Kylian Mbappé: a cronologia de uma novela com final previsível
Mbappé avisou o PSG que não vai deixar o clube na próxima época (IMAGO)

Kylian Mbappé: a cronologia de uma novela com final previsível

INTERNACIONAL17.02.202407:00

Os momentos que, ao longo dos anos, colocaram jogador e clube frente a frente, sempre com uma sombra por trás...

Kylian Mbappé é uma estrela. Disso não há dúvida. É capitão de um dos grandes clubes europeus, campeão mundial em 2018 e vice-campeão em 2022. Leva 316 golos e 129 assistências enquanto profissional. E tem apenas 25 anos.

Aos 19 anos, Mbappé já brilhava no Mundial 2018, com dois golos frente à Argentina (IMAGO)

Se não há dúvida do estatuto rockstar de Mbappé dentro das quatro linhas, certamente também não haverá... fora de campo. Apesar de dar espetáculo no palco, nos bastidores, a história de exigências, discussões e conflitos deu para vários artigos pela imprensa fora. Agora, finalmente parece estar a aproximar-se o final do dilema. 

Após sete temporadas de Paris ao peito, o PSG confirmou que o avançado não vai renovar e, por isso, vai deixar a capital francesa como jogador livre. O interesse de Arsenal e Liverpool tem sido discutido, mas não há dúvida: o herói desta libertação - ou, dependendo do ponto de vista, o vilão que aliciou o jogador a passar para o outro lado - é o colosso Real Madrid. Já não é de agora que Mbappé ameaça bater com a porta de Nasser Al-Khelaifi e já não é de agora que os merengues mostram-se atraídos pelo jogador. Vejamos, então os episódios, personagens e enredos desta série, cujo último episódio chegará no final desta temporada.

2017-2019: Mbappé e Neymar - Objetivo Champions

A contratação de Mbappé coincidiu com a chegada de Neymar ao Parque dos Príncipes. Os atacantes, ex-Mónaco e Barcelona, respetivamente, tornaram-se nos dois jogadores mais caros da história do futebol, recorde que se mantém até hoje. O investimento era enorme e o desejo era simples de enunciar, mas difícil de alcançar: conquistar a Liga dos Campeões. 

Mbappé e Neymar, no primeiro treino em conjunto pelo PSG (IMAGO)

Na primeira época desta era de classe mundial, foi preciso um conjunto galáctico - liderado por um jogador de nível universal - para tombar o PSG. Ditou o sorteio que, nos oitavos de final da prova, os parisienses encontrassem o Real Madrid. Cristiano Ronaldo marcou três dos cinco golos dos merengues para avançar na prova, numa campanha que só terminou com o tricampeonato europeu para a equipa de Zinédine Zidane. Na época seguinte, Neymar, tal como havia acontecido em 2017/18, estava lesionado. O adversário foi o Manchester United que, com um penálti de Rashford na última jogada da eliminatória, derrubou a equipa francesa.

O descontentamento era crescente e, para fora do balneário, saíam histórias de choques de egos entre as várias estrelas, apesar de Mbappé reiterar que Neymar era injustiçado e do brasileiro afirmar que o francês podia ser «um dos melhores da história».

2020: «Mbappé vai querer jogar no Real Madrid»

Chegado o ano de 2020 e a pandemia de COVID-19, o PSG teve a melhor Liga dos Campeões da sua história, ao chegar à final. Não foi, porém, um percurso feito sem percalços internos, sobretudo com Mbappé. Em abril desse ano, durante as interrupções provocadas pelo confinamento geral, o agente do jogador referiu que «Mbappé vai querer jogar pelo Real Madrid». A aproximação entre os espanhóis e o francês ia-se intensificando e o contrato do avançado viria a acabar em 2022. A COVID-19 tinha abalado as contas do Real Madrid que, assim, não poderia desembolsar os 300 milhões pedidos pelo passe do astro, mas a ideia de esperar pelo verão de 2021 para negociar «a preço de saldo» era, cada vez mais, uma realidade na capital espanhola.

2021: a chegada de Messi não parecia suficiente...

