Como Proteger a Mente? Os Vírus (Artigo de João Oliveira, 28)

Espaço Universidade 25-04-2020 15:08
Por João Oliveira

O dia estava a amanhecer, o tempo estava bom, tudo calmo, ainda não havia transito, podiam-se ouvir os pássaros, mas o Treinador Brad Wooden, do F.C. os Galáticos, estava exausto por ter passado a noite em “branco”, sem dormir, mas sobretudo pelo que se tinha passado no jogo, da véspera. Aquele acontecimento tinha-o “mandado ao tapete” e parecia que o tempo não passava, que o juiz contava os segundos, 1, 2, 3, …, e que não lhe restava qualquer força, que o ajudasse a levantar. O “soco” tinha sido poderoso, mas diferente. Não tinha sido um “uppercut” normal, qual Mike Tyson, foi muito mais forte.

 

“Vou ligar ao Detetive Colombo” – pensou e fê-lo. Depois de lhe contar como estava, o Detetive Colombo dirigiu-se rapidamente para casa do Treinador Brad Wooden, parecia o Flash Gordon. “O juiz já ia no segundo 5, será que ainda havia tempo, para ajudar o seu amigo Treinador a levantar-se, antes do KO, antes do “10”?” – pensava o Detetive Colombo – “não havia tempo a perder” e decidiu começar.

 

“Treinador Wooden, o que se passou?” – perguntou o Detetive Colombo. “Ontem, estava a dirigir um jogo, como tantos outros, e a determinada altura, reparei que um dos jogadores não estava a dar o máximo. Comecei a gritar – “corre, pressionar, …,” - mas não era isso que acontecia. Estava perto do intervalo e já no balneário, quando “perdi a cabeça” e comecei a berrar com ele. O que tinha acontecido, não dar o máximo, era inadmissível. Quando terminei de libertar toda aquela irritação, ele levantou o braço, a pedir para falar, acenei-lhe com a cabeça, como que a dizer fala e ele disse-me “coach fiz uma entorse e não consigo correr””.

 

“Os olhos do Treinador Wooden fecharam-se, o queixo aproximou-se do peito e os ombros para a frente e para dentro” – reparou o Detetive Colombo e perguntou-lhe – “Treinador Wooden, como se sentiu?”.

“Mal, envergonhado e, passadas estas horas, é como me sinto, envergonhado. Como fui capaz de ter aquele comportamento?” – perguntava o Treinador Wooden e continuava – “o jogador treina comigo há uns anos, nunca me tinha dado qualquer motivo para “perder a cabeça” com ele, bem pelo contrário, sempre foi um exemplo. Não queria ter aquele comportamento e ao tê-lo, parecia que a intenção era a melhor, a do jogador mudar e passar a correr e pressionar, o resultado foi catastrófico”.

“Como assim?” – perguntou o Detetive Colombo. “Naquele momento, no balneário, parecia que me tinha caído tudo ao chão, que as minhas pernas tinham desfalecido, que os meus joelhos tinham batido no chão e que me tinha curvado para a frente, parecia que tinha levado o maior e mais potente “uppercut” da história do boxe. Depois, durante a segunda parte, o jogo estava a decorrer, mas só pensava – “como tinha sido capaz de ter tido aquele comportamento”. A seguir, que aquele meu comportamento não refletia quem eu desejava ser, não queria voltar a repetir aquela experiência e que necessitava de perceber o que tinha acontecido” – respondeu o Treinador Brad Wooden, que ainda se sentia como que no tapete, com o juiz a contar 5, 6,.., mas como que os dedos a começarem a mexer-se, como que se houvesse uma ténue esperança de não sair de maca, daquele “ringue””- respondeu o Treinador Wooden.

“Como foi possível eu ter tido aquele comportamento?” – perguntou o Treinador Wooden e prosseguiu – “se o jogador afinal até estava lesionado”.

“Treinador Wooden, deixe-me contar-lhe uma história” – começou o Detetive Colombo e, perante o olhar atento do treinador Wooden, continuou – “há uns anos, o meu sobrinho foi estudar para outro país e fui visitá-lo, por altura do Natal. Quando lhe perguntei o que necessitava, ele respondeu-me que necessitava de um computador para estudar. Para juntar o útil ao agradável, dada a época natalícia, pensei em oferecer-lhe o tal computador. Depois de falar com algumas pessoas locais, que me indicaram o melhor sítio para comprar um computador, dirigi-me à loja e apresentaram-me um portátil, que tinha funcionalidades que nunca tinha visto. Leitura da impressão digital, ecrã tátil e uma capacidade extraordinária. Para além disso, o preço estava muito em conta. O vendedor disse-me que aquele portátil era topo de gama e que o meu sobrinho teria computador para muitos anos.”

