Milão-Sanremo: a corrida que Pogacar quer vencer mais do que o Tour
A Milão-Sanremo, a Classissíma ou a Primavera, promete 117.ª edição emocionante e imprevisível. A clássica italiana, primeiro dos cinco monumentos da temporada de ciclismo e a corrida mais longa do calendário profissional, com quase 300 quilómetros, será palco de duelo entre Tadej Pogacar e Mathieu van der Poel, com Wout van Aert, Tom Pidcock e Filippo Ganna na posição de outsiders.
Na edição de 2025, Van der Poel saiu vitorioso após batalha intensa com Pogacar nas subidas da Cipressa e do Poggio, a que se juntou o italiano Ganna na descida final para Sanremo. A prova permite que corredores com diferentes especialidades possam lutar pela vitória, o que aumenta a sua imprevisibilidade.
A edição deste ano terá partida em Pavia, totalizando 298,2 quilómetros, o que a torna a corrida profissional mais longa do calendário. O percurso tradicional pela costa da Ligúria inclui as subidas conhecidas como Tre Capi (Capo Mele, Capo Cerve e Capo Berta), onde se espera que as equipas que procuram endurecer a corrida comecem a impor um ritmo forte, embora não se prevejam ataques decisivos nesta fase.
A primeira das subidas decisivas é a Cipressa, com 5,6 quilómetros a uma inclinação média de 4,1%. Embora não seja uma subida particularmente difícil, o impacto é amplificado pelo facto de os corredores a alcançarem após mais de seis horas de corrida. Nos últimos anos, esta secção tem sido palco de ataques violentos, transformando a corrida e dando uma oportunidade aos trepadores. O posicionamento antes e durante a subida é crucial, assim como na sua descida técnica.
A subida final é o icónico Poggio (3,6 km a 3,7%), muitas vezes descrito como a subida fácil mais difícil do mundo devido ao desgaste acumulado. A sua rampa mais íngreme, com 8% de inclinação nos últimos 800 metros, é o local tradicional para os ataques finais. A descida, igualmente técnica, é tão importante quanto a subida, como demonstrou Matej Mohoric na vitória em 2022, ao lançar ataque decisivo nesta fase.
A meta estará instalada na Via Roma, em Sanremo, uma reta plana que favorece perseguições e a organização de leadouts, dando uma última oportunidade aos sprinters que conseguiram sobreviver às subidas. No entanto, um sprint após quase sete horas de esforço é um desafio completamente diferente.
Condições meteorológicas e favoritos
As previsões indicam um vento fraco, mas a direção nos quilómetros finais, especialmente entre a Cipressa e o Poggio, será crucial. Espera-se um ligeiro vento contrário na fase plana entre as duas subidas, o que poderá dificultar a vida aos atacantes, com destaque para Tadej Pogacar, porque não favorecerá ofensivas a solo, tornando a tática de equipa ainda mais importante.
Mathieu van der Poel e Tadej Pogacar surgem como os principais candidatos à vitória, com estratégias distintas. O neerlandês da Alpecin, que demonstrou uma forma excecional no Tirreno-Adriático, é apontado como o grande favorito, beneficiando da mestria no posicionamento, da capacidade de explosão e de rolador e descedor. A tática ofensiva da UAE Emirates de Pogacar poderá até jogar a favor, eliminando sprinters e outros adversários. A equipa conta ainda com o belga Jasper Philipsen, vencedor em 2024, como uma opção para um eventual final ao sprint.
Por sua vez, Tadej Pogacar lidera uma UAE Emirates desfalcada das importantes peças, como Tim Wellens e Jhonatan Narváez. A estratégia da equipa passa por endurecer a corrida na Cipressa, impondo um ritmo forte durante cerca de cinco minutos para lançar o ataque do esloveno. Isaac del Toro foi recrutado como arma principal para esta manobra, embora o posicionamento no sopé da Cipressa seja um fator crucial. Com uma formação focada em trepadores, a equipa poderá também tentar acelerar logo nos Tre Capi, com Florian Vermeersch a ser o homem chave para levar Pogacar bem posicionado até à Cipressa.
A Ineos apresenta-se sob liderança de Filippo Ganna. O italiano, que parece estar em forma idêntica ou até superior à do ano passado, é uma potência em subidas menos íngremes e pode ser letal com um ataque tardio rumo a Sanremo ou mesmo numa discussão ao sprint.
Na Visma, Wout Van Aert é a figura de proa, apesar de não ser a única opção. O belga, que esteve em grande plano no Tirreno, tem na sua capacidade de posicionamento o seu maior desafio. A equipa, no entanto, possui homens capazes de o ajudar nesta tarefa crucial. Christophe Laporte partilha ambições semelhantes para um cenário no Poggio ou para um sprint, enquanto Matteo Jorgenson poderá ser uma peça importante na Cipressa ou num grupo de perseguição.
Apesar do favoritismo de Van der Poel e Pogacar, a corrida mantém-se aberta a outros pretendentes. Nomes como Tom Pidcock, Matej Mohoric e Alex Aranburu destacam-se pela sua capacidade de descer, enquanto Romain Grégoire e Mauro Schmid, em boa forma, são candidatos legítimos. Trepadores como Tobias Johannessen, Primoz Roglic e Giulio Pellizzari também estão na lista de possíveis surpresas, assim como ciclistas com o perfil de Jonas Abrahamsen, Mathias Vacek e Andrea Vendrame.
Um final ao sprint não está totalmente descartado. Se não ocorrerem quedas na Cipressa e com a ajuda de um vento frontal, a decisão pode ser adiada para o Poggio, onde a subida pode não ser suficientemente dura para criar grandes diferenças. Nesse cenário, para além dos já mencionados, surgem outros especialistas. Tobias Lund Andresen, em excelente forma, é um nome a ter em conta, assim como Biniam Girmay e Paul Magnier, embora a sua chegada com o grupo principal seja menos provável. A Quick-Step, por exemplo, tem não só Magnier, mas também Laurenz Rex e Jasper Stuyven como opções válidas para proteger.
A lista de potenciais surpresas e candidatos a um lugar de destaque é extensa e inclui uma mistura de sprinters e classicómanos. Entre eles estão Jasper Philipsen, Isaac del Toro, Matteo Jorgenson, Christophe Laporte, Wout Van Aert, Jasper Stuyven, Jonas Abrahamsen, Mauro Schmid, Romain Grégoire, Paul Magnier e Ben Turner. Os jovens talentos Matthew Brennan e Laurence Pithie, este último também mencionado na lista de ciclistas a seguir, completam este grupo.
Para além dos principais favoritos, há outros nomes a ter em atenção na prova italiana. A lista de ciclistas a observar inclui Matteo Trentin, Magnus Cort Nielsen, Corbin Strong, Danny van Poppel, Davide Ballerini, Marijn van den Berg e Lukas Kubis.