O Martelo de Nietzsche IV (artigo de Gustavo Pires, 116)

Espaço Universidade 29-05-2020 13:38
Por Gustavo Pires

1. Perante as jogadas de bastidores, as retiradas oportunistas, os golpes de mão, as hipocrisias descaradas, os apegos ao poder, a falta de vergonha, as perseguições políticas, as alianças de conveniência, o retirar dos papetes e os discursos em que o significado das palavras muda segundo as conveniências de cada momento, pergunto aos dirigentes políticos e associativos do mundo do desporto se ainda sabem qual é o significado da palavra paixão? Os gregos antigos quando alguém morria não queriam saber se o defunto era rico ou pobre, alto ou baixo, bonito ou feio. O que eles queriam saber era se tinha vivido a vida com paixão. Perante o degradante espetáculo que alguns dirigentes políticos e associativos do vértice estratégico do desporto nacional têm proporcionado ao país recomendo-lhes a leitura de uma entrevista de Elisabete Jacinto ao DN (2019-02-14). Talvez possam ficar com uma ideia do que é o “impulso lúdico” que comanda a vida e se projeta numa verdadeira paixão pelo desporto.

 

2. Friedrick Schiller (1759-1805) foi o primeiro filósofo na era moderna a tratar a questão do jogo no ser humano. Na obra “The Aesthetical Essays” (Cf. Proj. Guteenberg) define jogo como o dispêndio exuberante de energia, cuja ação sem finalidade própria, se esgota em si mesma. Ainda na ideia do filósofo, o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra e, somente, é homem pleno quando joga. Trata-se do “play drive”, quer dizer, do “impulso lúdico” tão mal compreendido e tratado pelos políticos e não políticos que desgraçadamente têm gerido o desporto nacional. E o Codvid-19 ainda veio acentuar mais esta desgraça.

 

3. Herbert Spencer (1820-1903) no livro “Education: Intellectual, Moral and Physical” editado em 1866, defendeu o interesse das crianças pelos jogos e considerava a alegria das suas brincadeiras tão importantes quanto os esforços que as acompanhavam. E concluía que uma ginástica que não fornecesse os estímulos mentais próprios das brincadeiras dos jogos devia ser considerada defeituosa. Trata-se de uma obra que, apesar de terem passado mais de 150 anos, recomendo ao Ministro da Educação, ao Secretário de Estado da Juventude e Desporto e ao Presidente do Comité Olímpico de Portugal. Porque, para compreender verdadeiramente uma questão não existe melhor solução do que compreender o momento original em que ela se coloca.

 

4. Em 1901, o alemão Kral Groos publicou nos EUA (Nova Iorque) em língua inglesa o livro “The Play of Man” de onde colhi a seguinte máxima ? pro patria est, dum ludere videmur. Esta máxima significa ? “parece que estamos a jogar, mas estamos a preparar-nos para servir a nossa terra natal”. Era o mote das atividades físicas por toda a Europa antes da 1ª Guerra Mundial. Hoje, quando olho para o comportamento de algum dirigismo desportivo da cúpula do desporto nacional lembro-me da máxima que aprendi com Karl Groos, mas ao contrário: ? Parece que estamos a servir o País, mas estamos, simplesmente, a divertirmo-nos, deviam dizer alguns dirigentes desportivos. Trata-se da metáfora do “dress code” que significa as preocupações de um alto dirigente desportivo que, ao partir para um evento desportivo internacional, estava mais preocupado com o “dress code” obrigatório das festarolas onde ia participar do que nas condições em que os atletas iam competir.

 

5. Já não me lembro quando comecei a comprar diariamente jornais desportivos. Ao cabo de uma vida já devo ter gasto uma fortuna em jornais desportivos. Nunca me arrependi de os comprar apesar de, algumas vezes, ao cabo de uma leitura vazia de conteúdo, ter chegado à conclusão de que deitei o dinheiro fora. Apesar disso, centenas de vezes, comprei no mesmo dia os três desportivos. Na leitura dos desportivos, sigo uma regra sagrada que nos foi deixada pelo saudoso Prof. Moniz Pereira de quem fui aluno: ? Os jornais desportivos são para ser lidos de trás para a frente.

 

6.  Neste tempo de pandemia, eu que sou filho e neto de jornalistas e ainda não tinha atingido a adolescência já sabia o que era a redação dos jornais e conhecia bem o cheiro da mistura do chumbo com o óleo que lubrificava as “linotypes”, é com um enorme sentimento de tristeza que vejo a situação em que os jornais desportivos se encontram.  Hoje (2020-05-28) foi um dia em que comprei os três desportivos. Pouco passava das oito da manhã. Quando há uns anos via as bancas com dezenas de exemplares hoje comprei o único exemplar d’A Bola, um dos três do Record e d’ O Jogo, se não estou em erro, ficou lá um exemplar. Pelo que me é dado perceber os jornalistas têm cometido um erro. Querem, numa perspetiva corporativa, encontrar as soluções dentro da classe dos jornalistas. Ora, as eventuais soluções, se estiverem em algum lado, estão na sociedade. Os jornalistas têm de deixar de pensar em circuito fechado.

