A estátua de Bruno Fernandes em Old Trafford
Se ainda não está a ser pensada, devia. Há jogadores que entram na história de um clube pelos títulos, outros pelos números, e depois existem aqueles raros que o fazem pela forma como carregam o peso de um emblema inteiro às costas. Bruno Fernandes pertence claramente a essa última categoria.
À volta de Old Trafford, a casa histórica do Manchester United, erguem-se várias estátuas que contam capítulos da grande narrativa do clube. Não são apenas peças de bronze espalhadas pelo exterior do estádio. São memórias solidificadas. São testemunhos da grandeza que ali se construiu. Ali está Sir Matt Busby, o homem que reconstruiu o Manchester United depois da tragédia de Munique e conduziu o clube ao primeiro título europeu de um clube inglês, em 1968. Mais adiante encontra-se a famosa United Trinity, eternizando George Best, Denis Law e Bobby Charlton, três génios que marcaram uma geração inteira. E, claro, a imponente figura de Sir Alex Ferguson, o treinador que transformou o Manchester United numa potência global durante mais de duas décadas.
Cada estátua conta uma história. Cada uma representa um momento em que alguém elevou o clube acima do comum. É por isso que, olhando para o passado recente e para a atualidade, a pergunta que me surgiu com naturalidade: porque não o Bruno Fernandes? Claro que sou suspeito: admiro o Bruno enquanto jogador, mas, acima de tudo, enquanto ser humano. É feito da matéria daqueles que não desistem. E isso, no desporto e na vida, vale muito mais do que qualquer talento isolado. O Bruno é o retrato do atleta que teve de sofrer, abdicar, insistir e, sobretudo, persistir para conquistar o que é seu. E isto não é uma metáfora, é uma constatação. No futebol, o talento pode abrir a porta. Mas é o comportamento que permite entrar… e ficar. O 8 do Man United é exemplo e referência. Um sinal claro, e necessário, para os mais novos e não só, num mundo que precisa, cada vez mais, de inspirações positivas. Construiu-se passo a passo. Caiu, levantou-se, ajustou-se. Acreditou onde outros duvidaram. Trabalhou onde outros descansaram. Abdicou para se manter focado. Insistiu. Lutou e alcançou… apesar de ainda haver muito para conquistar. Percorreu todo este caminho com algo que considero absolutamente essencial no desporto e na vida: atitude. E se há um jogador que tem personificado o Manchester United nos últimos anos, esse jogador é o capitão do clube inglês. Bruno não é apenas um médio talentoso. É o maestro da equipa. O homem que organiza, cria, decide e assume. É o jogador que aparece quando a equipa precisa de alguém que lidere. Desde que chegou a Old Trafford, tornou-se a bússola ofensiva da equipa, e esta temporada voltou a ser um dos rostos da produção do United: o site oficial do clube destacou recentemente que já ultrapassou as 200 participações em golos pelos red devil’s. É, de certa forma, o verdadeiro influencer de Old Trafford: o homem que dita o ritmo, que arrasta os colegas, que inspira, que não se esconde, que transforma momentos difíceis em oportunidades.
Num Manchester United que tem vivido anos de instabilidade, mudanças de treinadores, reconstruções sucessivas e uma pressão constante para regressar ao topo, Bruno Fernandes foi muitas vezes o único fio condutor entre o passado glorioso e o futuro que o clube procura reencontrar. Foi sempre o ponto de referência e de resistência. Sempre presente, sempre disponível, sempre inconformado. Inconformismo é, para mim, uma das palavras que define o seu trajeto nos Red Devil’s. E atenção, fê-lo numa das fases mais turbulentas da história recente do clube.
Os números ajudam a contar essa história. Com 106 golos e 100 assistências em 320 jogos pelos Red Devil’s, Bruno Fernandes gravou o seu nome nas estatísticas do Manchester United de forma impressionante. Frente ao Aston Villa, alcançou as assistências 99 e 100 pelo clube, ultrapassando um recorde que pertencia a David Beckham. Com 16 assistências numa única época da Premier League, tornou-se o jogador do Manchester United com mais passes para golo numa temporada da competição, superando o antigo internacional inglês (15) e deixando outro português, Nani, na terceira posição da lista (14). No início de março, frente ao Crystal Palace, também já tinha ultrapassado Beckham no número de jogos da Premier League em que marcou e assistiu (18), ficando apenas atrás de duas lendas absolutas do clube: Wayne Rooney e Ryan Giggs.
