Depois de mais de 20 anos a vestir a camisola da Argentina, Messi colocou 
um ponto final na carreira internacional — Foto: IMAGO
Depois de mais de 20 anos a vestir a camisola da Argentina, Messi colocou um ponto final na carreira internacional — Foto: IMAGO
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Adeus, que me vou embora (parte II)

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de José Neto, Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores FPF/UEFA; Docente universitário na Universidade da Maia; Embaixador nacional de Ética e Fair Play do Desporto

Transição de Carreira — medidas com vista para o futuro. Segunda parte de um artigo cuja primeira parte foi publicada na quarta-feira

Como referia no artigo anterior, a transição da carreira desportiva deverá assumir-se como um processo dinâmico que necessita de ter o seu início nos primeiros anos da carreira (pós formação) e prosseguir ao longo da carreira profissional de futebol. É um processo que deverá ocorrer a um nível multidimensional envolvendo a interação de vários fatores: emocionais, psicossociais, comportamentais e cognitivos que afetam o indivíduo e seu ambiente.

Para que se possa experienciar uma transição de carreira desportiva, estimamos que o atleta se deve iniciar em atividades de preparação orientadas para desenvolver a atenção, compreensão e estratégias de coping associadas com a transição de carreira desportiva, antes do final da sua carreira profissional futebolística.

As estratégias sugeridas para mitigar o efeito negativo na transição da carreira desportiva, incluem:

— Fazer algum tipo de formação, ao nível académico (gestão desportiva, curso de treinador, ciências da comunicação, recursos humanos, scouting, etc…)

— Participar em aconselhamento e análise vocacional identificando e participando em áreas de interesse, que possam não ser propriamente desportivas.

— Integrar o estudo e avaliação dum programa de apoio académico (ao nível das novas oportunidades) e programa de apoio para abertura de novas empresas ou negócios.

Como sabemos, os ex-atletas apresentam um grau de consciência bastante elevado, sendo por isso possível, sugerir, em função das preocupações transmitidas por estes, que os jogadores possam ser avisados e aconselhados quanto aos desafios sociais, psicológicos e comportamentais passíveis de serem experienciados durante a sua transição de carreira desportiva da Liga profissional de futebol. As questões que precisam de ser equacionadas são principalmente:

— Identidade atlética — atletas que são capazes de se definirem a si próprio de uma forma vincada. Estes experienciam adaptações mais negativas no processo de transição de carreira, não tanto enquanto participantes ativos, mas na adaptação a novo estilo de vida.

— Dor física — incapacidade de responder fisicamente às exigências perante o conflito competitivo com duas respostas: ganhar e voltar a ganhar.

— Dor emocional — a modulação de resposta emocional também parece estar ligada a um certo lastro de segurança familiar e financeira — quem se autoperceciona como tendo recursos, projeta-se mais seguro nos pós–competição. A contrária, é por isso, igualmente válida para aqueles que não se consideram tão bafejados pela sorte. Para estes, os riscos inerentes à imprevisibilidade do futuro, aumenta significativamente.

— Perda de amizades, estatuto de celebridade, camaradagem.

— Risco de comportamentos negativos, como por exemplo, beber excessivamente, abuso de substâncias prejudiciais à saúde.

Se estas questões forem trabalhadas com mestria antecipatória, os jogadores poderão experienciar uma transição de carreira desportiva com muito sucesso.

Não devemos também esquecer a importância do contributo e da responsabilidade social dos clubes/SAD, como forma de garantir a sustentabilidade do Homem que se encontra por detrás do jogador — estrela que se foi e por via disso tantas vezes transportou uma cruz virtualmente fácil, por vezes tão incompreendida.

Existe uma área no estrangeiro ao nível da Responsabilidade Social Corporativa (CSR), que tem atraído considerável interesse no que à gestão diz respeito, mas que raramente tem sido avaliado e explorado na área da pesquisa e intervenção dentro de portas.

Segundo Breitbarth e Harris (2008) «ao realizar a literatura de marketing, desporto e gestão, este artigo considera que o papel da CSR no negócio do futebol apadrinhará a competitividade do jogo e criará valor adicional para os acionistas», propondo «um modelo conceptual que delineie um papel de agente de futebol, tendo em vista a criação de um valor humanitário, cultural, político, social e de segurança».

Uma medida fundamental para que o processo da transição de carreira não conduza aos estados de declínio existencial referidos no número anterior e para além do que já foi mencionado, será a relevância à continuidade de prática desportiva, proporcionando o crescimento em termos de valores da amizade, responsabilidade, respeito, coesão de grupo, capacidade de superação, regímen alimentar e continuidade do respeito pelos hábitos de rotina, para além do fenómeno mais importante que é a contribuição pela prática desportiva para o estado de uma vida saudável.

Um apelo para que as organizações desportivas (federações, Liga, associações, clubes, sindicatos, autarquias) assumam a sua responsabilidade social no enquadramento dos desportistas durante o seu ciclo de vida, preparando o Homem para o futuro, condição que garantirá o sucesso durante o período de transição pós carreira desportiva.

O desporto só pode ser visto como instrumento de formação para a qualidade de vida e não uma mera indústria, cuja principal matéria-prima são as pessoas. Jamais devemos permitir que essas, que outrora enchiam os estádios com hossanas de encanto, venham a ser trituradas sem possível reciclagem. Outrora robustecidas por focos geradores duma paixão coletiva, passam de ícones de aplauso, ao desencanto prostrado, tantas vezes, pelo silêncio do desconhecido.

Porventura todos observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam até à condição de mera mercadoria o atleta de alto rendimento.

A acompanhar tudo isto, verificamos um setor muito significativo em termos de formação, o ainda deveras preocupante no afã depósito de muitos pais e outros agentes, que ao detetarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que para ela se torna mais importante: o espaço lúdico para crescer de forma apaixonadamente feliz e entusiasmante.

Quando se quer à viva força enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que aparece, tendo como resultado no imediato, a fulguração da estrela cadente, o vazio, o abandono e a solidão!...

Dado os acontecimentos que nos moem a alma, referentes ao estado de sítio Cristiano Ronaldo, pelo ato imanente de respeito que neste momento se me impõe em todo o processo, faço eco do ar que escapa da minha devotada opinião, que está bem explícito nos artigos que ao longo do tempo A BOLA muito me honra ter publicado, como a título de exemplo: 1) — Carta Aberta a Cristiano Ronaldo, publicada a 22 junho 2026; 2) — Quanto vale o peso duma bandeira, publicado a 26 de setembro 2026. Aí o meu estimado leitor poderá encontrar por um lado em pura reflexão do que, creio, poderia ter sido evitado e por outro lado o arrastamento para um cultivar de memória que jamais deixará de resistir ao tempo, podendo aproximar-se em segredo da eternidade!...

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