Mourinho 'esquece-se' do FC Porto, rende-se à Roma e atira: «Posso treinar até aos 90 anos»
José Mourinho mantém uma relação especial com quase todos os clubes que representou, mas, ao falar sobre os emblemas que considera «casa», deixou de fora o clube que o lançou para um patamar internacinal: o FC Porto.
«Não criei ligação com o Tottenham, mas com todos os outros clubes — Inter, Roma, Chelsea, Manchester United, Benfica — senti sempre que eram a minha casa. Tenho uma relação muito especial com praticamente todos os meus antigos clubes, quase todos», afirmou o treinador português, que se prepara agora para regressar a Roma ao comando do Real Madrid.
«Saí sempre bem, mesmo quando fui despedido. Saí sem uma palavra negativa da minha parte», disse, em entrevista ao Corriere dello Sport.
O emblema giallorosso, contudo, ocupa um lugar particularmente especial. «Doeu-me no coração a saída da Roma, mas saí com o sentimento de que será para sempre a minha casa.»
É precisamente a essa casa que Mourinho vai regressar, mas agora do outro lado. O treinador português vai enfrentar a Roma no Olímpico, no próximo dia 14, ao serviço do Real Madrid e admite que será um momento emocionalmente difícil. «Será a primeira vez que farei aquele caminho até ao Olímpico sem a paixão fantástica dos adeptos da Roma», reconheceu.
«Tenho de me defender e preparar-me da melhor forma possível para cumprir bem o meu trabalho emocionalmente. Tenho de tentar esquecer onde estou e contra quem jogo», acrescentou, lembrando que já passou por situações semelhantes com o Inter e o Chelsea, mas que Roma será diferente.
«Não espero faixas»
Mourinho não espera uma receção de gala nem grandes faixas. «Não espero faixas. Espero respeito», afirmou, antes de recordar a chegada à capital italiana: «No dia em que cheguei, saí do avião e estavam lá milhares de pessoas. Pensei: 'Eu não fiz nada, não joguei um único jogo, não ganhei um único ponto por esta gente... porquê isto?'»
«Os adeptos perceberam que eu nunca me preocupei comigo próprio, com a minha imagem, com as minhas relações com a direção ou com a política do futebol italiano. Para mim, só existia uma coisa: a Roma e os romanistas. Lutei por eles, dei tudo», sublinhou Mourinho, que considera a final de Budapeste, na Liga Europa, o ponto máximo dessa relação. «Eles perceberam que dei tudo, cometi erros, falhei jogos, mas lutei sempre por eles. E a final de Budapeste é o ponto máximo dessa ligação.»
O treinador lembrou também a forma como terminou a passagem pelo clube, marcada pela suspensão da UEFA e pelo afastamento da direção. «Voltei da final da Liga Europa já 'morto' e, alguns meses depois, houve o 'funeral'... já estava tudo decidido em janeiro», contou.
Apesar da dimensão da ligação aos adeptos, Mourinho recusa a ideia de ser o segundo maior ídolo da história do clube, atrás de Francesco Totti. «O Francesco não se toca! Não me sinto minimamente perto dele», garantiu. «Fui apenas alguém que esteve lá, deu tudo e as pessoas perceberam que dei tudo.»
«Com saúde, vou treinar até aos 80 ou 90 anos»
E se depender de Mourinho, a paixão pelo treino ainda está longe de terminar. Aos 63 anos, o técnico não coloca qualquer prazo para o adeus ao banco. «Com saúde, vou treinar até aos 80 ou 90 anos! A paixão é a mesma de quando comecei.»
Quanto ao homem que existe por trás do treinador, Mourinho acredita que há algo que permaneceu intacto desde os primeiros tempos no FC Porto e no Benfica. «O ADN não muda. Muitas coisas podem mudar, mas o ADN não pode mudar.»
E, quando questionado sobre a possibilidade de existir um novo Mourinho depois de Mourinho, encontrou uma ligação curiosa com Brian Clough e voltou ao início de tudo: «Na história da Liga dos Campeões/Taça dos Campeões Europeus, as duas cidades mais pequenas em termos de população que venceram a competição são Porto e Nottingham.»