Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus - foto: IMAGO
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O guião de Ronaldo que Jesus não seguiu: oito pontos que explicam a polémica

Comunicado divulgado pelo capitão continha oito pontos que deveriam ter marcado a conferência do selecionador nacional antes do jogo com a Dinamarca. A BOLA recupera agora o que foi dito pelo treinador e coloca as duas versões frente a frente

Cristiano Ronaldo decidiu quebrar o silêncio sobre os acontecimentos que levaram ao abandono do estágio da Seleção Nacional e apresentou a sua versão dos factos. Num longo comunicado, o capitão português pediu desculpa aos adeptos, reconheceu que merece ser castigado pela Federação Portuguesa de Futebol e revelou detalhes das conversas que manteve com Jorge Jesus antes dos jogos com a Noruega e a Dinamarca.

Entre os elementos agora conhecidos está um documento preparado na sequência de um pedido do selecionador. Ronaldo conta que foi entregue a Jorge Jesus um texto com oito pontos que deveriam ser abordados na conferência de imprensa de antevisão ao encontro com a Dinamarca. Segundo o avançado, porém, o discurso apresentado aos jornalistas acabou por não corresponder ao que tinha sido discutido anteriormente.

«A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera», escreveu.

As palavras do jogador permitem agora revisitar a conferência de Jorge Jesus, realizada a 30 de setembro, e perceber onde as duas versões se aproximam e onde começam a divergir.

Ponto um

O primeiro dos pontos centrais da versão apresentada por Ronaldo prende-se com o plano definido para a sua utilização nesta janela internacional. O jogador garante que foi o próprio Jorge Jesus quem lhe propôs a estratégia e que a conversa entre ambos foi longa e positiva.

O selecionador confirmou que existiu uma combinação, embora tenha apresentado a situação de outra forma. Jesus explicou que, depois de ter trabalhado com Ronaldo durante um ano na Arábia Saudita, conhecia bem as suas necessidades físicas e tinha decidido que o avançado não seria titular nos dois primeiros jogos.

«É verdade que eu combinei com ele, criámos um plano como com o Bruno Fernandes e disse ao Cristiano que o jogo na Noruega e o jogo da Dinamarca ele não iria jogar. Porque eu trabalhei um ano com o Cris. Não o conheci há três meses na Seleção. Conheço as condições físicas dele, completamente. E sei, porque já o fazia na Arábia, que de três em três dias raramente o Cris jogava. Além disso, o Cris nunca treina nos primeiros dois dias após o jogo. Combinei isso com ele. Quando tivemos a primeira conferência ele falou sobre isto, disse que é o que o míster quiser. Nunca se negou a nada e foi o que aconteceu. Só que eu sou um treinador que não vai para o banco a pensar que aos 60' vou tirar o Carlos Daniel. Não é assim que funciona. O jogo é que me diz o que vou fazer. Pensei que até tinha combinado com ele, mas se calhar até ao precisar dele nos últimos minutos. Mas o jogo ditou outras coisas e não o coloquei. É o ponto verdadeiro», disse o treinador.

Ponto dois

O segundo ponto apresentado pelo capitão é mais emocional. Jesus, de acordo com o documento, deveria ter afirmado conhecer perfeitamente o significado que a Seleção Nacional tem para o craque e o peso que representa no futebol mundial.

Tendo já defendido estas ideias anteriormente (e, até, posteriormente), nesta conferência de imprensa de dia 30, Jorge Jesus não fez qualquer referência específica a este tema.

Ponto três

Ronaldo garante que aceitou a estratégia apresentada pelo selecionador e que nunca colocou em causa o acordo estabelecido entre ambos. Jesus falou várias vezes sobre o plano durante a conferência e deixou implícito que existia um entendimento com o jogador. Não disse, contudo, de forma expressa, que Ronaldo tinha aceite o plano nos termos descritos pelo capitão.

«É verdade que eu combinei com ele», disse. O treinador insistiu ainda que o estatuto do jogador não altera a autoridade do técnico: «O estatuto não dá direitos que os jogadores sejam diferenciados. O estatuto é o respeito pela carreira deles. Como faço com o Cris. Eu coloco sempre primeiro a questão, o plano, que é traçado com o jogador e quem decide sou eu. Eles sabem. Até os presidentes sabem. No clube manda o presidente, na equipa mando eu.»

