Rui Silva: «Fui sempre poupado e dei sempre muito valor ao dinheiro»

A BOLA FORA 20-10-2021 12:52
Por Tânia Ferreira Vítor

Da Maia para a Madeira, da Madeira para Espanha e de Espanha para o mundo. A história do guardião - internacional português - que chegou ao Bétis de Sevilha no verão depois de três anos felizes ao serviço do Granada.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?
 

- Estava a descansar. O treino de hoje foi mais intenso e quando é assim aproveito para descansar um bocado a seguir ao almoço.

 

- Vi o vídeo do teu pedido de casamento no Instagram da Inês e tenho de te dar os parabéns. A ideia foi tua ou as amigas da noiva deram uma ajuda?
 

- Zero! Foi tudo da minha cabeça. Já estava a pensar no pedido de casamento desde as férias, sabia que a família da Inês iria estar cá nessa altura. Pensei fazer num barco ou noutro sítio diferente, mas as restrições do Covid-19 atrapalharam um bocado e acabou por ser em casa com a família dela, alguns familiares da minha parte e um ou outro amigo. O meu amigo Nuno Ribeiro (que é cantor) também aceitou fazer parte da surpresa e foi giro. A Inês diz que eu tive muito tempo para pensar, porque já namorámos há quase dez anos. Estava sempre a queixar-se que eu não era romântico e não a surpreendia, mas a verdade é que o fiz na hora H. Marquei pontos [risos].

 

- Em junho, assinaste um contrato válido por cinco épocas com o Bétis, de Sevilha. Não vou perguntar como está a ser a adaptação, porque já levas três anos na Andaluzia [Granada] e imagino que seja uma zona porreira para viver…
 

- A diferença de Granada para Sevilha é pouca. Sevilha é uma cidade maior, com mais história e muito bonita. Também está mais perto de Portugal, o que acaba por amenizar as saudades. Gostamos muito de viver no sul de Espanha e estamos deliciados com a cidade. Outra coisa incrível é o clima: estamos em outubro e temos trinta graus.

 

- Adotaste alguns costumes?
 

- Por falar continuamente espanhol, às vezes sai-me um gracias ou um hola quando vou a Portugal, sobretudo nas portagens. De resto continuamos a ser muito portugueses. Não gostamos, por exemplo, de comer tarde como os espanhóis. Aqui, o normal é almoçar às duas e meia, três horas e jantar às nove e meia, dez da noite. Para mim não dá. Não gosto, porque fico com a sensação que passei o dia todo no restaurante.

 

- O teu nome esteve em alta no mercado, graças ao bom desempenho em Granada. De que forma é que o Bétis te convenceu?
 

- Em Granada, não conseguimos chegar a um acordo para a renovação. Foram três anos de muito sucesso, mas senti que tinha atingido tudo aquilo que seria possível. Foi um clube muito importante para o meu crescimento, mas percebi que tinha de dar o passo seguinte. O Bétis apareceu como um projeto aliciante, também devido ao estilo de jogo da equipa, gostava de os ver jogar. O facto de já conhecer a liga espanhola e de já estar adaptado à Andaluzia também pesou. Quando saí do Nacional para o Granada precisei do meu tempo, senti muita diferença não só no idioma mas também no dia a dia. E sabia que um novo projeto noutro país iria roubar-me tempo para essa adaptação. Aqui a novidade era só a equipa. Mas fui bem recebido. Temos um grupo humano espetacular e o William [Carvalho] também ajudou na integração.

 

- O que mais te surpreendeu no Bétis, um dos clubes com mais adeptos na Liga Espanhola?
 

- Foi sem dúvida a grandeza. É um clube com uma massa adepta enorme e exigente. Jogamos em casa sempre com 30, 35, 40 mil espectadores e um ambiente incrível. Quando saímos do treino, costumamos ter umas cem pessoas à nossa espera para nos cumprimentar ou tirar uma fotografia. É uma realidade à qual não estava habituado.

 

- E lidas bem com essa maior visibilidade?
 