Mais uma época de desilusão na Europa, a quarta de Mbappé em Paris, e a sua renovação continuava parada. Os dirigentes do PSG sabiam que era um ano decisivo para rentabilizar os 180 milhões de euros investidos em 2017. Rumores indicavam que o jogador já tinha comunicado a Mauricio Pochettino, na altura treinador do PSG, que não iria renovar, mas um último trunfo terá feito o jogador mudar de ideias.

Depois de se tornar o melhor jogador da história do seu clube de coração (e, quiçá, da história do futebol), Lionel Messi deixou o Barcelona. O destino? O do seu amigo e antigo companheiro Neymar: o Paris Saint-Germain. Era mais um sinal de ambição do PSG que, semanas antes, tinha recusado 180 milhões de euros por Mbappé, que estava em final de contrato. 

Neymar, Mbappé e Messi, ao serviço do Paris Saint-Germain (IMAGO)

Ainda assim, Leonardo não desmentiu o interesse de Mbappé nos merengues. «Ele quer juntar-se ao Real Madrid, mas as condições não foram alcançadas. Se o Real Madrid chegar às nossas condições, deixá-lo-emos sair», disse o então diretor desportivo do clube. O próprio jogador não facilitava, ao afirmar, já no final do ano, em entrevista a Thierry Henry, que se tinha sentido «desapontado» por não ter saído no verão. Os fantasmas da saída a custo zero materializavam-se cada vez mais...

2022: a tão (in)esperada Renovação

Durante um mercado de transferências que contou com as movimentações de jogadores como Ferrán Torres, Vlahovic, Bruno Guimarães ou Luis Díaz, o tema mais falado foi a não-transferência de Mbappé. A partir de 1 de janeiro de 2022, o avançado estava livre para negociar com qualquer clube para a próxima época. A proximidade do Real Madrid era palpável e até os dirigentes do PSG revelavam desagrado pela forma como os madrilenos estavam a conduzir as negociações. Tudo parecia encaminhado para, em julho, Mbappé perfilar de branco. E eis que chegamos ao dia 21 de maio...

Talvez motivado pela humilhante eliminação nos quartos de final da Liga dos Campeões às mãos do clube para o qual se viria, provavelmente, a mudar, Mbappé decidiu voltar atrás e, pouco mais de um mês antes de se tornar jogador livre, renovou com o PSG. Foi, à data, o contrato mais valioso da história do futebol, avaliado em 72 milhões de euros anuais, já sem contar com bónus de assinatura. Um contrato válido até junho de 2024, com mais um ano de renovação opcional, anunciado em pleno Parque dos Príncipes, com toda a pompa e circunstância que uma estrela deste calibre merece.

Nasser Al-Khelaifi anunciou que «Mbappé fica até 2025», algo que, como vemos agora, não se confirmará. E se o presidente do PSG terá ficado satisfeito, Florentino Pérez ficou bastante desagradado. A negociação, que durava há já largos meses, estaria bem encaminhada e, de repente, caía por terra. Há um pormenor a manter em conta: foi o próprio Mbappé que avisou Pérez da sua decisão. Um pormenor que será relembrado mais à frente.

2023: O verão das indecisões e a abordagem portuguesa

A segunda época da parceria Mbappé-Neymar-Messi revelou-se, mais uma vez, aquém das expectativas. O campeonato francês foi novamente conquistado, mas isso já não chegava. Era preciso ganhar a Liga dos Campeões e isso voltou a não ser possível. Desta vez, de novo nos oitavos de final, foi o Bayern que, três anos derrotar os parisienses na final no Estádio da Luz, foi carrasco na prova milionária. As frustrações eram evidentes, os treinadores eram passageiros e a equipa mostrava desequilíbrio. Tudo corria mal para os lados de Paris e, em junho, Leo Messi anunciava a sua saída, sublinhando o fracasso do projeto parisiense. Mbappé entrava, assim, novamente, no último ano de contrato.

Com este golo ao Benfica, fruto da combinação de Mbappé e Neymar, Messi venceu o prémio de Golo do Torneio da Liga dos Campeões 2022/23.

