Vozinha: «Tive de desativar notificações. Acordava todos os dias com 300 mensagens»
Do anonimato à fama com a participação no Mundial 2026 por Cabo Verde, Vozinha voltou a falar da ascensão meteórica no futebol. Numa entrevista comovente à revista France Football, o ex-guarda-redes do Chaves recordou as origens difíceis, o reconhecimento repentino e o impacto do desporto no sustento da família.
«Por muito forte que seja mentalmente, ninguém está preparado para se tornar famoso de um dia para o outro. Tive de desativar as notificações no meu telemóvel. Acordava todos os dias com mais de 300 mensagens no WhatsApp porque toda a gente conseguiu rapidamente o meu número», confessou.
Josimar Dias, nome civil, admite ter saudades dos tempos em que passava despercebido: «A intimidade, a tranquilidade, o anonimato… Sou observado permanentemente. É difícil de assimilar. Já não posso sair a lado nenhum sem ser reconhecido. É agradável, mas às vezes é demais. As pessoas querem demonstrar o seu carinho e respeito, mas nem sempre pensam em ti. Aproximam-se sem pedir licença, insistem e filmam-te quando estás a comer. Gostaria de satisfazer toda a gente, mas é impossível.»
Recuando no tempo, lembrou as dificuldades em Cabo Verde. «Muitos dos meus companheiros de equipa tinham trabalhos fisicamente exigentes: eletricistas, comerciantes, agricultores... Levantavam-se cedo e regressavam a casa exaustos. Na minha primeira equipa, no Ribeira Bote, ainda tinha de conciliar as aulas do ensino secundário, onde também jogava basquetebol e voleibol. Mas nunca tive um segundo emprego», recordou o guardião.
E reconheceu ser um caso raro: «Fui um dos poucos privilegiados que recebiam o suficiente para viver bem do futebol: desde 100 euros por mês, o salário mínimo da altura no início da minha carreira, até aos 450 euros durante os meus melhores anos. Isso permitiu-me ser independente, mas não era a melhor forma de encarar o futuro com tranquilidade. Tinha um plano B: estudar para ser arquiteto. Esse era o meu outro sonho. Pensei nisso durante muito tempo, mas nunca fui para a universidade porque o futebol assumiu prioridade sobre tudo o resto.»
O internacional cabo-verdiano revelou ainda o que fez quando se tornou independente, a nível financeiro. «Paguei as contas de água, internet e eletricidade da família. Comprei café, o meu vício, e alguns artigos que faziam falta em casa. Sempre soube gerir bem o meu dinheiro e poupar», disse, antes de partilhar um momento difícil.
«Quando eu tinha 12 anos, o meu avô tornou-se alcoólico. Começou a desaparecer, a faltar dias ao trabalho, a perder clientes... Isso afetou o nosso dia a dia. Às vezes a minha avó não sabia onde ele estava e cabia-me a mim ir procurá-lo. Isso durou até à morte dele, quando eu tinha 21 anos», confessou.
«O futebol sempre foi mais do que um simples jogo para mim. Tendo em conta que o meu pai partiu para estudar psicologia e sociologia em Portugal e que a minha mãe era empregada doméstica, tornei-me, de certa forma, o 'homem da casa'. Aquele que tinha de colocar comida na mesa.»