Tranquilo no balneário, devastador na relva: a asa que faltava ao 4x3x3 de Rui Borges
Nestory Irankunda foi um dos maiores investimentos da época — €15 milhões fixos, aos quais acrescem três milhões por objetivos, com contrato até 2031 e blindado por uma cláusula de rescisão de 80 milhões. A fasquia estava, por isso, elevada e o período inicial de rodagem exigia paciência. A resposta, essa, começou agora a emergir em campo: nos últimos dois compromissos de exigência máxima, diante de SC Braga e Lens, Irankunda desfez dúvidas, rubricando assistências determinantes para a eficácia de Luis Suárez.
O segredo deste recente impacto deveu-se, sobretudo, a uma nova matriz tática que Rui Borges se encontra a moldar em Alvalade. No renovado sistema em 4x3x3, onde a equipa prescinde de um médio de corredor central tradicional para apostar em dinâmicas de maior vertigem, com extremos de capacidade de desequilíbrio e velocidade estonteante. Pois bem, é nesse novo desenho tático que o australiano de 20 anos tem feito a diferença: no 1x1, na profundidade e na capacidade de dar largura mantendo a baliza na mira.
A mudança de sistema, com esta afirmação de Irankunda, deverá também alterar a hierarquia nas alas. Esta afirmação consistente do australiano poderá reduzir o espaço de Flávio Gonçalves, embora isso não signifique o desaparecimento das oportunidades para o jovem português. A gestão das alternativas ofensivas, tal como o próprio treinador já revelou, dependerá das necessidades de cada encontro, dos adversários e da resposta de cada jogador. Mas, para já, Irankunda leva vantagem por oferecer um perfil de desequilíbrio a uma equipa que pretende acelerar o jogo pelos corredores.
INSEPARÁVEL DE SILAS E JESSE DERRY
Fora do relvado, o processo de integração, sabe A BOLA, decorre de forma positiva. Irankunda é descrito como um jovem tranquilo, bem-disposto e comunicativo, com um sentido de humor que o ajuda a criar relações no balneário. É um jogador divertido, com quem os colegas gostam de brincar, e que se adaptou bem ao ambiente do clube. Uma característica aparentemente simples, é certo, mas importante para alguém que chega tão novo a um contexto competitivo e cultural diferente.
A proximidade com Jesse Derry e Silas Andersen tem sido particularmente relevante. A língua inglesa e a proximidade de idades facilitaram a criação de uma amizade, proporcionando ao australiano referências no dia a dia. Longe do contexto familiar e dos círculos habituais, são ligações que têm acelerado essa adaptação.
Irankunda vive em Portugal sem a família, embora receba ocasionalmente a visita de amigos. Uma independência que faz parte de uma etapa exigente de crescimento pessoal e profissional. Entre treinos, competição e novas rotinas, o desafio passa por encontrar estabilidade para conseguir responder dentro de campo.
NOS HOLOFOTES DA CHAMPIONS
O percurso de Irankunda ajuda a perceber a dimensão da oportunidade que tem em mãos. Filho de pais burundeses, nasceu num campo de refugiados em Kigoma, no noroeste da Tanzânia, para onde a família fugiu durante o conflito que assolou o Burundi a partir de 1993. Aos oito anos, mudou-se para a Austrália. Foi aí que o seu talento começou a ganhar visibilidade, até chegar à seleção australiana e despertar a atenção de clubes europeus. Primeiro com um salto gigante, do Adelaide United para o Bayern Munique, e depois em curtas passagens por Grasshoppers (Suíça) e Watford (Inglaterra).
Hoje, 12 anos depois, Irankunda é já uma das figuras jovens em ascensão do futebol australiano. A estreia pelo Sporting na Liga dos Campeões representou mais um capítulo de um percurso que o levou de um campo de refugiados ao maior palco do futebol europeu. Uma história de mudança, ambição e oportunidades aproveitadas que o extremo quer potenciar de leão ao peito. Em Alvalade, o leão renovado de Rui Borges já tem asas e, nestes últimos jogos, voa à velocidade de... Irankunda.