Silvério Júnio e Bruno Faria estão no Lusitânia de Lourosa desde os tempos da Liga 3 e sonham com... o principal escalão - Foto: D.R.
Silvério Júnio e Bruno Faria estão no Lusitânia de Lourosa desde os tempos da Liga 3 e sonham com... o principal escalão - Foto: D.R.
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O que é nacional é bom: únicos invictos na Liga 2 e Liga 3 têm em comum muita... portugalidade

Lusitânia de Lourosa e Belenenses começaram a temporada em grande. Maioria de jogadores lusos salta à vista. Varzim é outro bom exemplo

O que é nacional é (muito) bom — é esta máxima que, com a ajuda de Silvério Júnio (Lusitânia de Lourosa), Bruno Faria (Lusitânia de Lourosa), Bruninho (Belenenses) e Rúben Fernandes (Varzim), se pretende atestar. 

Os quatro jogadores entrevistados por A BOLA fazem parte de três equipas que arrancaram o ano desportivo em grande e que, em comum, têm o plantel recheado de portugueses. 

Lusitanistas e azuis são mesmo os únicos emblemas que ainda não perderam nos respetivos campeonatos: os do concelho de Santa Maria da Feira lideram a Liga 2 com 16 pontos (cinco vitórias e um empate), enquanto os de Lisboa também vão na frente na Série B da Liga 3 com 15 pontos (cinco jogos e cinco triunfos).

«A seleção de homens para compor este plantel foi muito bem feita. Aqui em Lourosa tem-se trabalhado bem nesse sentido», enaltece o capitão dos leões, Silvério Júnio, acrescentando que, na sua ótica, «o grupo é mesmo importante, porque há muitos meses de trabalho». «Depois, dentro de campo, é sempre uma evolução com a equipa técnica, mas a base do grupo ser boa é crucial para disputar um campeonato sempre muito complicado», destaca o central de 30 anos.

Sobre a quase exclusividade de portugueses no plantel (só há quatro estrangeiros), o jogador formado no Rio Ave considera ser uma mais valia: «Sem dúvida que é importante, porque são conhecedores do campeonato e da cultura. É mais difícil para os estrangeiros criarem impacto logo de início.»

O atleta natural das Caxinas considera, além disso, que exemplos como este valorizam o atleta luso: «Devemos continuar a dar valor ao que é nosso e olhar mais para dentro, porque já mostrámos a todo o mundo que somos bons»

Ainda assim, Silvério Júnio faz um reparo que considera fundamental: as portas devem estar sempre abertas a que vem acrescentar qualidade. «Nós próprios somos um povo de imigrantes e não posso dizer que têm de ser só portugueses, porque também temos de dar valor a quem vem tentar a sua sorte cá, da mesma forma que nós vamos para muitos países. Em Lourosa, a malta de fora — o Gabriel Souza, o Danny, que já estava cá no ano passado, o Moisés Tablante, o Saliou —, veio e preocupou-se em integrar-se desde muito cedo e em perceber as dinâmicas. É malta que encaixa muito bem no perfil», reconhece.

Assim que chegou, Silvério Júnio assumiu a braçadeira e conquistou a Liga 3 - Foto: Lusitânia de Lourosa

«Se quem vem de fora vier preocupado em integrar-se e acrescentar — como muitos portugueses fazem quando vão para fora —, acho bem. Caso contrário, olhemos para o que é nosso, porque realmente aqui dentro há muita qualidade», reforça o defesa, cuja única aventura no estrangeiro foi em 2023/24, no Borneo Samarinda da Indonésia.

«Varzim foge à regra»

O também experiente — mas referência do Varzim — Rúben Fernandes, concorda que Portugal tem condições para olhar internamente com mais frequência: «Se vemos tantos portugueses a vingar lá fora, devia apostar-se mais. Se calhar, até saía mais barato. Para quê gastar dinheiro com jogadores de fora, quando os de cá têm tanta ou mais qualidade?»

Cerca de 80% do plantel varzinista é português — e, da equipa habitualmente titular, só Kauã (brasileiro) é estrangeiro, como destaca o jogador de 40 anos, admitindo que assim «é normal» que haja maior entendimento em campo. «No balneário, falamos todos português, mesmo o Mbaye, cuja língua nativa é o francês. Neste aspeto, o Varzim foge à regra. Atualmente, vemos muitas equipas que não têm quase nenhum jogador luso. Isso é mau para os campeonatos e até para o país», aponta.

Rúben Fernandes voltou ao Varzim, 18 anos após a primeira passagem - Foto: Varzim

O ex-central do Farense, Gil Vicente, Portimonense e Estoril teve a única experiência fora de portas no St. Truiden (Bélgica), entre 2015 e 2017 e, talvez por isso, consiga compreender o facto de, face à falta de oportunidades, muitos portugueses se querem evadir: «Às vezes, têm mais oportunidades fora.»