- No início, foi estranho - lá está, não estava habituado. Agora é tranquilo. Quando saio do treino ou mesmo do jogo, gosto de parar para dar um bocado de atenção às pessoas. Não quero que pensem que sou arrogante ou mal-educado e também sei que essa interação é importante para os adeptos. Mas confesso que já aconteceu sair e seguir sem parar depois de um jogo menos conseguido. Sei que não é bonito, mas às vezes as coisas não correm bem, estamos chateados e sem cabeça para falar ou sorrir.

 

- Vamos recuar um bocado no tempo para percebermos melhor a tua história. És natural da Maia, onde fazes a formação, mas entretanto vais para o Nacional da Madeira, no último ano de júnior. Como é que se proporcionou?
 

- Eu comecei a integrar o plantel sénior do Maia com 16, 17 anos e isso acabou por chamar a atenção. O Maia era um clube com visibilidade e com muita gente a assistir aos jogos. Eu já tinha ido treinar a outros clubes, mas não fiquei. Um dia, um empresário falou-me da possibilidade do Nacional e passado pouco tempo estava tudo acertado: um contrato de cinco anos, o meu primeiro como profissional.

 

- Foste sozinho? Quais foram os maiores obstáculos dessa primeira experiência fora de casa?
 

- No início foi bastante difícil. Tinha 18 anos, acabado de terminar o 12.º ano e de começar a namorar com a Inês. Passado umas semanas, estava a treinar na Madeira como profissional de futebol. Calhou ser tudo na mesma altura e lembro-me que no início tinha muitas saudades de casa e da Inês. Mas foi uma experiência enriquecedora que me preparou para a vida.

 

- Li numa entrevista que vivias na Choupana no espaço destinado à formação…
 

- Sim, o Nacional tinha excelentes condições, desde o alojamento à alimentação. O único senão é que vivíamos na Choupana, lá em cima, e era mais longe para ir ao centro. No início não tinha carta nem carro, pedia muitas vezes boleia aos jogadores mais velhos, outras vezes ia na carrinha do clube.

 

- E governavas-te bem com o salário?
 

- Fui sempre poupado e dei sempre muito valor ao dinheiro. Gosto de estar preparado para o futuro. O facto de viver na academia do Nacional permitia-me juntar dinheiro: não gastava em alojamento nem em alimentação e isso para mim era perfeito.

 

- Esse miúdo que aterrou na Madeira acreditava que aos 27 anos estaria neste momento incrível da carreira?


- Antes de mais, obrigado! Diria que não, não só pela dificuldade do futebol, mas por coisas que aconteceram na parte pessoal. Há muita coisa que influencia a carreira de um jogador e que pode desviar o rumo. Dou graças a Deus por ter conseguido manter o foco, também pela estabilidade familiar que tive. Sinceramente, não contava estar neste patamar aos 27 anos. Já atingi muitos objetivos, mas ainda tenho muita coisa para conquistar.

 

- Qual é o ponto chave da tua carreira?
 

- Penso que foi a última época na Madeira, quando fui verdadeiramente aposta na baliza. Nas duas temporadas anteriores, jogava quando o primeiro guarda-redes se lesionava ou estava castigado, ou seja, não tinha continuidade. Em 2016, fui aposta do treinador Manuel Machado e do clube. Lembro-me que à terceira jornada, contra o Benfica, fiz um jogo menos bom e, no dia a seguir, o Nacional contratou um guarda-redes emprestado pelo FC Porto. Quando vi as notícias, fiquei com a sensação que algo não ia correr bem. Eu confiava nas minhas capacidades, mas também sabia como é que o futebol funciona. O mercado estava a fechar e eu falei logo com os meus agentes para ver a possibilidade de sair. Mas, no dia seguinte, o mister chamou-me ao balneário dele e disse para eu estar tranquilo, porque iria continuar a apostar em mim. Aquelas palavras foram muito importantes. Ganhei confiança e fiz cinco meses muito bons que me abriram as portas do Granada, em janeiro.

 

- Granada deu-te uma história bonita e o passaporte para a Seleção. É na seleção que vives o auge?
 

- Sim! Representar o país é o momento de maior orgulho e de motivação máxima que qualquer jogador quer atingir.

- Estiveste no Euro-2020. Já sabias que ias ser convocado ou ficaste a saber na hora em que o selecionador fez o anúncio?
 

