Manuel Vitorino e Gonçalo Sousa vivem primeira aventura no futebol universitário - Foto: D.R.
Manuel Vitorino e Gonçalo Sousa vivem primeira aventura no futebol universitário - Foto: D.R.
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Dos distritais ao sonho norte-americano em poucos meses: Portugal à solta no futebol universitário

A rampa de lançamento para os desportos profissionais norte-americanos tem cada vez mais sotaque luso. De Porto de Mós e Vizela saíram talentos de olho nos estudos e numa carreira profissional

Um oceano e cerca de 6 mil quilómetros separam Porto de Mós, no concelho de Leiria, e Lynchburg, nos Estados Unidos. Duas realidades completamente diferentes com o mesmo desporto como pano de fundo. E um protagonista em comum.

Manuel Vitorino é um dos mais de 50 jogadores lusos que competem no futebol universitáro norte-americano.

Se na Europa as camadas jovens dos clubes são um verdadeiro viveiro de talento que, em muitos casos, começa a conviver com a elite ainda em idade escolar, do outro lado do oceano Atlântico, as universidades são autênticas rampas de lançamento para equipas profissonais.

No caso de Manuel Vitorino, a porta do sonho abriu-se... por engano. Há apenas seis meses, o criativo conciliava o emprego em entregas com turnos no ataque do Portomosense, da primeira divisão distrital de Leiria.

O jogador de 22 anos natural de Porto de Mós até concluiu a formação no Chaves, à data um clube de Liga, em 2022/23, após sete temporadas na UD Leiria, mas, face à inexistência da assinatura um contrato profissional, estreou-se como sénior ao serviço do Vasco da Gama da Vidigueira, no Campeonato de Portugal, em 2023/24.

As desventuras no Alentejo, ainda com a bola na cabeça a tempo inteiro, antecederam o regresso a casa para jogar no União de Pombal, na segunda divisão distrital de Leiria, e a necessidade de trabalhar fora das quatro linhas.

A nova rotina, porém, durou menos de dois anos. A sorte grande saiu-lhe durante um duelo de preparação do Portomosense, no início de março.

«Do nada vejo duas pessoas nada familiares naquele naquele espaço e fiquei assim a pensar 'Quem é que são?'. No final do jogo, um colega mandou-me mensagem a dizer que eram treinadores aqui dos Estados Unidos e que me queriam apresentar uma proposta», contou em conversa com a A BOLA.

Manuel Vitorino já ao serviço de Liberty - Foto: D.R.

Um dos observadores estrangeiros ao olho local de Manuel Vitorino era João Delgado, fundador da Venture Sports, empresa que promove e acompanha processo de recrutamento de talentos internacionais para o desporto universitário norte-americano.

A ideia partiu da experiência do próprio empresário e antigo jogador, que trocou o Alcanenense pela universidade de Bluefield em 2016, construiu carreira nos escalões inferiores norte-americanos. O objetivo? Proporcionar o acompanhamento que não teve durante o próprio percurso a jogadores «entre os 17 e os 21 anos» que procuram «conciliar o futebol e estudos com qualidade.» Dez anos depois do início da aventura de João Delgado nos EUA, a Venture conta com 175 atletas de inúmeras nacionalidades no futebol universitário.

João Delgado - Foto: D.R.

Tudo começa com o recrutamento ao vivo e «quem toma a decisão final é o treinador».

No caso de Manuel Vitorino, a convicção de um técnico, aliada a uma mudança de planos de última hora, deram asas ao sonho. As tempestades que fizeram estragos em Leiria durante o mês de fevereiro deslocaram os jogos do União... e trocaram as voltas a João Delgado: «Fomos para Leiria ver um jogo dos sub-23, mas afinal jogaram na Cidade do Futebol. Acabámos por ver um jogo particular e o Manuel jogou tão bem que o treinador disse 'Não quero saber onde é que ele joga, vamos buscar este miúdo'. A família pensava que estávamos a mentir.»

A confirmação da veracidade do convite precipitou uma volta de 180 graus na vida de Vitorino, que um ano depois de jogar na segunda divisão distrital de Leiria seguiu para os Estados Unidos com bolsa de estudos para conciliar o percurso de futebolista com um curso superior ligado à área do desporto. «Esta oportunidade veio dar um bocado de brilho à minha vida porque consigo tirar um curso e tentar tornar-me profissional. Estive estes anos todos sem estudar e acho que foi um erro enorme», explicou o criativo que terminou o 12.º ano em Chaves.

