação Portuguesa fica, assim, em aberto, já no próximo ano.

Todas as indicações apontavam para um nome: Pedro Proença. O atual presidente da Liga seria, aliás, um candidato natural, apesar de, nos bastidores, se terem formado várias candidaturas virtuais que pelos mais diversos motivos se foram esfumando. Proença, que tem feito um trabalho assente em equilíbrios muito difíceis de sustentar no mar encrespado do futebol nacional, chega a 2024 com um legado positivo e uma história de crescimento do futebol profissional, que inclui a promessa de cumprimento da globalização dos direitos televisivos.

O aparecimento de uma précandidatura de Luís Figo, não sendo, de todo, surpreendente é, pelo menos, súbita e, por isso, algo inesperada. Uma eventual corrida a dois (Proença e Figo) não deixará de criar clivagens no complexo e disperso universo eleitoral para a presidência da Federação. Novos alinhamentos se irão formar, novas alianças se irão constituir em torno de projetos que terão de ser ainda mais ambiciosos.

A acontecer, julgo que o futebol português só ganhará com isso. É provável que uma candidatura de Luís Figo traga uma visão internacional do desenvolvimento do futebol num país em que os clubes só têm uma classe A e uma classe Z, avassaladoramente distantes nas condições em que se defrontam numa mesma prova. Uma visão que se irá opor a um projeto mais institucional e que levará em linha de conta a complexa contabilidade dos eventuais apoiantes.

Porém, a discussão que poderá instalar-se e desenvolver-se a partir de duas candidaturas fortes e personalizadas, pode, desde logo, tornar-se num momento de grande vitalidade, capaz de arrumar, de vez, com um dirigismo de velhos dinossauros e que já foi muito para além do prazo de validade, tanto em organizações de classe, como nos clubes. Ao mesmo tempo que poderá marcar o momento de transição para o futebol português do futuro, com gente de outra geração, de outra saúde intelectual e de outro comprometimento social.

Depois da presidência inteligente, moderna e bem sucedida de Fernando Gomes, desejava-se, naturalmente, que a sua sucessão trouxesse, no mínimo, garantias de que não haveria um retrocesso trágico, hipotecado a pequenos e grandes senhores feudais do futebol português. Para já, o horizonte está a desanuviar-se e permite uma atitude otimista.

DENTRO DA ÁREA
Félix e Cancelo desafio decisivo

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FORA DA ÁREA
O mês em que tudo recomeça

Nos meus tempos de juventude, setembro era um mês de verão. Agora é um mês de nostalgia, um género de segunda-feira dos meses, um ponto de (re)partida. Dizem os políticos, a rentrée. Há sempre algo de novo e de velho em todos os recomeços. E já que estamos na onda dos francesismos, há sempre alguma coisa de déjà vu. É como no virar do ano. Nenhuma tragédia se apaga, mas acende-se uma luz de ilusão de que em breve possa acabar. Portugal é um país que se interrompe em agosto. Agora recomeça de onde estava.

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