Bruno Dias: treinador do Belenenses (artigo de Manuel Sérgio, 379)

Espaço Universidade 03.07.2022 17:41
Por Manuel Sérgio

O Dr. Bruno Dias é o novo treinador do Clube de Futebol “Os Belenenses”. Foi ele que mo disse, sabendo que me dava uma grande alegria. De facto, se é verdade que muito devo à generosidade de José Maria Pedroto, de José Mourinho e de Jorge Jesus, que muito me têm ensinado sobre os “segredos do futebol” (o Mourinho é, a este propósito, um mestre) – no Bruno Dias, não sei o que mais admirar, se a sua modéstia, se a sua insaciável curiosidade. A favor da sua modéstia está o respeito, como acolhe o pouco que sei; no que à sua insaciável curiosidade diz respeito, tem e enriquece continuamente uma informação exaustiva sobre as ciências humanas, pois que sabe, de ciência certa, que “não há jogos, há pessoas que jogam”. Pela sua juventude, não pode ser  dele um excecional currículo, como treinador de futebol mas é dele uma excecional honestidade. Aliás, o meu querido Belenenses já não pode ser treinado, hoje, por treinadores como o Helenio Herrera, o Fernando Riera, o Otto Glória, o Fernando Vaz e outros nomes que o tempo não consegue silenciar os seus êxitos… de camisola azul e cruz ao peito! Mas pode ser treinado por um jovem profissional que é capaz de indicar soluções, apontar caminhos e ajudar à conquista de vitórias, a um Clube que já foi um dos “grandes” do futebol português. Estava escrito que não seria fácil e desimpedido o caminho que havia de levar Artur José Pereira (o fundador do Belenenses, na noite do dia 23 de Setembro de 1919) e seus pares ao caminho seguro de muitas vitórias. Afinal,  logo a primeira equipa do Clube conquistou a Taça Mutilados da Guerra, o mais importante troféu que, nesse então, se disputava, em provas desportivas e em território português. Também agora, na terceira divisão, não tem o Belenenses orçamento para acompanhar galhardamente os melhores clubes do nosso futebol, mas tem um Passado que nos ensina a construir um Futuro bem diferente… do presente!


Para Ribeiro Sanches, no século XVIII, Portugal era  o “Reino Cadaveroso” e, para  poder avaliar-se até que ponto o nosso ensino universitário andava pelas ruas da amargura leia-se a carta que ele escreveu a um professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Serra Mirabeau onde, após uma rigorosa análise do atraso  científico dos estudos médicos, no nosso ensino superior, conclui tratar-se de uma “árvore carcomida até à medula”. Pelo facto de escolher o Dr. Bruno Dias, para treinador do Belenenses, o Dr. Patrick Morais de Carvalho revelou, sem margem para dúvidas, que o Belenenses de hoje quer reinventar-se, quer rejuvenescer, quer voltar a ser jovem, não quer confundir-se com “uma árvore carcomida até à medula”- Embora os acres comentários de quem o não conheça, Bruno Dias tem as qualidades e o saber suficientes para liderar o futebol do Belenenses que todos os belenenses anseiam. Na Terceira Divisão do Nacional de Futebol, o Belenenses encontrará velhos conhecidos  da Primeira Divisão, tais como: a Associação Académica de Coimbra, o Vitória de Setúbal, o União de Leiria e o Alverca. Com eles, há-de ensinar a muita gente que o desporto é o espetáculo mais belo deste mundo, quando não é ódio e é amor; quando não é facciosismo e é tolerância; quando não é competição e é coopetição  (uma síntese, em movimento, de competição e cooperação). O meu querido Belenenses que percorreu todo o meu tempo de criança e de rapaz: o Belenenses do Capela, do Vasco, do Mariano Amaro, do Feliciano, do Serafim, do Andrade, do Quaresma, do Rafael, o Belenenses campeão nacional de futebol, o Belenenses que não foi a minha pátria, ou a minha mátria, mas foi certamente a minha frátria, pois que eu via, em cada belenenses, um irmão. E de todos estes “craques” ainda distingo o Mariano Amaro, o “Einstein da bola”, como o jornalista Vítor Santos lhe chamava. De facto, um jogador inteligente que dava gosto ver jogar,,,


