«O FC Porto deu-me quase tudo, mas o Vitória foi onde fui mais feliz»
Figura do Lech Poznan, Joel Pereira , lateral-direito de 30 anos que soma sete internacionalizações pelos sub-16 de Portugal, esteve à conversa com A BOLA.
— Fez boa parte da formação no FC Porto, onde partilhou o balneário com jogadores como Rúben Neves. Que memórias guarda desse tempo e quão importante foi esse período para o seu crescimento?
— O FC Porto deu-me quase tudo. Foram seis anos de aprendizagem na formação, com momentos e memórias incríveis. Aprendi muito lá. Mas os últimos dois anos de formação no Vitória de Guimarães foram, sem dúvida, os anos mais felizes dessa etapa.
— Sente que o futebol português pecou por não ter tido paciência para apostar no seu potencial antes de sair para o estrangeiro?
— O principal culpado fui eu, porque tinha o sonho de jogar no estrangeiro. Por isso, emigrei muito cedo para um país como o Chipre, que não é propriamente um destino para quem quer vingar na carreira. Mas a minha carreira foi construída assim, por fora, e tenho orgulho nela. Fui para o Chipre, depois Eslováquia, até voltar à Liga. Sou feliz com o caminho que tomei e com o que conquistei.
— Passou por realidades muito distintas no Chipre, Eslováquia e Polónia. Qual foi o maior choque cultural que teve e há alguma história curiosa que possa partilhar?
— O Chipre é um destino paradisíaco, por isso quem não está focado no futebol perde-se facilmente. Uma história mais curiosa aconteceu na Eslováquia. Fui para lá no inverno, veio a pandemia da covid-19 e os campeonatos pararam. Quando tudo retomou, tive de ser operado de urgência ao apêndice. Foi uma fase muito complicada, num hospital sem grandes condições e sem falar a língua, mas felizmente correu tudo bem.
— A nível cultural, nota muitas diferenças entre a Polónia e Portugal?
— Sim, muitas. Eles são muito mais frios, enquanto nós somos mais calorosos e hospitaleiros. O primeiro choque foi difícil,achava que toda a gente era mal educada ou rude e não fazia esforço para ajudar um estrangeiro, nem sequer em inglês. Habituei-me e hoje levo uma vida perfeitamente normal.
— O futebol polaco é conhecido pela sua intensidade e pela paixão dos adeptos. A atmosfera no estádio do Lech é tão impressionante quanto parece vista de fora?
— É, sim. Para mim já se tornou um pouco banal, mas a minha família e amigos ficam impressionados. É algo diferente do que se vive noutros países. O facto de permitirem espetáculos de pirotecnia pelas claques, que não são permitidos em Portugal, dá uma beleza extra ao jogo, tornando-o num verdadeiro espetáculo.
— Queria perguntar-lhe sobre dois jogadores com quem partilhou o balneário: primeiro, o Raphinha, na equipa B do Vitória de Guimarães. Já nessa altura se percebia que ele podia atingir este nível estratosférico?
— Honestamente, ninguém imaginava que chegaria ao Barcelona e apresentasse este nível estratosférico. Via-se a sua qualidade e que era um jogador diferenciado com o pé esquerdo, mas era muito magrinho e frágil fisicamente. Nunca virou a cara à luta e conseguiu fazer excelentes épocas. Merece tudo o que lhe está a acontecer, sempre foi uma pessoa impecável com toda a gente.
— No Lech partilhou o balneário com o Filip Bednarek, irmão de Jan, central do FC Porto. Houve alguma conversa por causa dessa ligação?
— Não chegou a haver por pouco, porque quando o irmão foi para o FC Porto, o Filip Bednarek já tinha saído para jogar nos Países Baixos [Sparta Roterdão], por isso não coincidimos nessa altura.
— Essa forte ligação que se tem criado entre o FC Porto e a Polónia tem-se sentido de alguma forma aí?
— A única consequência prática é que, se continuarem a ir jogadores polacos para o Porto, vão abrir rotas aéreas diretas entre Porto e Poznan, o que me ajudaria imenso.
— É internacional sub-16 por Portugal e, aos 30 anos, com o rendimento que tem apresentado, ainda alimenta o sonho de chegar à Seleção A, sabendo que é sempre mais difícil fora de uma das big-5?
— O sonho vai sempre existir, mas sou realista. Sei a realidade em que me encontro e a qualidade incrível que Portugal tem, especialmente na minha posição.
— Perspetiva um regresso à Liga portuguesa num futuro próximo?
— Honestamente, não penso nisso, muito por questões financeiras. Fora do país consigo garantir um futuro melhor para as minhas filhas, e é isso que me move no momento. Por isso, deverei continuar fora mais algum tempo.
— Se pudesse voltar atrás e dar um conselho ao Joel de 18 anos, que tinha acabado a formação no Vitória de Guimarães, o que lhe diria?
— Diria para ser exatamente a mesma pessoa que foi. As decisões que tomei, boas ou más, trouxeram-me até aqui, e tenho muito orgulho no que construí na minha carreira e no facto de ter sido sempre uma boa pessoa para todos.