João Gonçalinho - Foto: GCU
João Gonçalinho - Foto: GCU
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«Parece um filme»: a 'nova vida' de jogadores-estudantes portugueses nos EUA

Os caminhos de um campeão distrital de Lisboa com passagem por Itália e de um luso-inglês moldado sob olhar de Marco Silva cruzaram-se entre livros e balizas. Das condições dignas de Liga... ao vício que chocou

Esta é a segunda parte de uma reportagem sobre a experiência de jogadores lusos no futebol universitário norte-americano

Um oceano (e oitos fusos horários) separam a Universidade de Grand Canyon, em Phoenix, nos Estados Unidos, de Lisboa e Londres, berços de João Gonçalinho e Bradley de Jesus, respetivamente.

A noite já tinha caído na Europa quando A BOLA viajou remotamente oito horas no tempo para conversar com os dois atletas recrutados com o apoio de João Delgado, da Venture Sports, e que vivem a primeira experiência no futebol universitário norte-americano.

Os dois jogadores frequentam o curso de gestão do desporto e vivem no campus da universidade que conta com mais de 130 mil estudantes. João Gonçalinho admitiu que «foi um choque» voltar a estudar, três anos depois, mas destacou o apoio prestado pela faculdade. «Não tenho sentido dificuldades nenhumas, tenho conseguido safar tudo com mais ou menos esforço. Temos muito apoio, estão sempre disponíveis para nos ajudar», explicou o centrocampista de 21 anos.

João Gonçalinho em ação - Foto: GCU

Bradley de Jesus salientou que «o primeiro ano é mais tranquilo», mas não esqueceu a «responsabilidade» académica. «É para começar a entrar no ritmo. Tenho quatro ou cinco aulas por semana e os restantes trabalhos são todos no computador. Temos muitos professores que nos ajudam», explicou em português quase perfeito pontuado por ocasionais paragens para tradução mental.

Bradley de Jesus- Foto: D.R.

O lateral direito de 20 anos, filho de pais madeirenses, nasceu em Inglaterra e cresceu no futebol no Fulham, clube que representou entre o verão de 2018 e maio de 2026. O final da última época precipitou o adeus aos londrinos: «Fiz basicamente a minha formação inteira no clube e joguei três anos com contrato profissional. Depois tive dois meses sem um clube, e apareceu esta proposta em boa hora para mim. Pensei ‘Não sei se vai dar certo', mas, até agora, não podia ter corrido melhor.»

A facilidade nos estudos permite colocar foco total na faceta de futebolista. Que o diga João Gonçalinho, autor de um golo e seis assistências em 13 jogos ao serviço de Grand Canyon. O próprio admite que a «confiança» foi restaurada após percurso de altos e baixos que começou com uma década nas camadas jovens do Sporting.

A saída dos sub-14 leoninos e a passagem pelo Sacavenense antecederam passagens pelo Belenenses, entre 2020 e 2023, e pelo Génova, nas duas temporadas seguintes por empréstimo dos azuis. Os problemas físicos ao longo de dois anos em Itália precipitaram o regresso a Portugal para representar o Real Massamá, na distrital de Lisboa, após ter realizado a pré-época com a turma do Restelo.

O jovem médio sagrou-se campeão da primeira divisão da AF Lisboa, numa altura em que já tinha um «pré-acordo» para rumar aos EUA. A adaptação a «uma cidade com montanhas por todo o lado» foi fácil, apesar da distância física e emocional a casa. Com uma exceção à regra: «O mais difícil foi mesmo a comida. Estamos habituados à típica portuguesa e aqui é muito à base de fast food. Não é fácil conseguires mentalizar-te de que tens de comer bem todos os dias. A única coisa da qual tenho saudades é a comida.»

Já Bradley foi surpreendido pela magnitude do estilo de vida norte-americano: «Aqui tudo é maior. Tudo o que eles fazem tem de ser o melhor. Cada jogo que vais é um grande espetáculo. No meu primeiro jogo aqui tivemos quase três mil adeptos. É difícil imaginar em Portugal ou Londres uma universidade com tantos adeptos.»

«Parece um filme», acrescenta João Gonçalinho. O médio-centro destacou, ainda assim, um aspeto na sociedade-americana que o impressionou pelos piores motivos: «Sinto que há muita droga aqui na América, é mesmo surreal. À noite estás a passar de carro e a 50 metros vês malta que acabou por se drogar, é um mundo à parte, não tem nada a ver com Portugal.»

«Foi uma coisa que me tocou mesmo quando cá cheguei porque não estava à espera, a quantidades de pessoas afetadas chocou-me», reiterou.

Como funciona o modelo norte-americano?

A obsessão norte-americana pelo sucesso reflete-se no investimento no desporto universitário e, neste caso, nas próprias infraestruturas que os dois jogadores lusos têm à disposição em Grand Canyon.

Os jogos em casa são disputados num estádio com capacidade para 6 mil espectadores, enquanto a preparação e a recuperação entre partidas são realizadas no centro de performance de alto nível. «Temos grandes condições aqui. Até acaba por ser mais profissional do que em alguns clubes de primeira ou segunda liga. Os EUA investem muito nas faculdades e na evolução dos alunos e dos atletas», frisou Gonçalinho.

O estádio de GCU foi inaugurado em 2016 - Foto: GCU

Grand Canyon lidera atualmente a conferência Mountain West. A fase regular antecede um play-off cujo vencedor garante a qualificação para os nacionais, torneio a eliminar que decide o campeão de futebol norte-americano. Há, ainda assim, margem para melhorar na ótica do médio luso: «É competitivo. O maior problema é mesmo isto acabar em dezembro. Jogamos de quatro em quatro dias, não é fácil. Começamos a época em agosto e quatro meses depois termina.»

O futuro é tema encarado com leveza por quem está focado na oportunidade inesperada que agarrou há menos de um ano. Caso o futebol profissional chame, ambos estão, ainda assim, prontos para atender.

Sem descurar a vertente académica, como resumiu Bradley: «Se assinarmos como profissionais podemos acabar o curso online. Estamos tranquilos porque podemos fazer o nosso trabalho.»

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