Carlo Rovelli, um dos maiores físicos teóricos do mundo,disse,há pouco~(2022/6/3), à revista do Expresso: “Não sou um político, sou um intelectual e os intelectuais foram sempre pagos para pensar. É nosso dever gritar, quando vemos algo estúpido a passar-se”- Ora, porque fui professor de Filosofia e Epistemologia, 46 anos (30 no ensino público e 16 no ensino privado) em Portugal, Brasil e Chile; porque o meu nome encima uma Cátedra, na Universidade Católica Portuguesa e proposta (não imposta) por um dos grandes escritores portugueses do nosso tempo, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça – embora “minimus inter pares”, julgo poder considerar-me um intelectual. Em Junho de 1987, ensinava (e estudava) eu na Unicamp, no Brasil e, num colóquio, em Florianópolis, acompanhei o filósofo José Arthur Gianotti em tema que, nesse tempo, muito me agradava: “A prática-teórica, em Louis Althusser”. A expressão “prática-teórica” foi criada e tematizada por Louis Alhusser e fez furor entre os estruturalistas marxistas. Findo o colóquio, o Doutor Gianotti enrugou a testa e, confuso, questionou-me: “Disseram-me que você é professor de ginástica. É verdade?». Respondi-lhe: “Não, não sou professor de educação física mas, se o fosse, sentir-me-ia tão feliz como sou hoje, simples licenciado em filosofia». E ainda acrescentei: “E não me sinto especialista, em Louis Althusser». E ele, simpático: “Mas parece”. É isto: todos nos julgam pelo que parecemos, não pelo que somos. O José Mourinho foi treinador do Benfica e, sendo um jovem, deixou escrito, para quem sabe ler, que acabava de nascer, o melhor treinador de futebol do mundo. As palavras não são o único modo de expressão do pensamento. O que fazemos fala mais alto do que tudo o que dizemos. Até o que não dizemos se deve escutar e saber ler. Volto â entrevista do Carlo Rovelli: “O progresso na ciência é real. Contudo, é um erro pensar que nos limitamos a acrescentar coisas novas a um corpo fixo de conhecimentos. Para o fazer, é preciso deitar fora algumas peças do passado”. É verdade: de quando em vez, sem um «corte epistemológico», não há progresso. O Belenenses tem, hoje, consigo alguém capaz de um “corte epistemológico”, no seu futebol. É evidente que quem ler estas minhas “mal alinhavadas regras” não pensa duas vezes e conclui: “o velho está aterosclerótico de todo”. Mas eu peço que o deixem começar a trabalhar e depois conversamos. Estou velho, de facto. Já rezei o “mea culpa” inúmeras vezes. Mas conheço o Bruno Dias, sei o que nele há de honestidade e de estudo. Sim, é verdade que pode não chegar, mas é um princípio que nem todos têm.


Em obra que surgiu nas livrarias, há vinte anos, se bem penso, mas que mantém viva atualidade (refiro-me ao livro, que correu mundo, A Terceira Cultura, de J. Brockman) este autor tentava exprobrar alguns “intelectuais”(?), ignorantes embora de qualquer especialidade científica, ou das realizações mais significantes da ciência atual, mas que falam, escrevem, opinam, como se fosse deles a “última palavra”, em todos os assuntos – enfim, retóricos, no pior sentido da palavra. O cientista português, António Coutinho, opinou assim, a este propósito: “Nos últimos anos, afirma Brockman, o centro da vida inteledctual americana deslocou-se e é o intelectual tradicional que se encontra cada vez mais marginalizado. A educação dos anos 50, a partir de Freud, Marx e do modernismo, não é já uma qualificação suficiente, para quem, nos anos 90, procura pensar. Assim, ao contrário da exclusão cultural a que os intelectuais dos anos 50 condenaram as ciências, hoje os cientistas, não só dispensam totalmente a comunicação com os literatos, como se dirigem diretamente ao público, passando por cima de qualquer intermediário” (in Tempo Medicina, Maio de 1996). E assim nasceu a Terceira Cultura, onde só os cientistas parecem ter lugar. Eu que encontro cientificidade nas ciências hermenêutico-humanas, não tenho quaisquer problemas em poder reconhecer, num licenciado, ou mestre, ou doutor, em Desporto (e portanto numa ciência, ou num ramo científico, de uma ciência humana) o especialista melhor informado, precisamente sobre o Desporto. Sem entrar no capítulo da “guerra das ciências”, ou seja, entre os cientistas e os humanistas (com raízes no  antagonismo, velho de muitos séculos, episteme-doxa) eu quero dizer tão-só que o Belenenses, o meu querido Belenenses, tem, para esta sua ascensão à Terceira Divisão do Nacional de Futebol, um treinador de muito bom nível intelectual e científico.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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