As gentes e os locais - viagem (com vídeos) pela origem do Benfica
Benfica celebra 120 anos este 28 de fevereiro de 2024. Foto: ASF

120 anos As gentes e os locais - viagem (com vídeos) pela origem do Benfica

NACIONAL28.02.202408:00

O historiador Francisco Pinheiro conduz-nos pela capital num regresso a um passado rico; acompanhe-nos, também, pelas palavras de Cosme Damião e por edições antigas de A BOLA

«Veio primeiro a ideia do jogo, pelo prazer de jogar. A ideia do clube seguiu-se ao prazer do triunfo. Houve desde logo a certeza de que pela união nos poderíamos tornar mais fortes. Neste sentimento inicial se pedia a escolha da divisa do novo clube – um por todos, todos por um.»

Ainda antes de o Benfica ser Benfica, ainda antes até de ser Sport Lisboa, fundado a 28 de fevereiro de 1904, na Farmácia Franco, em Belém, já tinha o seu lema, ainda hoje no emblema – E Pluribus Unum.

Contou-o, em entrevista A BOLA a 5 de março 1945, Cosme Damião, um dos 24 fundadores do Sport Lisboa, clube que se juntaria quatro anos mais tarde ao Grupo Sport Benfica para formar o Sport Lisboa e Benfica.

A BOLA convida-o a uma viagem guiada por Francisco Pinheiro, historiador do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra, a locais marcantes na história do clube que celebra, esta quarta-feira, 120 anos.

A Farmácia Franco

Dever-se-ia começar, então, pela Farmácia Franco, pela ata, lavrada por Cosme Damião, da fundação do Sport Lisboa. Mas comecemos, talvez, por recuar um pouco mais, conduzidos pelas palavras daquele que, para lá de fundador, foi jogador, treinador, dirigente e não quis ser presidente e cujo nome está perpetuado, por exemplo, no museu do clube: Museu Benfica – Cosme Damião.

«Em Belém, formara-se, muito antes, um destes grupinhos de bairro. Os rapazes de algumas das melhores famílias daquela zona reuniam-se para jogar futebol. E residia quase tudo, no mesmo prédio, na Rua Direita, onde estava e está a Farmácia Franco. Os jogadores mais em evidência eram os irmãos ‘Catataus’ – José, António, Cândido e Jorge Rosa Rodrigues. Jogavam, com eles, os Carrilhos, seus vizinhos, os Monteiros, moradores na mesma rua. A própria farmácia contribuiu com entusiasmo para o grupo de jogadores – Manuel Goularde e Daniel de Brito, empregados da farmácia, os donos, Pedro Franco e Conde do Restelo, e um médico que ali dava consultas, o dr. António de Azevedo Meireles. Uns jogavam. Outros ajudavam os rapazes. Este grupo dos Catataus foi um dos núcleos que deram depois jogadores para o desafio que provocou a fundação do Sport Lisboa», contou Cosme Damião, num dos testemunhos mais ricos para compreender a história do Benfica.

«O outro núcleo era o de jogadores que se fizeram na Casa Pia. Eu saí em agosto de 1902. Em julho de 1903, fundou-se a Associação do Bem, constituída por ex-alunos da Casa Pia. […] O Desporto contava bastantes simpatias, na Associação do Bem. Para o futebol ia, porém, o maior entusiasmo. Pensou-se, assim, na formação de um team de futebol. Eu era muito novo, mas pertencia ao grupo dos que aceitaram o projeto com mais alegria», recordou Cosme Damião, então com 59 anos, já doente.

Manuel Gourlade, empregado da Farmácia Franco, era o «ponto de ligação» ao grupo dos Catataus. Uma equipa de jogadores da Associações do Bem com jogadores do Grupo dos Catataus formou-se para defrontar outra equipa, então com alguns dos melhores praticantes, o Grupo dos Pinto Bastos. Se perdeu o primeiro jogo, ganhou a desforra, em dezembro de 1903.