 

O Treinador Wooden ouvia o Detetive Colombo atentamente, mas não estava a perceber e pensava – “o que é que esta situação tem a ver com o que me aconteceu” - mas dei o benefício da dúvida ao Detetive e continuou a ouvi-lo.

 

“Treinador Wooden, aquele portátil era topo de gama, quando o comprei, funcionava perfeitamente, era rápido, parecia perfeito. Contudo, passados uns anos, já o meu sobrinho tinha regressado a casa, e aquele portátil passou a estar lento, depois a ter dificuldade em arrancar, a seguir a bloquear sistematicamente e, por fim, nem o conseguia ligar. O que é que terá acontecido ao computador topo de gama e que funcionava bem, para passados uns anos, começar a trabalhar mal e até deixar de trabalhar?” – perguntou o Detetive Colombo.

“Provavelmente apanhou um ou mais vírus” – respondeu o Treinador Wooden e colocou uma pergunta – “o seu sobrinho foi atualizando e correndo o antivírus, para detetar e remover vírus, a firewall estava ativa, para impedir a entrada de novos vírus, e o software foi sendo atualizado?”.

 

“Provavelmente não. Quais foram as consequências de não atualizar o antivírus, a firewall e o software, naquele portátil topo de gama?” – perguntou o Detetive Colombo. “Primeiro, começou a ficar lento, depois bloqueava e por fim deixou de funcionar” – começou por dizer o Treinador Wooden, que começou a compreender a ligação da história do Detetive Colombo com o que lhe tinha acontecido e disse – “já percebi”.

 

O Detetive Colombo olhou-o como que dizendo – “força, continue” – e o Treinador Wooden disse – “O Detetive Colombo está a dizer-me que a nossa mente também pode ser comparada a um computador, em alguns aspetos. Isto é, que do mesmo modo que os computadores funcionam bem com o software, a firewall e o antivírus atualizados, também podem funcionar mal, se isso não acontecer, por se poderem instalar vírus, por exemplo, que comprometam o seu funcionamento. O mesmo pode acontecer com a nossa mente, se não atualizarmos o software da forma de pensar, se não protegermos a nossa mente com “antivírus” e “firewalles”, a nossa mente poderá deixar de funcionar tão bem quanto desejaríamos e o nosso comportamento poderá não ser o que desejávamos e a, como eu, sentirmo-nos vergonha do que fizemos.”

 

Neste momento, o Treinador Wooden sentia-se a tirar o tronco do chão do tapete do ringue, o juiz estava a contar – “7” - ele a agarrar-se às cordas e a começar a levantar-se – “o juiz dizia 8” – e ele a tirar os joelhos do chão, e enquanto o juiz dizia – “9” – estava nova e finalmente de pé. O Treinador Wooden sentia-se renovado, mas não perdoado, nem confortável. Sentia que toda aquela situação angustiante e arrebatadora, que o tinha deixado no chão, também podia ser uma enorme oportunidade, a de aprender e, com isso, evitar aqueles comportamentos, no futuro.

 

Agora, sabia que tinha de falar com o jogador e com a equipa para “limpar a cara” e estava curioso por saber quais poderiam ser os vírus que se podiam instalar na mente de qualquer pessoa (treinador, jogador, professor, gestor, colaborador, pai, filho) e que podem comprometer o comportamento das pessoas, inclusive o seu comportamento, impedindo-o de ser o que desejava ser.

 

Repentinamente, o Treinador Wooden começou a pensar numa série de situações – “quais são os Vírus da Mente? Como se formam? Como nos podemos proteger, que antivírus e firewalles nos podem proteger desses vírus?” – e voltando à sua situação, perguntou – “Detetive Colombo que vírus da mente me poderá ter levado a ter aquele comportamento, durante do jogo, e que me mandou ao “tapete”?”

 

Sentindo uma mudança abismal no Treinador Wooden, de alguém que estava no tapete, para uma pessoa de pé e curiosa, o Detetive Colombo disse – “podemos deixar essa questão para depois do pequeno-almoço?”.

 

O Treinador Wooden, que nem se tinha apercebido das horas, nem tinha oferecido um café ao Detetive Colombo, respondeu – “claro que sim” – e curioso com a viagem que sentia que podia estar a começar com o Detetive Colombo, pensou – “que liberdade poderemos ter, se a nossa mente for sequestrada por vírus”.


João Oliveira
Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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