Schmidt mais português
Roger Schmidt junto ao banco de suplentes do Benfica. Foto: IMAGO/Maciej Rogowski

Schmidt mais português

OPINIÃO09.01.202411:45

'Vamos conversar': «Como treinador não salta quando vence nem chora quando perde, é a frieza germânica, mas como pessoa os adeptos já aprenderam a gostar dele»

O Arouca-Benfica foi um jogo que se viu com interesse, disputado em todo o campo e com dois dados curiosos: mais posse de bola da equipa muito bem trabalhada por Daniel Sousa, sem necessidade de recurso à praga de três centrais, e equilíbrio no número de remates, onze para cada lado. Dirão os conservadores que foi um risco desnecessário tamanho atrevimento por parte da equipa arouquense, dirão outros, ente os quais me incluo, que foi uma decisão ousada, mas competente. Definitivamente, ou queremos aproximar-nos dos campeonatos mais entusiasmantes, ou nos resignamos ao marasmo de sempre. 

Não foi por acaso que o Arouca, perdido no último lugar da classificação, despertou e, agitado por novas ideias, ganhou ao Boavista (4-0), ao Gil Vicente (3-0) e ao Estrela da Amadora (4-1). Então o que fez de errado, frente ao Benfica? Nada, a não ser alguns lapsos na capítulo da finalização. Que talvez não lhe garantissem o sucesso se não tivessem acontecido, mas que, seguramente, muito teriam dificultado a ação dos encarnados, os quais, mesmo assim, concordando com a opinião do treinador arouquense, apenas puderam respirar com algum alívio depois do segundo golo. 

Roger Schmidt, um treinador que nunca atirou a toalha ao chão apesar das críticas e do «clima demasiado negativista criado à sua volta», como escreveu o jornalista Luís Mateus no espaço de Opinião, em A BOLA, clima esse que só acontece num país com uma cultura desportiva do terceiro mundo, olhou para este jogo e para este triunfo com essa cultura que nos falta. Elogiou o adversário, considerou merecidos os três pontos e expressou a sua felicidade por ganhar este tipo de jogos, talvez aqueles que, por nos parecerem fáceis, se tornam difíceis de ultrapassar e, neste campeonato, o Benfica já perdeu nove pontos, cinco fora (Boavista e Moreirense) e quatro em casa (Casa Pia e Farense). O treinador alemão tem uma visão mais racional do futebol e em prova de longa duração, como é a Liga, não se deixa Impressionar pelas consequências de um resultado. Ele olha mais para o fenómeno numa perspetiva global, atribuindo pouca importância aos nossos dramas semanais, como se cada jogo fosse o prenúncio de todos os dramas. 

É claro que sorriu em Arouca, porque foi difícil vencer e por saber que a segunda volta da prova vai ser mais complicada. Daí a sua frieza germânica na análise das situações, nem salta quando vence, nem chora quando perde. Mantém um discurso sóbrio, realista e sabe que o mais difícil ainda não chegou, mas, claramente, como pessoa, os adeptos percebem que está mais português… Leão tem razão: áudios cá fora Vai ser uma segunda volta intensa e agitada. Sérgio Conceição sabe que lhe cabe receber Sporting e Benfica, sabe que a frente da corrida pode sofrer alterações pontuais significativas como já aconteceu no passado recente e sabe também que não foi por acaso que em outubro último o seu presidente, andava o FC Porto pelo 3.º lugar, tal como agora, foi recebido pelo Conselho de Arbitragem, na opinião Pinto da Costa composto por pessoas de «uma seriedade intocável». Muito estranha esta inusitada declaração de amor à hierarquia da arbitragem, tal como foi surpreendente o silêncio de Fontelas Gomes: coisas do antigamente em versão atualizada. 

O escrutínio é mais rigoroso, todos sabemos, e por isso, não estando os árbitros, nomeadamente os mais cotados, dispostos a alinharem em esquemas pouco saudáveis, sentem-se os promotores de truques velhos obrigados a engendrarem planos alternativos, o que, do meu ponto de vista, sugere a chamada ao palco do VAR, não por causa da colocação de linhas, mas devido a distrações subtis, perigosamente mais frequentes e que depressa se esfumam no esquecimento. No Famalicão-Chaves (2-2), realizado anteontem, o primeiro golo flaviense foi consequência de uma intervenção do VAR (André Narciso/Vaz Marques), avisando o árbitro Artur Soares Dias para um pisão de Nathan a Rúben Ribeiro na área famalicense. O árbitro foi alertado para ver as imagens e, confirmada a falta, marcou pontapé de penálti. Tudo normal, embora, no mesmo estádio, à 12.ª jornada, no Famalicão-FC Porto, um lance igualmente de possível penálti contra o dragão, por corte irregular de Eustáquio, teve procedimento diametralmente oposto porque o árbitro, no caso António Nobre, mandou seguir o jogo e mais tarde, em lance para eventual vermelho a Evanilson, por entrada perigosa sobre Gustavo Sá, também nesse lance foi… deixar jogar, por responsabilidade do árbitro ou por omissão do VAR, isso não sabemos e são dúvidas como estas, patrocinadas por quem manda, que continuam a minar a credibilidade da Liga portuguesa, tendo razão o Sporting em pugnar pela divulgação dos áudios entre o VAR e as equipas de arbitragem. Direi mais, quem verdadeiramente defende a verdade deve colocar-se ao lado do leão nesta cruzada.