Começando a nova época, começou, tal como em 2021, a pressão do clube para que o francês renovasse. A abordagem era, porém, diferente: o PSG recusava-se a apresentar novo vínculo, teria de ser o jogador a ativar a cláusula de extensão do seu contrato. Já com 24 anos, Mbappé aparentava estar cada vez mais insatisfeito, com a equipa em geral e, em específico, com o colega Neymar, que se lesionou em várias ocasiões e estava cada vez mais perto da porta de saída. A sua frustração embatia com o projeto do PSG e, após recusar a renovação, Mbappé foi posto de parte dos planos coletivos e, inclusivamente, da digressão de pré-época dos parisienses no Japão.

Chegávamos a meio de julho e Mbappé, longe dos trabalhos da equipa, procurava soluções. Eis que surge uma proposta com um nome bem português. Jorge Jesus, treinador do Al Hilal, fez saber que queria contar com o astro francês. O plano era simples: contratar o jogador por um ano, o mesmo tempo que restava no contrato e, com isso, trazer sucesso ao Al Hilal e ao futebol saudita. A proposta era - e foi - irrecusável: 300 milhões de euros, um valor que pulverizaria qualquer outra quantia gasta num jogador, por um atleta que estaria em final de contrato, foi ouro sobre azul para Nasser Al-Khelaifi. Só que... Mbappé não quis.

O francês preferiu a hipótese de esperar até à próxima temporada e arriscar parar um ano, decisão que deu esperança aos quadros do PSG. Essa esperança cresceu semanas depois quando o Al Hilal voltou, desta vez, para levar Neymar. O brasileiro saiu do clube, deu espaço à contratação de Dembélé e Mbappé voltou a ser reintegrado, com especulações várias sobre o seu afastamento ser, na verdade, uma maneira de pressionar os parisienses a afastar o seu colega. Chegava ao fim um ciclo de seis anos dos dois astros em Paris. Mbappé era, pela primeira vez, o líder incontestado da equipa. Mas a renovação tardava em chegar.

A apresentação de Neymar no Al Hilal (IMAGO)

Em novembro, o Real Madrid publicou um comunicado, afirmando que, até à data, não tinha havido qualquer negociação direta com o jogador. Nasser Al-Khelaifi desvalorizou, afirmando que o PSG «não está preocupado com os outros».

2024: o Desfecho da Novela

Mesmo após a mudança de estratégia do PSG, que voltou a insistir num novo contrato, Mbappé continuou sem qualquer decisão. Chegamos então a janeiro deste ano e, a partir daqui, o jogador pode negociar e assinar com qualquer clube para a próxima temporada. Apesar do muito esperado anúncio e de rumores que afirmavam que o Real Madrid dava apenas duas semanas para o jogador decidir se faria ou não parte dos plantel merengue na próxima época, certo é que, tal como dois anos antes, não surgiu nenhum anúncio. 

Esta semana, porém, apareceu o primeiro grande desfecho desta história. Ainda não se sabe qual é o próximo clube de Mbappé, mas fica uma certeza: não será, certamente, o PSG. O francês comunicou ao clube que sairá em transferência livre na próxima época. Uma baixa de peso que Luis Enrique tentou desvalorizar, mas cujo anúncio causará, inevitavelmente, desacordos no balneário parisiense.

O futuro ninguém sabe, mas pode-se ir adivinhando...

Como sempre acontece, os grandes clubes estão ligados aos grandes jogadores. Liverpool, Arsenal e Manchester United, por exemplo, já foram designados como possíveis destinos do francês. Mas a aposta principal é, e será sempre, o Real Madrid. O menino que tinha pósteres de Ronaldo no quarto e que agora é o jogador mais cobiçado do Mundo deverá ser a próxima jóia da coroa galáctica e, para isso, muito contribuiu a chamada para Florentino Pérez há dois anos que, apesar de não ter ficado com o jogador, terá apreciado a sua postura frontal e, também por isso, não desiste da sua contratação.

Após sete anos, vários títulos, golos e assistências, vitórias e derrotas, Kylian Mbappé, que explodiu com Leonardo Jardim e se estabeleceu como a estrela maior do seu clube e do seu país em muitas conquistas, explorará um novo desafio. «Estou aberto ao desconhecido», disse, em entrevista. E, ao que parece, assim será a partir da próxima época. Termina assim esta novela, que mais se assemelha a uma saga. E como acontece em vários filmes, o final até pode ser previsível, mas não deixa de ser espetacular.

Sete épocas depois da sua chegada a Paris, Mbappé está de saída do PSG (IMAGO)