- Olha, soube dez minutos antes. A Federação envia um email para o clube e se o clube for rápido a ver e a transmitir a informação, eu consigo saber um pouco antes; caso contrário só sei na conferência de imprensa. Por exemplo, quando fui convocado pela primeira vez para a Seleção A, soube em direto pela televisão. Foi um momento único! Estava a ver com a Inês e quando o meu nome apareceu, agarrámo-nos um ao outro a chorar. Chorei muito! Nessa altura, há muitos pensamentos que vêm ao de cima.

 

- Estar presente num Europeu deve ser indescritível, mas quais são os melhores momentos, aqueles que se contam à família num almoço de domingo?
 

- Olha, da experiência do Euro guardei muita coisa, foi mesmo inesquecível. O convívio que tínhamos nas refeições era muito bom, às vezes ficávamos uma hora, uma hora e meia na conversa. O grupo era unido e era incrível estar ali com muitos dos meus ídolos e conhecê-los de perto. Outra coisa que me lembro era de ir para o treino e ver ali a comunicação social pronta para transmitir aqueles primeiros minutos que eu costumava ver em casa. Agora eu estava ali e não no sofá. E depois o caminho até ao estádio, o momento de cantar o hino, o grito no balneário. São momentos impagáveis. Tudo isso arrepia e emociona.

 

- Com tanta emoção e adrenalina há o risco de esquecer a letra do hino?
 

- Não, isso é impossível! O hino é um dos momentos mais altos e aquilo sai naturalmente. Outro momento bonito que me estou a lembrar agora: no aquecimentos dos três jogos da fase de grupos, tocou A Minha Casinha dos Xutos e Pontapés e foi brutal. Os nossos adeptos a cantar… Foi mesmo espetacular!

 

- Conta-me lá um segredo: há uns anos disseram-me que o Cédric era o jogador mais vaidoso do grupo. Quem é que agora leva esse prémio para casa?
 

- Eu cheguei a apanhar o Cédric num estágio e por acaso reparei que ele trazia o secador de casa e tudo. Não sei se é o mais vaidoso, mas vou dizer o Rui Patrício, que é bastante. Ele gosta de ajustar o cabelo e fica ali algum tempo [risos].

 

- Dizem que a posição de guarda-redes é solitária, mas pessoalmente olho para o guarda-redes como um líder. Concordas com a versão solitária ou sentes-te mais um boss a empurrar a equipa?
 

- Antigamente, o guarda-redes tinha menos interferência no jogo, hoje penso que é diferente, o que o torna menos solitário e mais valorizado. E penso que é assim que deve ser, porque é um elemento fundamental da equipa. É como dizes: comanda desde trás e tem de ter essa liderança. É importante na construção do jogo e na linha de passe que dá à defesa. O único senão, na minha opinião, é que um guarda-redes passa de bestial a besta num instante. É uma posição ingrata.

 

- A Inês sofre nos jogos…
 

- Ela diz que são os noventa minutos mais sufocantes da semana [risos]. Em casa, às vezes comento com ela um lance ou outro, mas ela não se lembra. Quando fui jogar pela primeira vez ao Santiago Bernabéu, ela foi com alguns familiares e o engraçado é que saiu de lá e não se lembrava de nada. A ideia era desfrutar por ser um jogo grande, mas ela fica muito nervosa, mais do que eu que vou jogar [risos].  

 

Rui e Inês num momento captado pela lente do amigo de Granada, Jesús Escudero (Foto arquivo pessoal)

 

- Voltando à liderança: consegues dar umas duras nos defesas quando é preciso? Ao Pepe é mais complicado [risos]?
 

- Bem, eu sei que não se deve olhar a nomes, mas é complicado chamar a atenção de um ídolo, de uma referência. Estás ali ao lado dele e queres parecer bem, não queres que  pense mal de ti. Mas se for para ajudar a equipa tem de ser.

 

- Quem é o guarda-redes que te enche mais o olho no campeonato português?
 

- Sinceramente estou a gostar muito do Adán [Sporting]. A época passada foi incrível e também tem estado muito bem no arranque desta. Tem-me surpreendido muito.  

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?
 

- O meu primeiro jogo pela Seleção: Portugal - Israel, ganhámos 4-0. Foi o mais especial de todos. Não queria que o jogo acabasse. Só fiquei com pena que não houvesse público nas bancadas.

 

 

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