«Houve festa rija numa cervejaria em frente à Farmácia Franco, para celebrar a vitória. E partiu da referida festa a ideia de nos reunirmos em clube. Esta ideia discutimo-la depois. Hesitámos no título. Sport Lisbonense. Sport Lisboa. E optámos, no fim, pela última designação. A primeira manifestação de atividade do novo clube foi o treino marcado para 28 de fevereiro de 1904. Para a compra da bola fizemos um empréstimo», partilhou Cosme Damião.

Ata da fundação do Sport Lisboa de 28 de fevereiro de 1904. Foto: D.R.

Na tarde desse 28 de fevereiro, reuniram-se os 10 que treinaram (António Rosa Rodrigues, Cândido Rosa Rodrigues, José Rosa Rodrigues, Daniel Brito, Eduardo Corga, Henrique Teixeira, Carlos França, Abílio Meirelles, Amadeu Rocha e Manuel Gourlade) e outros 14 (António Severino, Francisco Calisto, Francisco dos Reis Gonçalves, João Gomes, João Goulão, Joaquim Almeida, Joaquim Ribeiro, Jorge Augusto Sousa, Jorge da Costa Afra, José Linhares, Manuel França, Raul Empis, Virgílio Cunha e Cosme Damião). E ficaria lavrado em ata o nascimento do Sport Lisboa.

«As dificuldades», conta Cosme Damião, «eram grandes». «Não havia local que servisse para mudar de roupa. Para o equipamento, pagava-se a um casal de velhos, no topo poente. E a lavagem fazia-se ao ar livre, em alguidares de barro. A água era de um poço próximo. Havia um moço que se encarregava especialmente de tirar a água, e despejar algumas vezes os baldes de água por cima dos jogadores. Outros jogadores vestiam-se logo que o desafio findava, para se lavarem à vontade noutros clubes a que pertenciam, no Clube Naval ou no Ginásio.»

Fuga para o Sporting

O Sport Lisboa debateu-se sempre com dificuldades de não ter campo próprio. Jogou nos terrenos públicos das Terras do Desembargador, Belém, Campo da Quinta Nova, Carcavelos, Quinta da Feiteira, Benfica.

«A tornar mais imperiosa a necessidade de campo, havia o exemplo do Campo Grande, transformado, pela força de vontade de José Holtreman Roquete (Alvalade), no Sporting Clube de Portugal, com campo e instalações decentes. O exemplo começou a tentar… Não se podia fazer nada sem campo. Houve troca de impressões entre os jogadores. E chegou-se a uma conclusão desoladora, não havia campo e não se podia passar sem ele. Resolveu-se, por acordo, que cada qual procurasse que mais lhe agradasse ou a que melhor se pudesse adotar. Quase todos os jogadores de primeira categoria foram para o Sporting, permitindo a José Machado a realização do seu sonho de um grande clube. Com aquele reforço, o Sporting organizou o seu primeiro team da categoria superior», contou Cosme Damião, que atiraria: «O Sport Lisboa não sucumbiu.»

Sede e campo

A 13 de setembro de 1908, juntou-se com o Sport Clube de Benfica, que tinha campo próprio, na Quinta da Feiteira, em Benfica, e formou o Sport Lisboa e Benfica.

A 1 de fevereiro de 1910, muda a sede para a Rua Direita de Benfica, hoje Estrada de Benfica, no número 326, não muito longe do campo. O edifício da sede já não existe.

No coração de Lisboa

Dois anos mais tarde, a 24 de agosto de 1912, abre a sede na praça do Rossio, no 2.º esquerdo do n.º 30. «Escolheu o centro da cidade de Lisboa, junto ao famoso Café Nicola, numa relação de proximidade entre um jovem clube ainda com poucos anos e os primeiros adeptos. Associação Futebol de Lisboa foi criada em 1910, o campeonato de Lisboa começa a ter enorme popularização e o Sport Lisboa e Benfica vai ser um dos principais clubes a vencer o campeonato de Lisboa na década de 1910», explica Francisco Pinheiro.

15 mil nas Amoreiras

Na década de 1910, o Benfica utilizou vários campos – Palhavã, Laranjeiras, Sete Rios, Benfica – até construir o Estádio das Amoreiras. «Durante a décadas de 10 do Século XX, o Sport Lisboa e Benfica ganha enorme popularidade em Lisboa, mas também à escala nacional, sobretudo graças às vitórias no campeonato de Lisboa. Sentiu a necessidade de construir um grande estádio, no início dos anos 1920, numa altura em que já tinha mais de dois mil sócios», explica Francisco Pinheiro.