Ponto quatro

No quarto ponto, Ronaldo é taxativo: garante que nunca colocou em causa as opções do treinador. Jorge Jesus não fez uma avaliação semelhante do comportamento do capitão, mas rejeitou categoricamente que o capitão se tivesse recusado a treinar depois do jogo com a Noruega.

«Não se recusou a treinar, isso era impossível. Vocês acham que algum jogador do nível de Seleção se recusa a treinar? Fez ginásio, mobilização no campo e depois foi fazer reforço para o hote», afirmou.

Ponto cinco

Este é um dos pontos em que o documento apresenta mais detalhes. Segundo o jogador, o plano inicial não contemplava a sua utilização frente à Noruega, mas, depois de Jesus entender que tinha recuperado fisicamente, o selecionador avisou-o de que poderia precisar dele. Ronaldo garante que concordou.

Jorge Jesus confirmou que a decisão inicial era não lançar o avançado, mas explicou que nunca poderia garantir antecipadamente aquilo que faria durante um jogo. «Posso prometer o que eu quiser. Eu sou treinador, disse ao jogador que não era para jogar, mas levo-te para o banco. Como vi o jogo à minha maneira, não entrou. Nunca vai haver um jogador que vá mudar as minhas ideias. Nunca, zero», afirmou, numa das respostas mais duras da conferência.

«O jogo é que me diz o que vou fazer. Pensei que até tinha combinado com ele, mas se calhar até ao precisar dele nos últimos minutos. Mas o jogo ditou outras coisas e não o coloquei. É o ponto verdadeiro», respondeu, ainda.

Ponto seis

Este é provavelmente o ponto em que as duas versões mais se aproximam: o aquecimento durante um longo período de tempo no jogo com a Dinamarca, sem depois entrar em campo. Jorge Jesus reconheceu que essa decisão não foi a mais acertada.

«Qualquer jogador, quando aquece 20 ou 30 minutos, não há nenhum que fique contente. Quanto mais o Cris… Que tem estatuto. Se fosse o Pelé, o Maradona... Isso é o estatuto, mas os direitos são iguais.»

«Chegou ao jogo mandei aquecer aos 45', eu não sabia o que ia fazer. Isso foi o que fiz mal, devia tê-lo metido a aquecer uns 15 minutos mais tarde. Não sabia o que ia acontecer, comecei a ver o jogo e não o pus no jogo», confessou. Jesus assumiu, portanto, o erro no momento do aquecimento, mas não na decisão de não utilizar Ronaldo.

Ponto sete

No sétimo ponto, Jesus teria de deixar claro que queria que Ronaldo continuasse a fazer parte da Seleção Nacional. «Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al-Nassr e aqui também», está escrito, no comunicado.

O selecionador, porém, não abordou esta questão na conferência de imprensa.

Ponto oito

Por fim, o último ponto abordava facto de o capitão não ter cumprimentado os adeptos portugueses após o jogo com a Noruega. O jogador garantiu que o episódio foi apenas uma reação de frustração e que não coloca em causa a relação que mantém com os adeptos e com Portugal.

Na segunda pergunta da conferência, Jorge Jesus foi questionado sobre a saída apressada de Cristiano Ronaldo. Na mesma intervenção, o selecionador foi ainda confrontado com a reunião a três que manteve com o capitão da Seleção e Pedro Proença e acabou por não abordar a situação na resposta.

Logo após a vitória em Oslo, o selecionador comentou a situação: «Nem me apercebi. Já me fizeram várias questões em relação a isso. Só ele é que pode responder (...) Tenho de falar com ele, como é óbvio. Mas conheço-o muito bem, a Seleção é a Seleção. Não é o mesmo que um clube, mas isto não é nenhuma novidade para mim. A Seleção é de todos nós e eu não sei responder concretamente em relação ao pensamento dele. Só depois de falar com ele é que saberei.»

Entre aquilo que Ronaldo diz ter sido discutido em privado e o que Jorge Jesus acabou por dizer publicamente há, assim, pontos de contacto, mas também diferenças significativas. E é precisamente nessas divergências que está uma parte importante da história que acabou por incendiar a Seleção Nacional.

A dúvida, contudo, mantém-se: terá sido este o último (e triste) capítulo de Cristiano Ronaldo com a Seleção Nacional?

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