Michael Johnson em mais um momento de glória, em Gotemburgo1995. IMAGO
Michael Johnson em mais um momento de glória, em Gotemburgo1995. IMAGO

Michael Johnson deve milhões e pagou secretamente 370 mil euros a si próprio

Lenda do atletismo mundial vê o seu nome manchado e tem mais de 200 credores a bater-lhe a porta. Lançou um projeto em junho de 2024 com a promessa de realizar quatro eventos em 2025 e atraiu mais de 28 medalhados olímpicos a quem acenaram com 'prize-money' de milhares de euros. Faliu em dezembro, com dívidas de milhões

Michael Johnson, tetracampeão olímpico, foi acusado por um grupo de fornecedores de se ter pago a si próprio 500 mil dólares (cerca de 372 mil euros) numa altura em que o seu projeto, o Grand Slam Track (GST), enfrentava um colapso financeiro que deixou atletas e outros credores com milhões em dívidas.

Os fornecedores, que alegam ter por receber valores de seis e sete dígitos, solicitaram autorização judicial para processar os líderes individuais do GST, incluindo o próprio Johnson e o principal investidor, a Winners Alliance. A acusação centra-se num alegado pagamento feito a Johnson poucos dias antes do cancelamento inesperado, por razões financeiras, do último meeting da temporada, que estava previsto para Los Angeles.

Num documento judicial, os credores afirmam: «Chocantemente, o Sr. Johnson optou por se favorecer secretamente em detrimento dos atletas e de outros credores não internos, ao mesmo tempo que fingia publicamente que procurava abnegadamente promover os interesses dos atletas».

Uma imagem pouco abonatória de Michael Johnson, uma lenda do atletismo, o primeiro homem a vencer os 200m e 400m nos mesmos Jogos, em Atlanta1996, usando sapatilhas douradas. O recorde mundial dos 400m durou quase duas décadas. Licenciado em contabilidade, dedicou-se profissionalmente ao atletismo apenas em 1990, e depois do final da carreira, continuou ligado à modalidade.

O processo revela que, embora Johnson tivesse a receber 2,2 milhões de dólares (1,6 milhões de euros) do projeto — e fontes próximas garantam que ele investiu o seu próprio dinheiro —, existe uma alegada falta de documentação que comprove esses pagamentos, sustenta o The Telegraph.

Recorde-se que o GST declarou falência em dezembro, com passivos estimados entre 10 e 50 milhões de dólares (7 a 37 milhões de euros) devidos a mais de 200 credores. Documentos posteriores, de janeiro, indicam que as dívidas atingiram os 40 milhões de dólares (30 milhões de euros), contrastando com as receitas de apenas 1,8 milhões de dólares no ano passado.

O projeto foi lançado em junho de 2024 com a promessa de realizar quatro eventos em 2025, apoiados por «mais de 30 milhões de dólares (22 milhões de euros) em compromissos financeiros de investidores e parceiros estratégicos». A estrutura de prémios era aliciante, com valores entre 10 mil e 100 mil dólares por evento, o que levou 28 medalhados dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 a aderirem.

Contudo, o GST nunca terá tido a liquidez necessária para suportar os seus planos. A Winners Alliance, uma afiliada focada em atletas e presidida pelo bilionário Bill Ackman, investiu cerca de 13 milhões de dólares (10 milhões de euros) e concedeu um empréstimo posterior. Um acordo preliminar com a Eldridge, cofundada por Todd Boehly, que garantiria mais 30 milhões de dólares, não se concretizou após o primeiro meeting na Jamaica, em abril.

Recentemente, um grupo de credores rejeitou uma proposta de reestruturação que previa o pagamento de 85% da dívida aos atletas, mas apenas 1,5% aos fornecedores «gerais não garantidos». O GST classificou esta oposição como um ato que «cheira a desespero».

Por sua vez, a Winners Alliance distanciou-se, afirmando não controlar a liga de atletismo e considerando as objeções dos credores «fundamentalmente falsas». Num comunicado anterior, a empresa defendeu-se, declarando que «o registo público deixa claro que a Winners Alliance investiu mais capital, assumiu mais risco e, em última análise, sofreu perdas financeiras maiores do que qualquer outra parte».