Mas Bruno Fernandes é muito mais do que números. É também intensidade. Quem o vê jogar percebe rapidamente que Bruno vive cada minuto com uma energia quase contagiante. Reclama, incentiva, gesticula, organiza. Há quem critique esse lado emocional. Mas, na verdade, é precisamente esse fogo competitivo que define os grandes capitães. Bruno Fernandes joga sempre como se o jogo estivesse empatado aos 90 minutos. E essa mentalidade é algo que Old Trafford sempre respeitou profundamente.
Ao longo da história do Manchester United, os grandes líderes foram sempre jogadores incapazes de aceitar a mediocridade. Roy Keane tinha essa chama. Bryan Robson também. Wayne Rooney mostrou-a muitas vezes. Cristiano Ronaldo sempre. Hoje, essa responsabilidade pertence ao médio português. O respeito pelo capitão do Man United ultrapassa rivalidades. Jack Grealish, jogador do Manchester City, escreveu nas redes sociais após mais uma exibição decisiva:
− Bruno é um jogador absolutamente inacreditável.
Jürgen Klopp foi ainda mais longe:
− Para mim, Bruno Fernandes é o jogador da época da Premier League. As pessoas falam de números, mas a influência dele no Manchester United é diferente. Quando um jogador consegue carregar uma equipa assim todas as semanas, isso é classe mundial.
Também Arsène Wenger não poupou elogios:
− As pessoas esquecem-se de que Bruno não foi uma contratação mediática. Foi simplesmente um grande negócio. Ele carregou a equipa, enfrentou os grandes clubes e fez a grandeza parecer normal. Este rapaz pensa o futebol.
E há um momento que talvez diga ainda mais sobre os valores que fazem parte do ADN do Bruno Fernandes… No último verão, recebeu uma proposta milionária da Arábia Saudita. O Al-Hilal estava disposto a pagar mais de 100 milhões de euros ao clube e oferecer ao médio português um contrato que triplicava o que recebe em Inglaterra. Muitos teriam aceitado sem hesitar. Bruno Fernandes não. Depois de conversar com a família e refletir sobre a sua situação e os seus objetivos desportivos, decidiu ficar. Não ficou por comodismo. Ficou num clube em crise, num contexto de enorme pressão, depois de uma época muito abaixo da dimensão histórica do emblema - 15.º lugar na Premier League e derrota na final da Liga Europa - quando sair seria, para muitos, a decisão mais fácil e até mais confortável. Uma coisa é permanecer num gigante estável, vencedor e protegido pelas vitórias. Outra, bem diferente, é não virar costas a uma instituição que atravessa um período difícil. Bruno Fernandes escolheu ficar quando o Manchester United mais precisava de referências competitivas, de exigência interna e de alguém que elevasse o nível.
Num futebol cada vez mais dominado pelo poder financeiro, esta decisão teve um valor simbólico enorme. Foi uma escolha de identidade, de compromisso e de liderança. E isso, num clube de futebol ou em qualquer área organizacional, conta muito. Os adeptos do Manchester United sempre valorizaram jogadores que não se escondem nos momentos difíceis. Jogadores que assumem responsabilidade. Jogadores que entendem que vestir aquela camisola significa representar algo maior. Bruno Fernandes tem feito exatamente isso. O capitão que nunca desaparece, mesmo quando os resultados não acompanham.
Bruno Fernandes não resolve todos os problemas do Manchester United, nem podia resolver. Nenhum jogador, por melhor que seja, resolve sozinho. Mas há jogadores que, em tempos difíceis, definem um padrão. Bruno tem sido esse padrão.
Talvez ainda seja cedo para falar de estátuas. Mas se um dia, ao caminhar em direção a Old Trafford, os adeptos encontrarem uma nova figura de bronze junto às de Busby, da Trinity ou de Ferguson, não será apenas uma homenagem a um grande jogador. Será o reconhecimento de algo maior. Será a celebração de um capitão que escolheu ficar quando era mais fácil partir. E que, jogo após jogo, continua a liderar o Manchester United como só os verdadeiros líderes sabem fazer.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».