O regresso à vida académica para frequentar a licenciatura, após «tantos anos sem agarrar um livro» foi, ainda assim, facilitado pela «flexibilidade» do contexto envolvente. «Treinamos às 8h. Temos de nos levantar muito cedo, mas faz-nos bem Os treinos acabam sempre por volta das 10h. As primeiras aulas que temos são ao meio-dia, dá tempo para tudo. Tudo se faz, ainda mais com a ajuda que temos», frisou.

A Universidade de Liberty, instituição marcadamente católica localizada em Lynchburg, no estado da Virgínia, conta com mais de 140 mil estudantes e três futebolistas portugueses. Além de Manuel Vitorino, Gonçalo Sousa e Pablo Matavele também reforçaram, com bolsa, a equipa de futebol masculino esta temporada, provenientes dos sub-23 do Vizela e do Portimonense, respetivamente.

O antigo jogador dos minhotos explicou a A BOLA que «estava confortável perto de casa» em Portugal, mas «procurava uma experiência diferente». A proposta chegou durante um período de férias e precipitou o regresso de Gonçalo à escola: «Ainda fiz o primeiro ano da universidade há dois anos na Maia, mas estava a ser muito difícil conciliar. Queria continuar a estudar e em Portugal não dava. Apesar do futebol ser o meu plano A, aqui consigo conciliar as duas coisas.»

No panorama desportivo, Gonçalo teve menores dificuldades de adaptação do que Manuel, que há dois anos jogava a compasso da música distrital. O lateral dividiu a formação entre o Vitória de Guimarães e o Vizela antes de reforçar um «campeonato relativiamente parecido» à Liga Next Gen, enquanto estuda gestão. A dimensão é, ainda assim, bastante superior: «Só a minha universidade tem mais pessoas do que a minha cidade [Vizela].» O minhoto salientou, ainda assim, o espírito de camaradagem que marca todo o contexto envolvente: «As pessoas quase que são demasiado boas, são muito simpáticas. Acolheram-nos super bem.»

Gonçalo Sousa ao serviço de Liberty - Foto: D.R.

Além da amabilidade dos recursos humanos, as condições das instalações desportivas da universidade também impressionam: «Com todo respeito aos nossos clubes anteriores, aqui é outro mundo, foi uma grande melhorias. Com estas condições só temos de melhorar fisicamente.»

As instalações, que rivalizam com as de clubes da primeira linha do desporto nacional, incluem um centro desportivo com três pisos, e campos de jogo e de treino para oito modalidades masculinas e dez femininas.

Os jogadores podem ser pagos?

O estatuto de atleta/estudante amadora já não se verifica, na medida em que os jogadores locais, embora não sejam pagos diretamente, lucram com os próprios direitos de imagem e até com a redistribuição da receita dos departamentos desportivos das universidades.

O investimento no desporto universitário tem em vista a formação de talento capaz de conquistar títulos e competir nas ligas profissionais norte-americanas. E os jogadores lusos agradecem.

Gonçalo Sousa já fez o gosto ao pé em duas ocasiões em dez jogos disputados ao serviço de Liberty. O último remate certeiro teve assistência de... Manuel Vitorino, que também marcou minutos depois, diante da Universidade de Mercer, a 3 de outubro.

Para o extremo de 22 anos «foi um sentimento de alívio»... após ter percebido que não estava «fora de jogo». «Nem festejei muito, mas pensei 'finalmente, estava mesmo a precisar disso'. Uma pessoa está aqui sozinha, começas sempre a pensar nas saudades e estas coisas fortalecem», explicou.

Ambos reiteram a felicidade ao fim de parcos meses enquanto jogadores-estudantes, mas o desejo de ser profissional permanece inalterado, com a MLS no horizonte. A simples associação ao campeonato onde pontifica Lionel Messi precipita a reflexão de Manuel, como quem ainda procura justificar o que viveu nos últimos meses: «Ainda não estou muito inteirado com isto tudo, mas entendo a oportunidade que estou a ter e que muitos gostavam de ter neste momento. Uma pessoa se estiver no seu perfeito juízo, nunca iria recusar vir para aqui.»

Gonçalo e Manuel são exemplos de um pensamento transversal a todos os atletas ouvidos por A BOLA: o percurso académico é importante, mas as fichas estão colocadas num futuro profissional dentro das quatro linhas.

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