TransferRoom: o Tinder do futebol chega esta segunda-feira ao Estoril
Praticamente em simultâneo com a Web Summit, que por estes dias volta a colocar Lisboa como capital da indústria digital, o Estoril recebe, desta segunda a quarta-feira (apenas online no último dia), a 3.ª edição do TransferRoom Summit que, na prática, promete antecipar, desde já, a reabertura do mercado de transferências a nível internacional, apenas agendada para os primeiros dias do novo ano.
Paulo Fonseca, o treinador português do Lille, e o espanhol Victor Orta, diretor-desportivo do Sevilha, são os convidados do primeiro dia, para a abordagem de um dos temas em destaque no Summit português: o que é necessário para contratar um treinador de topo?
Assim, e depois de Londres e São Paulo, que receberam as primeiras cimeiras (e de apresentações do modelo em cidades como Orlando, Madrid e Berlim), a TransferRoom tem em Lisboa a sua última edição de 2023. Oportunidade para dirigentes, empresários e até mesmo futebolistas se reunirem com até um limite de 38 clubes à sua escolha, entre os mais de 700 de todo o mundo registados na plataforma, e contactarem diretamente os principais decisores do mercado de transferências. De acordo com dados da organização, são esperados no Estoril, por estes dias, mais de 750 executivos (dirigentes, empresários, jogadores e treinadores), 400 clubes de 90 ligas e de 55 países.
Transferência de Viktor Gyokeres bateu recorde
A cimeira do Estoril realiza-se depois de, no último verão, a TransferRoom ter sido fundamental para o início das negociações entre o Sporting e o Coventry City para a transferência do avançado internacional sueco Gyokeres, que se transformou na maior operação promovida pela plataforma.
Hugo Viana, diretor de futebol dos leões, reconhece mesmo, citado pelo TransferRooom, que o acesso direto aos decisores do Coventry City e da HCM Sports Management, a agência que representa o avançado sueco, ajudou a iniciar as negociações para uma transferência avaliada, no final, em mais de 20 milhões de euros.
Maior contratação de sempre do Sporting (e também o negócio mais valioso alguma vez promovido através da TransferRoom), Viktor Gyokeres despertou a atenção do Sporting ao marcar 21 golos e registar 12 assistências, na temporada de 2022-23, pelo Coventry, ajudando o clube a atingir a final do play-off do Championship.
«A plataforma TransferRoom deu-nos a oportunidade de entrar em contato direto com os decisores do clube vendedor e dar a conhecer o nosso interesse na contratação de Viktor Gyokeres. Esse acesso direto às pessoas-chave do Coventry City fez uma grande diferença, sobretudo para acelerar as negociações para a transferência recorde do nosso clube», reconheceu, citado na página oficial da TransferRoom, Hugo Viana, que encontra também na plataforma «um banco de dados de contatos confiável, que foi realmente valioso neste caso e beneficia os nossos negócios de transferências.»
Aí está o Tinder do futebol
Mas o que é, afinal, a TransferRoom? Ideia original de Jonas Ankersen que, em 2016, iniciou intensa pesquisa de mercado e reuniu-se com diretores desportivos de clubes de toda a Europa para discutir os desafios no mercado de transferências, a TransferRoom foi criada para permitir, em tempo real, o acesso direto de clubes, agentes e jogadores a uma rede global.
Na prática, e num mesmo local, estão reunidos todos os elementos de um speed-dating, dos quais o Tinder é o seu representante mais famoso. A lógica é semelhante, aplicada ao mercado do futebol: um clube identifica uma necessidade e procura um jogador para preencher essa lacuna. Nas duas situações, tanto no Tinder como no TransferRoom, quando as partes combinam, dá match.
Tradicional e historicamente, o mercado de transferências sempre foi gerido pelos empresários. E essa continua a ser uma realidade bem vincada, apesar da tecnologia de speed-dating procurar, agora, alterar esse paradigma. O TransferRoom reúne, assim, agentes, dirigentes e até mesmo futebolistas profissionais. Através da plataforma, de acesso e subscrição anual, os clubes podem contratar, negociar e anunciar que têm atletas disponíveis no mercado, assim como estes podem oferecer os seus serviços. De preferência, e essa era a ideia original, sem outras intermediações, realidade entretanto alterada, com a plataforma a promover a adesão de empresários credenciados.
Assim, desde 2016, e de acordo com dados fornecidos pelo próprio site TransferRoom, mais de 3 mil transferências terão sido realizadas através da plataforma. A maioria na sequência de encontros presenciais, durante as cimeiras, em mesas para duas pessoas e num máximo de 15 minutos, em que é promovida a interação. O date tem menos romance e mais negócio. Inclusive, há um relógio que sinaliza o tempo e um alarme para assinalar os últimos minutos da conversa, fazendo com que os negociantes acelerem as conversas e vão diretos ao ponto.
Há uns meses, depois do Summit em Londres – decorreu em Stamford Bridge, o estádio do Chelsea –, o site inglês The Athletic revelou alguns detalhes sobre o modelo de funcionamento da cimeira, em que estiveram representantes de 235 clubes e 45 empresários de jogadores na mesma sala, compartilhando 135 mesas de conversação durante 48 horas.
«A experiência nas mesas é mais íntima e isso não se encontra em nenhum outro lugar. Alguns dos clubes viajaram mais de 10 mil quilómetros para estar em Londres, mas conseguiram depois 25 reuniões presenciais. Eles precisariam de viajar o mundo em três semanas para conseguir isso», disse, na ocasião, Frederik Broholt, diretor comercial do TransferRoom, ao The Athletic.
Para ter acesso ao TransferRoom, clubes e empresários subscrevem assinaturas anuais que variam de 10 mil libras (11.500 euros) a 60 mil libras (70 mil euros) para ter acesso a todas as ferramentas (inclui também uma interessante e atualizada base de dados). Os membros “VIP”, do plano mais caro, podem listar os seus jogadores como disponíveis, fazer anúncios dos profissionais que projetam transferir e até fazer pitch meetings – espécie de reuniões de venda.
Outro exemplo em português
Com a TransferRoom, o mercado de transferências evoluiu, assim, para a era digital, possibilitando aos clubes e agentes subscritores (a plataforma chegou a 65 países e mais de 700 clubes de 120 campeonatos nacionais) o acesso instantâneo às melhores informações de mercado e a uma rede global de conexões.
Entre os principais entusiastas do modelo TransferRoom encontra-se, por exemplo, o português Tiago Pinto, diretor-geral da AS Roma. Mas há também resistências, sobretudo dos agentes FIFA mais influentes no mercado nas últimas décadas.
Reconhece Tiago Pinto que levou para a capital italiana a experiência adquirida no TransferRoom nos tempos em que trabalhou no futebol profissional do Benfica, onde concretizou alguns negócios (sobretudo cedências temporárias de jovens jogadores formados no Seixal) através da plataforma, situação que tem procurado replicar em Roma, de forma a capitalizar o trabalho na formação no clube de José Mourinho e a redução da massa salarial, seja através de cedências a título definitivo ou temporárias.