Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus - foto: IMAGO
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O pecado capital de Cristiano Ronaldo

Capitão deixou a Seleção; a divergência com Jorge Jesus nunca poderia ser técnica; falta perceber o que tem para dizer e o que pensam os colegas

Foram mais de duas décadas de entrega, onde a camisola das quinas se transfigurou graças ao talento, disciplina e ambição do camisola 7. Copenhaga reservou um capítulo final demasiado triste. A tempestade desencadeada no estágio culminou numa imagem que fica muito longe do que devia estar preparado há algum tempo: uma saída em celebração e agradecimento a Ronaldo. Por colegas e pelo povo.

Após o choque com a autoridade de Jorge Jesus, Cristiano desapareceu num jato privado e num post nas redes sociais, no qual anunciou a saída da Seleção. Também prometeu dizer a verdade sobre o que o levou fazê-lo. Deixemos um espaço, então, para as razões de Cristiano, que pode revelar algo que não sabemos. Porque pelo que sabemos, o problema não podia residir na divergência técnica. Só o treinador está mandatado para tomar decisões desse tipo.

JJ anunciou desde o primeiro dia que iria estar na Seleção como esteve sempre no caminho que o trouxe até ao topo do futebol nacional: com as suas ideias, doa a quem doer, fosse qual fosse o estatuto. Na conferência de imprensa, Jesus não teve segredos. Confirmou que tinha planeado utilizar Ronaldo em dois dos quatro jogos, o primeiro e o último, que lhe dissera que talvez jogasse na Noruega e até assumiu que ter um atleta daquele estatuto a aquecer tanto tempo poderia tê-lo melindrado. O que Jesus nunca deixou de ser, porém, foi o treinador que é: fiel à sua liderança. É ele quem tem de ler o jogo, quem tem de atuar perante as circunstâncias. Foi o que fez em Oslo.

O capitão podia ter ficado descontente, mas se achou que merecia explicação, podia ter interpelado Jesus na privacidade do balneário. Mas a personalidade de Ronaldo impede-o de recato, precisa do holofote para se alimentar, seja no sucesso ou na frustração. É assim há anos, não pode surpreender ninguém, nem mesmo colegas de equipa, já habituados a que o mediatismo de uma vitória seja ultrapassado pela dimensão de um gesto do capitão.

Tentaram aproximar-se as partes, Proença ocorreu em urgência - até porque há um lado financeiro que o presidente da FPF tem de cuidar - e tudo parecia apaziguar-se após uma conferência sincera de Jesus. O que ouviu ou não ouviu Ronaldo que não gostou é o que não sabemos. Mas sabemos também qual é o pecado capital num desporto coletivo. Nunca se abandona a equipa. E sobretudo não se abandona por uma decisão técnica. Porque isso rompe o contrato moral com a equipa, com os colegas, que também trabalham e têm a mesma responsabilidade de representar Portugal. Faltará perceber o que vai na alma dos jogadores. Algo que, provavelmente, nunca saberemos porque o futebol português é perito no desporto do «politicamente correto» e no compromisso de circunstância.

Para quem construiu uma carreira sob o lema da superação e do profissionalismo irrepreensível, ver esse percurso terminar na pista de um aeroporto, à espera de um voo particular para abandonar os seus pares, é um espetáculo deprimente. A grandeza de um atleta mede-se na forma como domina os grandes palcos, mas consolida-se na capacidade de compreender o declínio da sua própria hegemonia. Ao recusar aceitar a inevitabilidade da rotação ou um papel secundário em prol do coletivo, Ronaldo permitiu que a sua monumental herança fosse ensombrada por um ato de inconformismo que, à falta dessas revelações que promete, parece imaturo.

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