«Um final feio para uma história bonita»: Messi causa revolta no Benim
Apesar do ambiente emotivo na despedida de Lionel Messi da seleção argentina, no particular com o Benim, em Buenos Aires, nem tudo foi motivo de festa no adeus do camisola 10 à seleção sul-americana.
Num longo texto intitulado «Um final feio para uma história bonita», um elemento da equipa técnica da seleção do Benim criticou o comportamento da equipa adversária e da segurança, lamentando o tratamento dado a vários jogadores jovens do conjunto africano, que pretendiam saudar o capitão argentino e tirar fotografias, mas viram as intenções travadas de forma hostil.
«De facto, tudo girou em torno de Lionel Messi, e ele mereceu-o! Mas foi aí que esta bela história terminou», lia-se no texto, lembrando que os seus jogadores «entraram em campo para homenagear Messi», tendo a equipa viajado «em condições extremamente difíceis para dar a este jogador uma despedida digna».
«O que me impressionou foi a recusa muito óbvia e flagrante da seleção argentina em querer ter qualquer contacto com a minha equipa após o jogo. Os apertos de mão no final do jogo foram apressados e impessoais. E qualquer tentativa dos nossos jogadores de se aproximarem do homem que vieram celebrar foi rejeitada de forma bastante hostil pelos agentes de segurança no local. É evidente que, coletivamente, não queriam estar no mesmo local que a minha equipa do Benim. Foi bastante perturbador», observou.
«Alguns dos nossos jogadores, que são bastante jovens e cresceram a idolatrar Lionel Messi, queriam vê-lo de perto, tirar fotos e apertar-lhe a mão. Isso não aconteceu. Quando formaram uma guarda de honra para ele, alguém sugeriu que a nossa equipa se alinhasse e o aplaudisse enquanto ele passava. A rapidez com que os agentes de segurança dispersaram o pequeno grupo de jogadores que se tinha formado… parecia que os meus rapazes eram gangsters num motim!», prosseguiu, antes de falar do «golpe final».
«Lionel Messi estava a dar uma volta olímpica (...) alguns dos meus jogadores alinharam-se ao longo do que seria o seu percurso natural para terminar a volta de honra (...) o Leo fez um desvio repentino, evitando conscientemente o grupo de jogadores do Benim que se tinha formado (...) Foi um novo ponto baixo para um homem idolatrado por muitos e que, na mente de muitos jovens africanos, não podia fazer nada de errado. Isso levantou a questão: se tivesse sido Inglaterra ou Espanha a disputar aquele jogo de despedida contra a Argentina para se despedir de Messi, teriam sido tratadas da mesma forma que o Benim foi tratado?»
«Se o Benim lhes causava tanta repulsa, por que razão concordaram em partilhar o campo com eles durante 90 minutos? Nem uma única palavra de reconhecimento à equipa adversária que tornou o jogo possível», sublinhou, concluindo: «A história de Messi é linda. E nada lhe tirará o que fez pelo futebol. Mas os acontecimentos após o jogo, a forma como os seguranças empurravam e esbarravam nos colegas de equipa que apenas queriam demonstrar algum respeito e apreço por uma lenda do futebol, deixaram um sabor bastante amargo na boca de muitos que partiram de Buenos Aires no dia seguinte (...) O respeito deve ser mútuo. E no futebol, demonstramos respeito.»
Texto na íntegra:
«Tenho a certeza de que, ao escrever isto, não falo apenas por mim. Quando, apenas alguns dias antes de iniciarmos a concentração para disputar os dois primeiros jogos da fase de grupos da qualificação para a Taça das Nações Africanas 2027, recebemos a notícia de que iríamos viajar para Buenos Aires para disputar um jogo amigável contra a Argentina, numa última homenagem ao grande Lionel Messi, ficámos inundados por um êxtase silencioso e controlado.
Silencioso e controlado porque, enquanto membros da comissão técnica, tínhamos de dar o exemplo, não demonstrando emoção de forma a desviar a atenção dos dois jogos importantes que precisávamos de superar – um jogo fora de casa complicado contra o favorito do grupo, o Burquina Faso, seguido de um encontro «em casa» com a Mauritânia, em Abidjan.
Tínhamos uma regra tácita de não falar sobre a Argentina até depois desses dois jogos — nem sequer perguntar às autoridades como iríamos chegar lá, ou como sairíamos do local para regressar às nossas respetivas bases depois.
Parabéns a todos na equipa, resultou. Mantivemo-nos concentrados e saímos com um ponto respeitável de Burquina Faso e vencemos o nosso jogo em casa contra a Mauritânia por 2-1. Quatro pontos em seis possíveis, colocando-nos no topo do nosso grupo após os dois primeiros jogos, foi um resultado respeitável.
Foi só depois disso que mudámos o nosso foco para a viagem à Argentina. Como iríamos viajar… treze longas horas de Paris a Buenos Aires, sem esquecer as primeiras seis horas de Abidjan a Paris e a escala. Um dia inteiro de viagem, divididos em três grupos, para disputar este jogo.
Mas, para muitos como eu, valeu bem a pena todo o sacrifício. Este foi um jogo monumental em todos os aspetos. É o primeiro jogo que o Benim vai disputar contra uma equipa não africana nos três anos e meio em que tenho trabalhado lá. O jogo de maior destaque que o Benim alguma vez disputará a nível internacional. E o facto de nós, o Benim, estarmos a disputar um jogo histórico que encerra a carreira internacional daquele que, para mim, foi o melhor jogador que o mundo já viu. E eu estarei no banco de suplentes, a partilhar o mesmo relvado com este enigma que nos entreteve com habilidade, precisão, potência e brilhantismo desde a primeira vez que o vi ao vivo na Holanda, há 21 anos, durante o Campeonato Mundial Juvenil da FIFA (o Mundial Sub-20).