Estádio das Amoreiras, à época um dos melhores da Península Ibérica. Foto: SL Benfica

Foi inaugurado a 13 de dezembro de 1925, num jogo contra o Casa Pia (1-3), perante 15 mil espectadores. «Considerado à época um dos melhores estádios da Península Ibérica», assinala Francisco Pinheiro. Sobrevive até 1940 «para a criação da autoestrada que vai ligar Lisboa a Cascais».

Até à inauguração do Estádio da Luz, em 1954, o Benfica utilizou uma época as Salésias e o Lumiar, e 13 anos o Estádio do Campo Grande.

Sede na Rua do Jardim do Regedor

Ainda em 1934, quando ainda jogava nas Amoreiras, o Benfica abre a sede do Jardim do Regedor. «Tem necessidade de criar uma secretaria no centro de Lisboa, para uma relação de proximidade com os adeptos e sócios, num período em que o Benfica tem uma enorme popularização, muito graças às vitórias no campeonato de Portugal e, depois, obviamente, também às vitórias no campeonato da Primeira Liga, de 1935 a 1938. Este espaço, além de secretaria, para tratar de assuntos com o clube e futebol, também era um espaço onde se faziam os famosos saraus culturais e chás dançantes, onde a comunidade do Benfica, sócios e adeptos, se reunia para conviver, criando e estreitando as relações de afeto entre sócios, adeptos e clube», conta Francisco Pinheiro.

Estádio do Sport Lisboa e Benfica

«Aleluia! – o Benfica tem um estádio», lia-se na primeira página de A BOLA de 2 de dezembro de 1954, dia seguinte à inauguração do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, ontem e hoje conhecido como Estádio da Luz.

«Parece um sonho – estarão certamente a pensar neste momento os muitos milhares de benfiquistas que aqui se encontram. Não é um sonho, é uma realidade, um milagre. Milagre da nossa fé inquebrantável, milagre do nosso querer irresistível, milagre do nosso amor a esta enorme coletividade que se chama Sport Lisboa e Benfica. Aqui estamos com o coração a transbordar de alegria e uma lágrima rebelde a denunciar a nossa emoção, festejando este acontecimento duplamente feliz: inaugurar o nosso estádio no ano em que solenizamos as nossas bodas de ouro. Cinquenta anos de lutas, de canseiras, de malsinações; cinquenta anos de trabalho insano em prol de uma causa nobre e tantas vezes incompreendida», discursou o então presidente Joaquim Ferreira Bogalho.

Na inauguração o Benfica jogou contra o FC Porto (1-2). Dois anos antes, o Benfica foi convidado de honra na inauguração do Estádio das Antas, onde venceu por 8-2. Mas o que ficou dessa tarde foi «a magnífica manifestação de solidariedade por parte de todo o Portugal desportivo», com a participação de três mil atletas de 54 clubes.

«Aquelas dezenas de estandartes que o vento agitava em suaves ondulações simbolizavam a vibração de todos os clubes amigos do Benfica que, na primeira hora da vida do novo estádio, ali lhe levaram o abraço de congratulação», lia-se em A BOLA.

«O FC Porto prometera que viria à inauguração do Estádio do Benfica – e a gente do Norte não falta à palavra. Ei-lo em verdadeira ‘massa’, a desfilar perante milhares de benfiquistas agradecidos pela deferência. Foram 100 os atletas que desceram à capital.»

Mas foi o Sporting que teve a «representação mais numerosa» e os leões «foram recebidos com vibrantes ovações e sinceros vivas». «Distinta e condigna a presença do Sporting. Para cumular a gentileza, desfilou toda a Direção leonina. Precedidos da bandeira entregue a Manuel da Silva, os diretores do Sporting seguiam na parada com o presidente – Dr. Góis Mota – na primeira linha», assinalou-se em A BOLA.

O novo Estádio da Luz seria inaugurado a 25 de outubro de 2003.

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