Marco Almeida: «Foi indescritível o fim do jejum no Sporting»
Aos 49, olha para o futebol com a maturidade de quem viveu o melhor e pior do desporto rei. Formou com Beto a dupla de centrais mais jovem da história do Sporting, quebrou o jejum de 18 anos, em 1999/2000 e, após o final da carreira, enfrentou a dura realidade de recomeçar do zero fora dos relvados. O antigo central abre o coração a A BOLA e projeta o futuro como diretor desportivo.
— Chegou ao Sporting aos 10 anos. Subiu degrau a degrau até se estrear na equipa sénior, em 1997.
— Esse 21 de dezembro ficará para sempre marcado na minha vida. Fui para estágio, sabia que havia uma hipótese de jogar, mas nunca me passou pela cabeça ser titular. Ao pequeno almoço, o mister Cantatore disse-me que ia jogar de início.
— Melhor estreia era impossível.
— Foi contra a Académica, o jogo correu bem, ganhámos (1-0), fui eu que marquei, foi uma grande prenda de Natal [risos]. Se me recordo do golo? Como se tivesse sido ontem. Canto a nosso favor, do lado esquerdo, Pedro Roma na baliza, subi à pequena área e marquei.
— Golo num lance de bola parada, algo cada vez menos habitual no Sporting. O que mudou?
— Algo que acontece desde há uns anos. O Bruno Fernandes é que assumia as bolas paradas e, desde então, o Sporting não tem aquele especialista em bolas paradas que deveria ter. Quem não se lembra do André Cruz? Foi um dos homens do título. Acho que é sempre favorável ter 'esse' jogador, uma bola parada decide praticamente um jogo.
— Na época seguinte seguiram-se empréstimos a Lourinhanense, Campomaiorense e Southampton. Foi difícil para si?
— Sempre assumi os meus empréstimos como uma fase de crescimento. Nunca os vi como se não fizesse falta. O Sporting sempre me acompanhou, estivesse em Campo Maior ou Inglaterra, havia um telefonema, reuniões, para saberem como estavam a correr as coisas, nunca senti que era descartável.
Esperei, quis ouvir o Sporting e foi o Luís Duque quem me ligou. Nada contra o Southampton, nem contra a instituição Benfica, mas o meu sonho era mesmo afirmar-me no Sporting, o clube do meu coração
— Antes de voltar ao Sporting recebeu um convite do Benfica.
— Não queria sair para o Southampton, sentia que poderia ser o meu ano de afirmação, mas houve um dirigente que não entendeu assim... Acabei por ir, aceitei em nome do Sporting, porque acredito muito numa frase que sempre me transmitiram no futebol, especialmente no Sporting, 'as pessoas passam, mas o clube fica'. Serei eternamente grato ao que o Sporting me conseguiu fazer, tanto como homem, como profissional. Terminava contrato em dezembro, ao abrigo da Lei Bosman, o Southampton apresentou-me proposta de cinco anos e surgiu um telefonema do Benfica, com uma proposta muito superior à que tinha. Esperei, quis ouvir o Sporting e foi o Luís Duque quem me ligou. Nada contra o Southampton, nem contra a instituição Benfica, mas o meu sonho era mesmo afirmar-me no Sporting, o clube do meu coração.
— E fez parte da equipa que quebrou jejum de 18 anos sem títulos.
— Que honra. A maneira como fomos vivendo jogo a jogo, sentir que cada vez estávamos mais perto, que poderíamos ficar na história do clube... E tínhamos um homem à frente do leme, um comandante, um líder que era o mister Augusto Inácio, foi uma peça fundamental. Foi indescritível o fim do jejum.
— Foi o ponto mais alto da sua carreira?
—Tive momentos felizes, como o golo que já falámos na estreia, mas ter sido campeão nacional pelo Sporting foi dos momentos mais altos, que guardo no meu coração, a maior alegria. Também fui internacional 55 vezes, desde os sub-15 até à Seleção B, orgulho-me muito do trajeto, por aquilo que fiz e pelo que conquistei.
Veja a entrevista na íntegra.
«Gonçalo Inácio não é líder nato»
Instado a analisar o setor defensivo do Sporting, que tem estado sob escrutínio deste o arranque da época, o antigo central reconheceu algumas debilidades: «Já desde a saída de Coates, que era uma voz de comando no campo e no balneário. Gonçalo Inácio é um excelente jogador, por isso está num dos melhores clubes do Mundo, mas não tem essa tendência de ser líder nato e acho que, neste momento, falta isso ao Sporting.»
E sobre a importância cada vez maior dos defesas-centrais no futebol moderno disse: «Perdeu-se alguma agressividade, no bom sentido, ganhou-se outras coisas. O futebol evolui e é grande a tendência de que os centrais sejam bons tecnicamente, para se começar a construiu de trás.»
Novas funções fora dos relvados
— Muitos ex-jogadores dizem que o dia em que se pendura as chuteiras é o início de um luto. Aconteceu consigo?
— É um sentimento muito difícil de expressar em palavras. É como se o mundo acabasse. Acordamos e já não há treino, o cheiro da relva. Tomei a decisão em consciência, mão me preparei para isso. Foi um ano muito complicado.
— Foi vigilante e esteve no ramo imobiliário.
— Fiz bons contratos, mas também passei por clubes onde não pagavam. No Chipre tive sete meses sem receber. Tive de fazer coisas que não tinham nada a ver com o futebol, cresci como pessoa, fui sempre respeitado por quem me reconhecia.
— Voltou ao futebol, mas como treinador. Foi boa a experiência?
— Senti-me sempre um homem do futebol. Gostei da experiência, claro, mas revia-me mais na posição de adjunto do que treinador principal.
— Agora é diretor desportivo.
— Fiz a formação na Federação Portuguesa de Futebol, sempre tive curiosidade de saber como funciona a máquina por trás disto tudo. O Clube Desportivo de Santo António Lisboa abriu-me as portas e estou a dar os primeiros passos, agradeço-lhes bastante. Tenho experiência de balneário, fui treinador de futebol, estive ligado a duas empresas de agenciamento de jogadores, consigo aportar um pouco mais, dá-me alguma sabedoria para enfrentar os problemas diários. Tenho a ambição de chegar a um nível superior, numa liga profissional, como é óbvio.