Houve muita expectativa em torno do jogo. E, caso houvesse alguma dúvida, a estima que os argentinos têm por Messi é simplesmente… fora do comum. E com toda a razão. Foi uma história linda do início ao fim e o momento culminante de uma carreira muito ilustre.
O facto de ele ter jogado os 90 minutos completos do jogo foi a prova de que, como dizemos na minha terra, ainda há vida no velho cão. Foi um prazer assistir, tenho a certeza, para quem estava neutro. Da nossa parte, ficámos do lado dos perdedores – uma goleada por 0-3 que não refletiu exatamente o que se passou. Jogámos bem e competimos bem, especialmente na primeira parte do jogo.
A qualidade deles ficou evidente na segunda parte, com o próprio protagonista a dar assistência para dois dos golos e a marcar um penálti. De facto, tudo girou em torno de Lionel Messi, e ele mereceu-o!
Mas foi aí que esta bela história terminou. E embora seja sempre bom elogiar tudo o que fazemos de bom, também não devemos hesitar em apontar as áreas onde podem existir problemas, sejam eles subjacentes ou evidentes.
Enquanto equipa, os Guepards do Benim entraram em campo para homenagear Messi. A equipa viajou em condições extremamente difíceis para dar a este jogador uma despedida digna. Também disputámos um jogo competitivo contra os finalistas do Mundial e considero que demonstrámos que, desde que assumimos o comando da seleção nacional de futebol do Benim em 2023, fizemos grandes progressos e estamos definitivamente em ascensão.
O que me impressionou foi a recusa muito óbvia e flagrante da seleção argentina em querer ter qualquer contacto com a minha equipa após o jogo. Os apertos de mão no final do jogo foram apressados e impessoais. E qualquer tentativa dos nossos jogadores de se aproximarem do homem que vieram celebrar foi rejeitada de forma bastante hostil pelos agentes de segurança no local. É evidente que, coletivamente, não queriam estar no mesmo local que a minha equipa do Benim. Foi bastante perturbador.
Alguns dos nossos jogadores, que são bastante jovens e cresceram a idolatrar Lionel Messi, queriam vê-lo de perto, tirar fotos e apertar-lhe a mão. Isso não aconteceu.
Quando formaram uma guarda de honra para ele, alguém sugeriu que a nossa equipa se alinhasse e o aplaudisse enquanto ele passava. A rapidez com que os agentes de segurança dispersaram o pequeno grupo de jogadores que se tinha formado… parecia que os meus rapazes eram gangsters num motim!
Enquanto estávamos ocupados a debater se isto seria um caso de seguranças a exagerarem nas instruções de controlo de multidões, veio o golpe final.
Lionel Messi estava a dar uma volta de honra pelo campo enquanto a multidão o aplaudia. Caminhou com os seus colegas de equipa ao longo de todo o perímetro do campo, lentamente e a saborear os aplausos. Mais uma vez, no final da volta, alguns dos meus jogadores alinharam-se ao longo do que seria o seu percurso natural para terminar a volta de honra. Ele ia à frente. Os meus rapazes estavam lá. Apenas queriam que ele caminhasse na direção deles para que pudessem aplaudi-lo e homenageá-lo. Mesmo no último momento, o Leo fez um desvio repentino e, evitando conscientemente o grupo de jogadores do Benim que se tinha formado, caminhou em direção ao centro do campo.
Aquilo foi um novo ponto baixo para um homem idolatrado por muitos e que, na mente de muitos jovens africanos, não podia fazer nada de errado.
Isso levantou a questão: se tivesse sido a Inglaterra ou a Espanha a vir disputar aquele jogo de despedida contra a Argentina para se despedir de Messi, teriam sido tratadas da mesma forma que o Benim foi tratado?
Se o Benim lhes era tão desagradável, por que razão concordaram em partilhar o campo com eles durante 90 minutos?
Nem uma única palavra de reconhecimento à equipa adversária que tornou o jogo possível.
Foi como convidar pessoas para uma festa de casamento e os noivos sentarem-se à mesa entre os seus amigos, terminarem a festa e passarem por outros convidados que, com a sua presença, tornaram o evento tão concorrido, sem sequer dizerem um «olá e obrigado por terem vindo»!
A história de Messi é linda. E nada lhe tirará o que fez pelo futebol. Mas os acontecimentos após o jogo, a forma como os seguranças empurravam e esbarravam nos colegas de equipa que apenas queriam demonstrar algum respeito e apreço por uma lenda do futebol, deixaram um sabor bastante amargo na boca de muitos que partiram de Buenos Aires no dia seguinte.
As palavras de um dos jornalistas locais que acompanhou a nossa viagem desde o primeiro dia ficaram-me na memória: «Não me orgulho do que vi esta noite. Sinto-me triste por isto ter acontecido e sou argentino». As pessoas viram. E isso disse muito claramente onde nos encontramos na luta pela construção da igualdade e da diversidade no nosso desporto.
Agora, temos de voltar à estaca zero, pois precisamos de nos concentrar em continuar a nossa busca pela qualificação para duas edições consecutivas da AFCON pela primeira vez na história do Benim. Temos jogos em novembro contra a República Centro-Africana, em casa e fora.
Vamos recordar o que de bom vivemos em Buenos Aires: a experiência, a hospitalidade das pessoas e o ambiente fantástico que resultou de fazermos parte deste evento histórico. E esperamos que, de alguma forma, o futebol consiga aprender com os problemas que vivemos na terça-feira, 6 de outubro.
O respeito deve ser mútuo. E no futebol, demonstramos respeito.