De profundis (artigo de José Antunes de Sousa, 103)

Espaço Universidade 19-07-2021 10:58
Por José Antunes de Sousa

Tomo o título de José Cardoso Pires que, acometido de súbito episódio cardio-vascular, desceu, em repentino mergulho, à mansão dos mortos, dos esquecidos de si - não se reconhecendo já no eu que julgara ser: uma cataléptica desintegração dos elementos que configuravam a sua  identidade.
 

Este tropeção no mundo opaco das trevas fê-lo, paradoxalmente, regressar a um estado ínvio de uma estranha consciência que lhe propiciou  a vivência dolente de um fim espasmódico e convulso. Como se lhe fosse concedida a graça de se contemplar, duro e inteiro, no processo da sua própria degradação. E esse fio de consciência valeu-lhe a imprevista medida do quão incomensurável é a vida e do quão imperativo é dela tomarmos cuidado. Cheirou, com redobrada acuidade, a podridão das suas entranhas - e o ideal de uma vida vadia e regada com whisky e champanhe, virou apeadeiro lúgubre na marcha do fim, da “valsa lenta” do adeus.
 

Neste nosso mundo de sombras, tendemos a ver na fugaz fresta de um luar furtivo toda a refulgência do sol - e, neste equívoco trágico, nada para nós reluz tanto como o dinheiro.É, porém, uma luz que ofusca e cega: vivemos um modelo de vida que ousaria rotular de argentómano (a obsessão pelo ilusório poder do dinheiro).
 

Sim, se todos nos azafamamos na demanda nevrótica dos “trinta dinheiros”, significa que todos, cada um na sua circunstância, nos pelamos por pilhar a galinha do vizinho, ou o frasco de perfume da prateleira do supermercado.
 

Somos todos filhos do modelo argentário dos nossos anelos: a nossa sociedade está, toda ela, modelada pelo desígnio capitalista.
 

Quer isto dizer que estamos todos prontos para nos amanharmos com o que nos estiver mais à mão. E o amanho é à medida do tamanho do bolo que nos tenta e excita a pituitária. E, claro, a SAD de um grande clube é o prato de caviar particularmente apetecível - além de ter a aumentar-lhe a atractividade uma certa aura de impunidade: o mundo obscuro e anómico do futebol é uma réplica teratológica do modelo capitalista, de regabofe, deste nosso perigoso mundo.
 

Sem dó nem piedade, mataram a auréola romântica que tornara o futebol um fenómeno humano irresistível, o futebol das origens em que predominava a afectividade, a emoção, a paixão dos adeptos. Esse mundo limpo, território da espontaneidade amorável do povo, foi hereticamente invadido e capturado por uma elite arrivista de destemperados gulosos do dinheiro. Repito: ao modelo genuíno e ingénuo  do povo em festa sobreveio um modelo argentário, em que o único critério é o lucro a qualquer custo, modelo servido por uma alcateia de lobos argentómanos ou seja, totalmente obcecados pelo vil metal.
 

Que adira, pois, que os dirigentes do futebol estejam finalmente a ser confrontados com os seus desmandos? Admiração será o facto de só agora os estarem a meter na grelha - que há muito que nos vinha sendo insuportável o cheiro do churrasco!
 

Aqui deixo uma certeza: a procissão ainda só vai no adro.
 

Finalmente, os juizes não são todos súbditos.


E que ninguém se ria do vizinho.


Lembram-se da Dona Branca ? Ela foi criação da rataria de esgoto, ávida de dinheiro fácil .


Meu Deus, o que por aí vai!

 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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