Derlei foi rei de La Cartuja na final da Taça UEFA, em maio de 2003 — Foto: A BOLA
Derlei foi rei de La Cartuja na final da Taça UEFA, em maio de 2003 — Foto: A BOLA
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

Derlei revisita La Cartuja e recorda o Bicho: «Vamos deixar esses ‘caras’ fazer um golo»

Herói da conquista da Taça UEFA lembra o humor do capitão Jorge Costa nos momentos difíceis e a confiança transmitida por Deco. Frente ao Betis, acredita no mesmo «espírito vencedor» dos dragões

SEVILHA — O FC Porto prepara-se para pisar de novo o relvado de La Cartuja. Desta vez, defronta o Real Betis em casa emprestada, já que o Estádio Benito Villamarín está em plenas obras de remodelação. Para o universo portista — e para a história do próprio futebol português —, aquele recinto em Sevilha está longe de ser um relvado qualquer. É quase solo sagrado.

Depois das noites dramáticas em Basileia (1984) e da apoteose em Viena (1987), Sevilha foi o terceiro grande capítulo da afirmação europeia dos azuis e brancos. Foi ali, na noite de 2003, que o FC Porto venceu o Celtic por 3-2 e levantou a sua primeira Taça UEFA — hoje Liga Europa —, no primeiro grande troféu internacional da era de José Mourinho.

Recorde a final da Taça UEFA de 2003

Galeria de imagens 9 Fotos

Na final, a fasquia era altíssima. O Celtic, que já fora Campeão Europeu em Lisboa no distante ano de 1967, jogava ali a sua terceira final europeia. Tinha uma constelação de internacionais liderada pelo sueco Henrik Larsson e, curiosamente, alinhava de início com apenas dois escoceses. Do outro lado, Mourinho apostava forte na prata da casa: nove portugueses no onze inicial (incluindo Deco, já naturalizado) e apenas dois estrangeiros: Alenichev e Derlei.

O Ninja acabou por ser o homem do jogo, ao bisar e fechar a partida no prolongamento. «A sensação de marcar um golo numa final europeia já é indescritível», recorda Derlei, a A BOLA. «Não conseguimos medir a alegria, mas numa final a emoção fica mais aflorada. Era a minha primeira final europeia e era um título que o FC Porto não tinha, que o futebol português não tinha. Foi realmente muito especial. Quando se faz um golo no prolongamento e se sabe que, gerindo aqueles minutos, a equipa vai ser campeã, é fantástico. O cansaço físico é ultrapassado pela vontade e por essa força extra.»

Era a minha primeira final europeia e era um título que o FC Porto não tinha, que o futebol português não tinha. Foi realmente muito especial. Quando se faz um golo no prolongamento e se sabe que, gerindo aqueles minutos, a equipa vai ser campeã, é fantástico

A tranquilidade antes do apito inicial veio de quem menos se esperava numa noite de tanta tensão. Derlei dividia quarto com Deco durante o estágio e lembra-se perfeitamente da atitude do camisola 10. «É um jogo que causa nervosismo a todos, mas ele estava muito tranquilo. Isso ajuda os companheiros. Quando o melhor jogador da equipa, tecnicamente falando, transmite essa calma, acaba-se por sentir essa confiança e olhar para o adversário sabendo que se pode vencer.»

Quando Deco, o melhor jogador da equipa, tecnicamente falando, transmite essa calma, acaba-se por sentir essa confiança e olhar para o adversário sabendo que se pode vencer

Do hotel até ao estádio, o cenário era impressionante. «O caminho até ao estádio, os adeptos do Celtic... Nunca mais vou esquecer. Era uma aula de clubismo. E, claro, os adeptos do FC Porto. Ir a uma final europeia é muito mais pesado e custoso financeiramente para um português. As questões financeiras pesam muito, mas mesmo assim tínhamos um terço ou um quarto do estádio pintado de azul e branco. Viver aquilo na comemoração, ver rostos conhecidos e anónimos em lágrimas, é gratificante.»

O caminho até ao estádio, os adeptos do Celtic... Nunca mais vou esquecer. Era uma aula de clubismo. E, claro, os adeptos do FC Porto. Ir a uma final europeia é muito mais pesado e custoso financeiramente para um português

Em campo, quando a pressão sufocava, sobressaía a liderança ímpar de Jorge Costa. O falecido capitão sabia desarmar o stresse com a sua mística habitual. «Sabemos da importância que o nosso capitão — que Deus o tenha — teve na história do clube», sublinha o antigo avançado.

«Em determinados momentos, quando a situação estava bem complicada e a equipa adversária estava a empurrar-nos contra a nossa baliza, ele chegava dentro da área e dizia: ‘Ó malta, vamos deixar esses caras fazerem um golo logo, para nos deixarem jogar também.’ Era a forma dele descontrair o grupo. Nós já sabíamos como ele era e isso ajudava imenso.»

O Estádio Olímpico de Sevilha tornou-se, ao longo dos anos, num anfiteatro recheado de episódios marcantes para Portugal. Se 2003 trouxe a glória ao FC Porto, o Euro 2020 deixou um travo amargo à Seleção Nacional, eliminada nos oitavos de final perante a Bélgica (1-0), com um golo de Thorgan Hazard. Na época passada, o SC Braga assinou em La Cartuja uma das reviravoltas mais impressionantes da sua história europeia frente ao Betis: esteve a perder por 2-0, mas deu a volta para 4-2 (5-3 no agregado) e selou a passagem às meias-finais da Liga Europa.

Agora, o contexto é outro. O FC Porto regressa ao mesmo relvado onde fez história, mas focado no presente e na necessidade de pontuar no novo formato europeu. «Agora falamos de um jogo que vale três pontos importantíssimos», perspetiva Derlei.

O formato mudou e a estratégia também se adapta. Um resultado fora, mesmo não sendo uma vitória, por vezes ajuda. Mas como o FC Porto perdeu a primeira partida, é natural que vá lá buscar os três pontos

«O formato mudou e a estratégia também se adapta. Um resultado fora, mesmo não sendo uma vitória, por vezes ajuda. Mas como o FC Porto perdeu a primeira partida, é natural que vá lá buscar os três pontos para compensar. As equipas espanholas têm sempre grandes jogadores, é preciso o máximo respeito, mas o FC Porto tem tudo para sair de lá com um ótimo resultado. A equipa continua com a mesma força, a mesma pegada e o espírito vencedor com que fechou a época passada.»

A iniciar sessão com Google...