 

7. As instituições quer elas sejam religiosas, políticas, económicas ou jornalísticas, vivem na necessidade constante de se terem de adaptar à média da cultura das pessoas que estão debaixo da sua influência. A dificuldade é que, como essas pessoas estão sempre a mudar, a adaptação está a ser cada vez mais imperfeita. A continuar-se assim, por mais balões de oxigénio que possam ser disponibilizados, a morte é o destino mais certo, a menos que as instituições se consigam remodelar a uma velocidade superior à rapidez da mudança. Infelizmente, não é fácil embora não faltem por aí musas e pitonisas, videntes, astrólogos e bruxos a pretenderem adivinhar o futuro. Nos tempos de: (1º) Incerteza e dúvida permanentes; (2º) Grande volatilidade em que tudo muda constantemente, (3º) Enorme ambiguidade uma vez que, num grande número de situações, os problemas sugerem caminhos opostos para a sua solução. Nestas circunstâncias, adivinhar o futuro é, tão só, mais uma das impossibilidades da vida. Por isso, é necessário construí-lo. Claro que fica por saber se os atuais líderes, que nas mais diversas áreas sociais estão numa situação de comando, têm alguma ideia acerca do futuro que devem construir. E como…

 

8. Lamento dizê-lo, mas no momento de crise que se vive, o desporto nacional encontra-se completamente à deriva. Não há dia nenhum que não surjam nos jornais os dirigentes federativos que enquanto gestores intermédios arcam com todas as responsabilidades sobre um desporto que já vinha a funcionar mal, hoje está parado e ninguém sabe para onde é que o deve conduzir. O último presidente federativo a manifestar as suas angústias foi o da Federação de Natação. Diz António José Silva (Record, 2020-05-28) que “a FPN está a ajudar indiretamente junto das entidades no sentido de alargar as medidas de apoio económico do Governo às organizações desportivas e já foram feitas várias iniciativas e propostas, quer ao IPDJ e à Secretaria de Estado, secundadas por outras organizações, como a Confederação do Desporto e Comité Olímpico de Portugal”. Compreendo o discurso de desespero do presidente da FPN. E não queria estar no seu lugar porque ele, dramaticamente, expressa o estado de desorganização total em que a estrutura administrativa do desporto nacional se encontra. Nos tempos que correm o peso do descalabro recai sobre os gestores intermédios. Eles, quando olham para cima veem a nomenklatura completamente aparvalhada sem saber o que deve fazer e quando olham para baixo veem aqueles que deles dependem completamente desesperados. A minha solidariedade para o presidente António José Silva… e outros em semelhante situação.

 

9. Quando se esperava que o Comité Olímpico de Portugal (COP), com a autonomia e responsabilidades que lhe advém da Carta Olímpica profusamente esplanada na legislação portuguesa, à semelhança das demais organizações de liderança sectorial da sociedade civil, estivesse a preparar um caderno de encargos amplamente participado por todos os agentes desportivos a fim de o apresentar ao Governo fomos surpreendidos pela  notícia (Lusa, 2020-05-26) de que, afinal, o COP se limitou a pedir à tutela "orientações específicas" para a retoma do desporto. Como referiu Mário Santos, o Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos de Londres (2012) e atual responsável pelo desporto na Universidade de Coimbra, cito de cor: ? tratou-se de mais uma oportunidade entre aquelas que têm vindo sistematicamente a ser perdidas pelo COP. Por mim, lamento.

 

10. A adocracia, enquanto processo de gestão informal, expedito, criativo, adaptativo, integrador e temporário que, geralmente, acontece no âmbito das organizações burocrático-mecanicistas a fim de se resolverem problemas inesperados ou situações de crise, é um útil instrumento de gestão. O desastre começa a acontecer quando a adocracia se institucionaliza no âmbito das organizações burocrático-mecanicistas, como, desde 2005, tem vindo a acontecer no Sistema Desportivo nacional. Em resultado, está criada uma situação em que todos têm opiniões, mas ninguém é capaz de resolver as complicações de todo o género que surgem por todo o lado. Hoje, o desporto vive uma cultura de cada um por si e fé nos deuses do Olimpo. Todavia, os deuses do Olimpo já não respondem aos homens como o faziam ao tempo da Grécia antiga. Em consequência, temos um Sistema Desportivo a funcionar na mais completa ausência de uma liderança sustentada num poder hierárquico bem definido, competente, racional e gerador de confiança. Quando no âmbito do livre associativismo, por incapacidade das estruturas do vértice estratégico, as estruturas intermédias e da base do Sistema Desportivo, numa dinâmica mais ou menos anarquizada do salve-se quem puder, são obrigadas a tomar a iniciativa perante as entidades oficiais a fim de resolverem dificuldades que já vinham de trás mas que, agora, se   agravaram com a crise do Codvid-19, é porque há qualquer coisa que vai mesmo muito mal no desporto da pátria de Camões. E essa qualquer coisa é: Líderes incompetentes fazem incompetentes aqueles que lideram.

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