W52-FC Porto: Quintanilha e inspetor da PJ em silêncio no início do julgamento
Adriano Quintanilha e um inspetor da Polícia Judiciária (PJ), ambos acusados de terem elaborado um plano para ilibar o empresário e a Associação Calvário Várzea de responsabilidades no esquema de dopagem da extinta W52-FC Porto, optaram por não prestar declarações na sessão inaugural do julgamento, que decorre no Tribunal Local de Felgueiras, no distrito do Porto.
Perante o coletivo de juízes, o empresário de 73 anos e o elemento da PJ, de 57 anos - este último ouvido através de videoconferência a partir de Timor-Leste, onde se encontra a exercer funções profissionais após ter requerido licença sem vencimento -, comunicaram que, nesta fase inicial, pretendem remeter-se ao silêncio.
Em causa estão acusações de falsificação de documento que recaem sobre Adriano Sousa (conhecido como Adriano Quintanilha), a Associação Calvário Várzea e o inspetor da PJ. O antigo líder da estrutura do ciclismo responde ainda pelo crime de coação, ao passo que o agente policial está igualmente pronunciado por favorecimento pessoal.
De acordo com a acusação deduzida pelo Ministério Público (MP), na sequência das buscas desencadeadas em abril de 2022 no âmbito da Operação Prova Limpa, Quintanilha terá receado as repercussões penais e disciplinares inerentes às suspeitas. Nesse sentido, terá recorrido a um amigo de longa data, colocado na Diretoria do Norte da PJ e com forte ligação emocional à equipa e à modalidade, para desenharem uma estratégia que o protegesse a si e à associação que presidia.
A tese da investigação sustenta que a dupla planeou a criação de um código de conduta forjado, visando demonstrar formalmente que a direção desconhecia quaisquer práticas dopantes no seio do projeto desportivo. O documento terá sido posteriormente entregue ao então diretor desportivo, Nuno Ribeiro, bem como aos ciclistas da equipa, com o propósito de recolher assinaturas e afastar eventuais responsabilidades da estrutura diretiva relativamente aos comportamentos ilícitos investigados.
Durante a sessão matinal, o tribunal ouviu a advogada que representava a Calvário Várzea à época dos acontecimentos. A testemunha confirmou ter elaborado o documento a pedido de Adriano Quintanilha, mas garantiu que nunca recebeu diretrizes ou orientações específicas para a sua redação, tendo recorrido a minutas padrão e aos regulamentos da Federação Portuguesa de Ciclismo, do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e da União Ciclista Internacional (UCI).
A jurista explicou ainda que o objetivo passava apenas por definir «um documento para servir de orientação» e não por «proteger» terceiros. Questionada pelo MP, admitiu não conseguir precisar se a elaboração ocorreu antes ou depois de a investigação ter sido tornada pública em abril de 2022, embora mantenha a perceção de que o assunto do doping surgiu em momento posterior.
Nas alegações iniciais, a defesa dos arguidos reiterou a inexistência de qualquer crime ou conduta ilícita, apontando fragilidades ao processo de investigação. Os trabalhos do tribunal prosseguem no período da tarde, pelas 14h30, com a audição de Nuno Ribeiro.