As aventuras lusas no futebol com substituições ilimitadas e golos que valem (literalmente) pontos
Esta é a terceira parte de uma reportagem sobre a experiência de jogadores lusos no futebol universitário norte-americano
Martim Sereno já é um veterano no futebol universitário norte-americano. O avançado de 21 anos vive a terceira temporada em George Mason, a cerca de 30 quilómetros de Washington D.C.
O avançado natual de Mira de Aire dividiu o percurso na formação entre Sporting, Tondela e Académico de Viseu, mas sentiu que precisava de mais: «Eram bons clubes e boas formações, mas nunca era a oportunidade que sentia que merecia. Não sentia que ia ser mais do que aquilo. Aqui jogo, estudo e ainda há o sonho de poder ir para profissional.»
O ambiente «muito profissional» com condições equiparadas a «qualquer clube de topo em Portugal» ganhou ainda mais sotaque português em 2025, com a chegada de Jaime Godinho a George Mason.
O extremo de 21 anos representou Benfica, Belenenses, Casa Pia e Farense nos escalões de formação, antes de se ter juntado a Martim Sereno em George Mason, com bolsa de estudos.
Nos primeios meses do segundo ano, os principais obstáculos à adaptação total já foram totalmente ultrapassados: «É difícil porque estou sempre habituado a estar com a família. No meu primeiro ano, passei assim um bocadinho mal com a comida, porque sou muito estranho com isso.»
«Agora vivo com mais três colegas de equipa, que é uma coisa que nunca tinha feito, mesmo ao lado do campus. O supermercado é já aqui ao lado, posso comprar o que eu quiser e faço a minha própria comida. Este ano é mais fácil», frisou.
Dentro das quatro linhas, Jaime adaptou-se rapidamente e, tal como Martim no ano anterior, figurou entre os melhores caloiros da conferência. Não sem antes de as regras do soccer universitário lhe terem trocado as voltas.
«No meu primeiro jogo oficial, fui substituído ao minuto 20. Levei uma pancada na cabeça e o treinador queria que eu saísse do jogo para o fisioterapeuta analisar. Fiquei a pensar 'O gajo está maluco, eu consigo jogar'. Tu podes voltar a entrar na segunda parte, só que eu não fazia a mínima ideia», contou.
Ao contrário do futebol profissional, as substituições são ilimitadas e um jogador pode regressar ao terreno de jogo durante segunda parte no nível universitário. Uma partida do campeonato dura 90 minutos, sem tempo de compensação. «Quando chega ao minuto 90 acaba o jogo. Podes estar no meio do ataque que o árbitro acaba na mesma», explicou o extremo de 21 anos.
Martim já está mais do que habituado às especificidades do futebol universitário... mas também foi apanhado desprevenido no jogo de estreia: «Fiz um passe para o colega que fez a assistência e depois no final do jogo o meu treinador disse 'Boa assistência. O passe antes da assistência também conta como assistência.'»
Esta época, o avançado natural de Mira de Aire somou um golo, duas assistências... e quatro pontos em 11 jogos. Para efeitos de estatística, cada remate certeiro equivale a dois pontos.
Jaime Godinho contabiliza dois golos, três assistências e sete pontos em nove jogos, tendo já ultrapassado os números da época passada.
«Não somos estudantes normais»
Ambos os atletas frequentam o curso de gestão do desporto, com bolsa de estudos. «Não somos estudantes nomais. Levamos o futebol a sério», frisou Martim, que já teve a oportunidade de sentir o pulso ao lado profissional do futebol norte-americano.
O avançado de 21 anos representou o Lane United, nos escalões inferiores norte-americanos, no verão de 2025, e treinou-se com os LA Galaxy, clube histórico da MLS, com o apoio de João Delgado, fundador e diretor desportivo da Venture Sports.
Sereno admitiu que «as equipas da segunda divisão em Portugal têm mais qualidade» do que as norte-americanas, antes de recordar o «outro mundo» que encontrou em Los Angeles.
Chegar à elite do futebol continua a ser um sonho, acautelado com um plano B sólido: «Claro que quero ir para profissional, mas se não der também sinto que gostaria de ficar aqui. Como nós dizemos, é o país das oportunidades.»
Jaime Godinho também continua de olho no «sonho» de se tornar profissional, mas também salienta a importância de se formar às portas da capital norte-americana.
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