João Félix e Gonçalo Ramos - Foto: IMAGO
João Félix e Gonçalo Ramos - Foto: IMAGO
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'Made in' Benfica

Há nove jogadores formados no Benfica na atual Seleção portuguesa. João Cancelo, Rúben Dias, Tomás Araújo, Nuno Tavares, João Neves, Bernardo Silva, João Félix, Gonçalo Ramos e Samuel Soares passaram pelo Benfica Campus. Crónicas de bancada é o espaço de opinião de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Prestianni foi o jogador que mais valorizou na Liga portuguesa na última atualização do Transfermarkt. Não é propriamente uma surpresa para quem tem acompanhado a época do argentino. Talvez seja para alguns dos especialistas que ainda há pouco tempo não encontraram razões para votar nele como melhor jogador do mês.

Não faço das avaliações do Transfermarkt uma ciência exata. Estão longe disso. Mas servem para perceber como o mercado olha para os jogadores e, no caso de Prestianni, confirmam aquilo que se vê em campo. Está muito melhor jogador do que era quando chegou ao Benfica. Continua a ter apenas 20 anos e ainda tem muito para corrigir, mas hoje já tem outra importância na equipa.

Há mais jovens do Benfica a subir. Banjaqui e Gabriel Índio estão entre os dez sub-19 mais valorizados do mundo. Banjaqui é mesmo o terceiro. Convém não meter tudo no mesmo saco. Banjaqui fez o seu percurso no Benfica Campus. Gabriel Índio chegou este ano ao clube, ainda muito novo, e é uma aposta feita fora de portas. São histórias diferentes. O que têm em comum é estarem hoje entre os jovens mais valorizados da sua idade.

Depois há aquilo que já não é promessa nem projeção de mercado. Há nove jogadores formados no Benfica na atual seleção portuguesa. João Cancelo, Rúben Dias, Tomás Araújo, Nuno Tavares, João Neves, Bernardo Silva, João Félix, Gonçalo Ramos e Samuel Soares passaram pelo Benfica Campus. Fábio Silva também teve uma passagem pela formação do Benfica, durante duas épocas, mas não o incluo nesta conta porque a sua passagem foi muito curta.

Nove jogadores numa seleção que ganhou os últimos quatro jogos e que vai chegar aos próximos desafios, nomeadamente à Liga das Nações, ao Europeu e ao Mundial, com a ambição de conquistar estes títulos.

No meio de tudo o que se escreve e diz sobre Cristiano Ronaldo, é fácil deixar passar o resto. Ronaldo continua a ser Ronaldo e é natural que concentre grande parte das atenções. Mas a presença do Benfica nesta Seleção já atingiu uma dimensão que também merece ser olhada.

No último jogo, contra a Noruega, João Cancelo marcou um dos golos, Gonçalo Ramos fez o outro e João Félix deu a assistência para o golo da vitória.

Tudo made in Benfica.

Quando uma seleção com as ambições de Portugal tem nove jogadores formados no mesmo clube, não estamos apenas perante uma fornada particularmente boa. Já passaram várias e os jogadores continuam a aparecer.

Entretanto, no FC Porto, a renovação do plantel prossegue a bom ritmo. Depois de, em janeiro, ter contratado um central de 40 anos, chegou agora Chris Smalling, com 36. Está a rejuvenescer. Smalling teve uma carreira importante, jogou muitos anos no Manchester United e na Roma e pode perfeitamente ser útil ao FC Porto. A idade, por si só, não impede ninguém de jogar bem. No entanto, não deixa de ser algo que devemos assinalar. Smalling é o sexto central contratado pelo FC Porto em pouco mais de um ano de Farioli. Seis centrais! Não é coisa pouca.

Também será interessante conhecer os custos da operação. Smalling estava sem clube, portanto não há transferência para pagar. Isso não quer dizer que venha de graça. Há salário, prémio de assinatura e outros encargos que seria interessante conhecer.

Digo isto porque nos habituámos a um escrutínio minucioso das contratações do Benfica. Sabemos quanto custou o jogador, as comissões, os objetivos e, algumas vezes, até quanto é que o jogador vai receber ao longo do contrato. Não me incomoda. Pelo contrário. Quanto mais transparência houver no futebol, melhor.

E já que falamos de transparência, há um assunto que merece bem mais atenção do que aquela que tem tido. Há quase um mês, o Benfica entregou ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol e ao Conselho de Arbitragem um documento com propostas para mudar a arbitragem portuguesa. Fê-lo sem grande alarido e, talvez por isso, falou-se pouco do assunto. É pena. Passamos horas a discutir arbitragens e quase tempo nenhum a discutir a arbitragem. O documento mexe em algumas das questões que há muito levantam dúvidas no futebol português. Desde logo, quem manda na arbitragem e de quem depende quem manda. O Benfica defende que a gestão deixe de estar na esfera da Federação e da Liga e passe para uma entidade externa, com autonomia total. Os mandatos seriam fixos e não coincidiriam com os ciclos eleitorais das entidades que regulam o futebol. Para a liderança dessa estrutura poderia passar por um concurso internacional.

Há depois uma questão que também me parece difícil de contestar: quem nomeia não deve ser quem avalia. O Benfica propõe uma separação total entre as duas funções.

O documento vai mais longe e entra também no VAR. Defende a sua profissionalização e a introdução do fora de jogo automático. Se temos tecnologia que permite reduzir o erro numa decisão que é objetiva, não vejo razão para continuarmos a não o fazer.

Também há uma mudança na forma de olhar para o desempenho dos árbitros e dos VAR. Quem tiver desempenhos de mérito deve ser premiado financeiramente. Quem não atingir os níveis exigidos deve ter consequências. Parece-me normal. Se queremos uma arbitragem cada vez mais profissional, também temos de aceitar que o desempenho conte. Não faz sentido avaliar árbitros se depois essa avaliação não tiver qualquer efeito.

Independência, profissionalização, transparência e responsabilização. É nestes quatro pontos que o Benfica assenta a sua proposta.

Não significa que tudo tenha de ser aceite como está. Pode haver outras soluções e certamente haverá quem discorde de algumas. Mas o Benfica fez mais do que apontar problemas. Colocou uma proposta em cima da mesa.

Agora gostava de ouvir os outros.

Sobretudo aqueles que durante anos fizeram da verdade desportiva uma bandeira e os que chegaram mais recentemente a anunciar lufadas de ar fresco no futebol português.

É uma boa altura para perceber quem quer mesmo discutir uma mudança na arbitragem e quem prefere continuar a discuti-la apenas depois dos jogos.

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