Cristiano Ronaldo — Foto: IMAGO
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Adeus que me vou embora

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de José Neto, Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores FPF/UEFA; Docente universitário na Universidade da Maia; Embaixador nacional de Ética e Fair Play do Desporto

T endo em atenção este fenómeno do abandono de Cristiano Ronaldo da Seleção de todos nós, nome consagrado pelas circunstâncias do tempo, absolutamente extravasante em termos de discussão pública, campeão de todos os campeões, deixo à reflexão dos meus estimados leitores a consulta a uma 'Carta Aberta' de 22 de junho passado (antes do Mundial), que lhe foi por mim dirigida e publicada neste órgão de comunicação social no qual muito me honra colaborar.

Sem entrar em linha de conta com o que para tal minha opinião importa, quero, contudo, e numa tentativa de ajudar a compreender o fenómeno da transição de carreira de jogadores de elite, abordar em dois artigos o que para tal possa servir de melhor reflexão.

O abandono de carreira ou transição da mesma, no âmbito de jogadores de elite, deverá merecer uma especial atenção, logo a partir do momento que a mesma se inicia, no sentido de os atletas se prepararem individualmente de acordo com os recursos pessoais, experiências e estratégias a percorrer. Esse acontecimento pode representar para uns estados de pressão, intranquilidade e crise, enquanto para outros dum estado de alívio.

Sabe-se que o tempo de prestação em alto rendimento e o seu elevado grau de exigência para a função, é muito mais curto do que a maioria das carreiras. Para muitos, o desempenho de elevada competência, exercido e potenciado pela sua entrega total, pouco tem a ver com a inclusão noutras áreas e, por isso, por vezes vacilam e desistem.

Por outro lado, o investimento na prestação atlética e competitiva poderá proporcionar uma série de privilégios, insuscetíveis de perpetuação, após o afastamento da atividade. Tal facto pode por vezes colocar a questão sobre o porquê de uma carreira tão limitativa, no seu aspeto temporal. A razão apontada para a generalidade dos jogadores é uma e apenas uma: a paixão pelo que se faz, o amor ao futebol.

Os benefícios retirados de uma carreira com sucesso, ao mais alto nível, refletem-se muitas vezes, nas palavras dos próprios, no que corresponde à sua própria realização pessoal, mas também no robustecimento do aspeto financeiro. Fatores esses que, no mundo da transição, podem funcionar no sentido contrário, levando a que entrem em declínio, pelo afastamento de poder viver no mundo real. Nos diversos estudos realizados, alguns autores: Lavalle e Wylleman (2000); Maurphy (1995) e Olgilvie (1998) e eu próprio, Neto, J. (2010); referimos como fatores mais significativos da causalidade na transição de carreiras, a idade, a existência de lesões, a simples dispensa ou a livre escolha do próprio.

Um outro elemento a ser referido como causa perturbadora na transição de carreira tem a ver com o medo de ser dispensado. Essa brutal realidade de deixar de merecer confiança da equipa técnica, ou dirigente na manutenção de capacidades, até então superiormente desempenhadas, pode assumir uma expressão mesmo dramática para o atleta.

Outras causas derivadas da anterior, podem resumir-se no facto da incapacidade de respostas físico-atléticas devido ao avanço da idade. Por vezes é o próprio atleta, por sua iniciativa, a retirar-se, tendo assim a possibilidade de estar mais tempo com a família, ou abraçar outros projetos de vida; no entanto existe sempre um certo grau de dificuldade no momento do abandono, muito em especial quando os níveis de performance assumiram um estado de excelência, demonstrando essa identidade atlética perante uma plateia difícil de reeditar noutras vertentes profissionais.

Os autores atrás referidos juntamente com Werthner & Orlick (1996) e confirmados por mim próprio (2011), referem o caso dos atletas que se retiraram devido à existência e prevalência de graves lesões, experienciaram severo stress psicológico, manifestado em depressões, uso e abuso de substâncias, incluindo pensamentos arrasadores e tentativas de suicídio. Ainda se acrescenta um conjunto de reações experienciadas como seja: formas extemporâneas, e por vezes persistentes, dum estado de luto, perda de identidade, separação e solidão, medo e ansiedade e até um estado crítico de angústia pela perda duma importante parte do seu eu.

Um eu social, porque este eu, digamos, personalístico, é um constructo mental e social. Sabemos que, duma forma geral, os atletas, devido à dedicação extraordinariamente profissional à aquisição e manutenção de altas competências, declinam a atenção noutros vetores educacionais e formativos na aprendizagem da vida, tendo, por conseguinte, muita dificuldade de integração noutras áreas profissionais após o abandono da carreira desportiva.

Seguindo esta linha de orientação, surgem alguns casos de revelado interesse para objeto de reflexão. Algumas medidas reativas do afastamento que conduzem ao abuso do álcool, aumento do tabagismo, negligência de higiene pessoal, abandono da manutenção e controlo duma condição física adequada. Pelo contrário, os atletas que se mantinham ocupados, continuando a treinar de forma regular, formulando novos objetivos de conquista, sujeitos a um grande apoio social e preparando antecipadamente a sua retirada, apresentaram baixos níveis de ansiedade e maior capacidade de confronto com os problemas inerentes à transição de carreira já evidenciados.

Como é também de salientar a esta luz e que importa interpretar alguns casos de longevidade desportiva ao mais alto nível de atletas, como Paolo Maldini, Luís Figo e neste caso o próprio Cristiano Ronaldo. Neste âmbito, será importante programar um conjunto de medidas no sentido de ajudar os atletas a ultrapassar as dificuldades que se podem reportar a uma transição de carreira, inserindo-os num novo estado participativo da vida, que muito espera de quem pelo desporto lhe deu o suor misturado tantas vezes com as lágrimas da ingratidão ... ou porventura abençoadas pela força da razão.

Procurarei referenciar algumas dessas medidas no próximo artigo (Parte II).

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