Académico: a força do Interior e um exemplo para um país mais equilibrado
Q uantos clubes conseguem, com três pontos, com um triunfo ou com uma sequência de vitórias, deixar uma marca que vai muito para além do futebol?
Não muitos. Apenas aqueles que são mais do que uma equipa de futebol.
A vitória do Académico de Viseu frente ao Estoril, por 2-1, e a subida à condição ao quinto lugar da Liga — depois sexto, mas em igualdade pontual com o Arouca — é motivo de orgulho para os academistas, e para uma cidade que está a contagiar de positividade todo o campeonato. Futebol e discurso de cabeça erguida, com valor e com valores, estádio sempre cheio, a verdadeira festa do futebol.
Mas este momento de entusiasmo merece também uma reflexão que ultrapassa as quatro linhas: o que pode acontecer quando existe ambição para investir no interior, num território com identidade e potencial, e a consequente capacidade para transformar essa aposta num projeto de sucesso?
O Académico é hoje um exemplo dessa possibilidade.
Em 2021, a atual gestão da SAD iniciou um percurso que exigiu visão, persistência e capacidade para construir a longo prazo. Cinco anos depois, a marca Académico ganhou dimensão e, com o regresso à principal liga do futebol português, 37 anos depois da última presença, o clube recuperou um espaço de afirmação no panorama desportivo nacional. Demonstrou, assim, que também no Interior é possível desenvolver projetos desportivos com ambição nacional, construindo uma nova centralidade no futebol português.
Este percurso não se fez apenas dentro das quatro linhas. Exigiu investimento, planeamento e uma visão capaz de olhar para lá dos resultados imediatos. O mérito pertence à SAD do Académico, pela ambição e pela construção do projeto, mas também ao município de Viseu, pela visão de reconhecer no clube um parceiro estratégico para a valorização da cidade e da região.
O presidente da Câmara Municipal, João Azevedo, merece ser reconhecido pelo apoio público que tem manifestado desde o início do seu mandato. Acreditar no Académico é também acreditar na capacidade de Viseu para se afirmar no panorama nacional. A valorização do Estádio Municipal do Fontelo, através de uma intervenção que envolveu a SAD e o município e representou um investimento anunciado de três milhões de euros, constitui um exemplo concreto dessa visão.
Há ainda um terceiro elemento que merece destaque: o envolvimento do tecido empresarial. O Grupo Visabeira, uma referência empresarial com raízes em Viseu e patrocinador principal da camisola do Académico, simboliza a importância desta ligação entre o clube e as empresas da região.
A par de tantos outros patrocinadores e parceiros, contribui para sustentar um projeto que mobiliza vontades, reforça a identidade local e projeta o nome de Viseu. Quando o desporto, o poder público e as empresas caminham na mesma direção, criam-se condições para construir algo que vai muito além dos resultados de uma equipa.
Os efeitos desta aposta começam a ser visíveis. Um clube na principal liga nacional projeta o nome da cidade, mobiliza a comunidade, atrai adeptos, visitantes e abre oportunidades de valorização económica e social. O impacto económico deverá ser acompanhado e medido, mas a projeção nacional de Viseu é já um valor importante deste percurso.
É aqui que a história do Académico ganha um significado maior.
Portugal continua a enfrentar assimetrias territoriais que exigem respostas concretas. O investimento, as oportunidades e a visibilidade tendem a concentrar-se nos grandes centros urbanos, enquanto muitas regiões do Interior procuram afirmar o seu potencial. Mas será possível construir um País mais equilibrado sem acreditar nos projetos que nascem fora desses centros?
O Académico de Viseu mostra-nos que vale a pena acreditar. Não porque um clube possa, por si só, resolver os desafios do Interior, mas porque demonstra como a ambição, o investimento, a continuidade e a cooperação podem contribuir para afirmar um território.
Esta é uma mensagem que importa fazer chegar aos responsáveis pelas políticas nacionais. O Interior não deve ser visto apenas como um território a apoiar. Deve ser reconhecido como um espaço onde vale a pena investir, criar, inovar e construir projetos de futuro. O exemplo de Viseu pode inspirar outras regiões, respeitando as suas próprias realidades, a desenvolverem iniciativas capazes de gerar valor, criar oportunidades e reforçar a coesão territorial.
O Académico tem agora a oportunidade de consolidar o caminho percorrido e afirmar-se, progressivamente, como uma referência do futebol português. O verdadeiro alcance deste projeto não se mede apenas pelos pontos conquistados ou pela posição na classificação. Mede-se também pela capacidade de mostrar a uma cidade, a uma região e ao País que a geografia não tem de ser um limite à ambição.
Investir no Interior não é um ato de generosidade. É uma aposta no potencial de Portugal.
A vitória frente ao Estoril valeu três pontos. O projeto do Académico pode valer muito mais: ser um exemplo de como a força do Interior também pode ajudar a construir o futuro do futebol português e de um País mais equilibrado, coeso e capaz de valorizar todo o seu território.