Bruninho é um desses casos. O extremo de 28 anos já emigrou duas vezes — a primeira para os espanhóis do Celta de Vigo B (2020/21) e a segunda para os romenos do Politehnica Iasi (2025/26) —, mas acabou sempre por voltar e agora num contexto de forte aposta no que é nacional (e com grande sucesso, diga-se), no Belenenses.

Bruninho é o homem do momento num plantel de bons entendimentos - Foto: Belenenses

No plantel da formação da capital, além dos cerca de 20 lusos, há quatro brasileiros, um cabo-verdiano, um angolano, um moçambicano e um guineense. Só David Herrera (colombiano) não faz parte do universo da lusofonia. No entanto, isso não é um entrave para o médio: «Não temos ninguém no balneário que não se entenda, o que facilita a comunicação. Falar português dentro de campo é diferente de ter de falar outra língua.»

Para já, o registo dos azuis nesta temporada é imaculado: sete jogos e sete vitórias (duas delas para a Taça de Portugal). Na primeira jornada, contra o Caldas (1-0), os de Belém apresentaram um onze 100% português. Desde então, a receita não tem andado muito longe disso e… tem corrido bem.

«É a demonstração de que há qualidade no nosso país. Acho que devemos olhar mais para os nossos jogadores. Temos exemplos dos que vão para fora e se tornam dos melhores do mundo, até jogadores em que aqui não se acreditava. Devemos aproveitar mais o talento português, que é enorme», apela o atacante.

Esta aposta beneficia e alegra, sobretudo, os mais novos, como lembra o melhor jovem da Liga 2 do mês de agosto, Bruno Faria: «O jogador português tem muita qualidade, como se pode ver pela nossa Seleção. No caso do Lusitânia de Lourosa, temos de dar mérito à estrutura por reunir tantos e com tanta qualidade.»

Bruno Faria terminou a formação nos lusitanistas, subiu o clube à Liga 3 e brilha a valer no segundo escalão - Foto: Lusitânia de Lourosa

Mas a qualidade não se esgota nos atletas, chama a atenção o central criado entre Sporting da Cruz, Coimbrões, Alfenense, Espinho, Paços de Ferreira, Trofense e Lusitânia de Lourosa: «Por exemplo, eu não fiz formação em nenhum dos grandes, mas, se consegui chegar aqui, é porque os treinadores também tinham muita qualidade, independente do clube.»

Miúdos e graúdos já se entendem na mesma língua

Nove anos separam Rúben Fernandes do segundo jogador mais velho do Varzim: Rúben Oliveira (31). O defesa nascido no Algarve tem idade para ser pai da maior parte do plantel, cuja média de idades não passa dos 25 anos.

«O objetivo neste regresso ao Varzim era poder dar um bocadinho da minha experiência aos mais jovens e ajudá-los no dia a dia. Foi isso que me foi proposto, perante uma equipa muito jovem. É praticamente tudo miúdos de vinte e poucos anos», explica.

Não tão vetereno, mas já a capitanear colegas mais velhos e rodagem em patamares mais elevados — Arsénio (37 anos), João Silva (36 anos), Josué Sá (34 anos), Luís Rocha (33 anos) —, Silvério Júnio afirma que o equilíbrio entre jogadores com experiência e juventude é fundamental: «Hoje, o futebol está mais voltado para os jovens, porque há sempre a parte do negócio. Os miúdos, felizmente, são os que mais podem dar esse retorno. Mas a verdade é que durante o campeonato é muito importante termos experiência e vivências para sabermos lidar com os vários momentos do ano.»

«Por exemplo: começámos bem, mas sabemos que não vai ser sempre um mar de rosas e aí, por norma, é a malta mais velha que passa alguma tranquilidade. Claro que há sempre casos de jovens bastante maduros para a idade que sabem lidar com isso, mas é sempre importante termos essa mescla», salienta.

Um dos casos de amadurecimento precoce é o de Bruno Faria, considera o dono da braçadeira: «Tem muita qualidade, joga na mesma posição que eu, por isso posso falar de forma confortável porque o conheço bem. É um homem incrível e um jogador que tem tudo para dar um passo em frente, se continuar a trabalhar e a fazer as coisas certas.»

Para o jovem defesa, por seu turno, é um privilégio — confessa — aprender com craques tão calejados como os que tem à volta: «Temos o caso do Arsénio, com 37 anos, mas que é um jovem dentro de campo e muito experiente. Em contraste, também temos os nossos juniores que trabalharam connosco na pré-época e que também têm muita qualidade e ajudaram bastante. É uma honra trabalhar com este conjunto de jogadores portugueses e perceber que Portugal está muito bem servido no futebol, com muita qualidade e competitividade.»

«Posso dizer que tem sido um grupo muito fácil de liderar. Mesmo os mais novos — apesar de achar que as gerações de hoje são diferentes de há uns anos, mais ousados e se calhar não tão responsáveis —, aqui em Lourosa temos um grupo de jovens muito bom. Respeitam muito o trabalho diário e a malta mais velha, e estão sempre dispostos a trabalhar», confirma Silvério Júnio.

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