Os mandamentos de Cristiano Ronaldo — ou o quero, posso e mando do capitão
Há coisas que, de tão absurdas, parecem inventadas. O problema é quando são escritas, validadas e publicadas.
A carta de Cristiano Ronaldo, em que conta a sua verdade sobre o episódio que marcou o início desta nova era da Seleção, tem muitas coisas discutíveis. Mas há uma que, para mim, ultrapassa todas as outras: os oito pontos que, segundo o próprio, ficaram acordados com Jorge Jesus para serem ditos pelo selecionador.
É preciso não conhecer minimamente Jorge Jesus para imaginar que ele se sujeitaria ao papel de papagaio de quem quer que fosse.
Cristiano Ronaldo é um jogador extraordinário. É, provavelmente, o maior atleta português de sempre. É uma figura de dimensão planetária e ninguém pode apagar aquilo que fez pela Seleção e pelo futebol português. Mas há uma coisa que o estatuto, os golos, os recordes, as internacionalizações e a braçadeira de capitão não conferem a ninguém: o direito de ser speech writer do selecionador. E é exatamente isso que aqueles oito pontos parecem querer fazer.
Não se trata de combinar factos. Não se trata de esclarecer uma decisão. Trata-se de entregar ao treinador um guião para que ele explique, defenda, elogie e, em alguns momentos, quase santifique Cristiano Ronaldo.
Há ali de tudo.
Desde a explicação sobre os 30 minutos que deveria jogar até à comparação com Pelé e Maradona. Desde a justificação para o episódio com os adeptos até à garantia de que Cristiano é o jogador que mais autógrafos dá, mais selfies tira e mais acarinha os adeptos.
Tudo isto deveria sair da boca de Jorge Jesus.
Imagine-se, por um segundo, que Jorge Jesus tinha ido para a conferência de imprensa e lido o ponto 8 tal como está escrito: «Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal.» E depois explicasse que Cristiano é quem mais autógrafos dá, quem mais selfies tira e quem mais acarinha os adeptos.
Seria o quê? Uma conferência do selecionador ou um comunicado do departamento de comunicação de Cristiano Ronaldo?
E mais, no dia em que Jorge Jesus cedesse a Cristiano Ronaldo — ou a qualquer outro jogador — e falasse nestes termos, teria de se demitir. Porque nesse instante perderia a autoridade. O grupo deixaria de estar unido à volta do treinador. Haveria, inevitavelmente, uma revolta no balneário. E Jorge Jesus ficaria sem condições para trabalhar depois de ter branqueado uma deserção e desvalorizado aquilo que, sendo o capitão da Seleção, foi uma má conduta.
O problema não seria apenas o episódio em si. Seria o precedente.
A partir desse momento, qualquer jogador poderia reivindicar para si o direito de definir a narrativa que o treinador deveria transmitir publicamente. E se há coisa que um balneário não tolera é um treinador que abdica da sua autoridade.
Os jogadores da Seleção, diga-se em abono da verdade, têm tido um comportamento exemplar com Cristiano Ronaldo. Não lhe beliscaram a imagem, não o confrontaram publicamente, não alimentaram polémicas. Cristiano tem conseguido preservar a sua condição de líder porque os seus companheiros, até agora, fizeram questão de não a pôr em causa.
É, por isso, sintomático que nenhum tenha sentido necessidade de fazer um único like ou uma partilha daquele comunicado. Talvez seja uma forma silenciosa de dizer alguma coisa.
Jorge Jesus, homem inteligente e experiente, sabe mais a dormir sobre balneários do que os funcionários de Cristiano Ronaldo que redigiram o comunicado — e que Cristiano validou.
E há outra pergunta que a carta deixa inevitavelmente no ar: o que faziam, na tal reunião de terça-feira, dois personagens estranhos à FPF — um fisicamente presente e outro por via digital?
Se Pedro Proença já estivesse em Copenhaga teria permitido? Estou convencido de que não. Até porque uma dessas figuras é alguém que, no passado, enquanto alto dirigente da Federação, não fez outra coisa senão minar o caminho de Pedro Proença enquanto presidente da Liga. Não é um detalhe. É um sinal.
Porque aquilo que este episódio revela não é apenas o conflito entre um jogador e um treinador. Revela, sobretudo, uma determinada cultura de poder que Cristiano Ronaldo foi construindo na Seleção — e, por arrasto, na própria Federação — ao longo de mais de vinte anos.
Durante demasiado tempo, nos corredores do futebol português, ouviu-se dizer que quem mandava na Seleção era Cristiano Ronaldo e que, por consequência, quem mandava na Federação também tinha de levar isso em consideração. A carta parece confirmar que essa cultura de poder era verdadeira e, de certa maneira, ainda não desapareceu.
E há uma ironia particularmente curiosa, é que algumas das pessoas que permitiram que ela se instalasse estão hoje a trabalhar ao lado de Cristiano Ronaldo.
Mas há ainda outra coisa que a carta nos mostra. Se dúvidas tivéssemos de que é assim, fica à vista, mais uma vez, o ego de dimensões galácticas de Cristiano Ronaldo.
A comparação com Pelé e Maradona é quase surreal. Não porque Cristiano não pertença à galeria dos maiores. Pertence. Mas porque a verdadeira grandeza também se mede pela forma como se olha para os outros. Pelé foi um génio dentro de campo e revelou, tantas vezes, uma humildade que o tornou ainda maior fora dele. Maradona foi outra coisa, mais contraditória, mais excessiva, mas ninguém pode negar a sua dimensão histórica.
Omitir Eusébio, português e símbolo maior de uma geração, é uma enorme falta de memória. Esquecer Figo, outro português que está na galeria dos maiores da história do jogo, é uma ausência difícil de compreender. E ignorar Messi, o grande rival da sua geração, quando este haveria de se despedir dias depois da seleção argentina com a classe que sempre marcou a sua relação com a camisola nacional, é, no mínimo, mesquinho.
Cristiano Ronaldo não precisava disso. Cristiano Ronaldo não merecia que Cristiano Ronaldo lhe fizesse isso. Porque Cristiano Ronaldo é maior do que isso.
Já escrevi e disse isto várias vezes e não tenho qualquer problema em repeti-lo: Cristiano Ronaldo é credor da nossa admiração e da nossa gratidão. Veio do nada, subiu a pulso, venceu pela força do talento, do trabalho e de uma ambição incomparável.
No futebol português há um a.R. e um d.R. (antes de Ronaldo e depois de Ronaldo). O seu lugar na história está garantido. Ninguém lho tira. Talvez por isso seja tão triste vê-lo incapaz de perceber que, por vezes, a maior demonstração de grandeza é saber sair.
Se tivesse aprendido alguma coisa com Pelé, com Eusébio, com Figo, com Messi — ou até com o próprio Maradona — talvez tivesse percebido que não há necessidade de erguer a própria estátua. As estátuas são os outros que as constroem.
Agora resta-lhe o castigo da Federação, a censura de muitos e, um dia, o regresso à Seleção para a despedida que ainda merece. Mas já não será o adeus que poderia ter sido. Porque os maiores também podem perder-se no labirinto do tamanho do próprio ego. E essa, talvez, seja a única coisa que os oito pontos desta carta conseguiram realmente explicar.