«O meu joelho é uma bomba-relógio, mas tenho fogo cá dentro para ser campeã do mundo»
Oito meses depois de ter sofrido uma rotura no ligamento lateral interno do joelho esquerdo durante o estágio que efetuou em França — após o Grand Slam de Paris —, Patrícia Sampaio (-78 kg) mantém-se como uma das principais esperanças da Seleção Nacional no 39.º Mundial, em Baku 2026.
Sem que, até ao momento, seis dos nove judocas que Portugal levou ao Azerbaijão tenham conseguido ultrapassar os quartos de final e chegar aos combates pelas medalhas, Patrícia, 27 anos, e o duas vezes campeão do mundo Jorge Fonseca (-100 kg) são esta sexta-feira as grandes apostas nacionais.
Antes da partida para aquele que será o seu sexto Campeonato do Mundo — e depois de ter sido bronze em Budapeste 2025, num período em que subiu ao pódio oito vezes seguidas desde o 3.º lugar nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 —, a olímpica do Gualdim Pais conversou com A BOLA sobre como foi recuperar de uma lesão tão grave, como viveu a recuperação após a intervenção cirúrgica, como se sentiu por não ter podido ir ao Europeu defender o título e como se encontra a ambição de ser campeã do mundo depois deste período menos fácil.
Patrícia falou de tudo e não escondeu que a única preocupação que possui até aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 — onde também pretende chegar ao ouro — é ter um joelho que é uma verdadeira bomba-relógio.
— É já o seu sexto Mundial, mas este acontece depois de uma paragem longa devido a uma lesão complicada. Quando se regressa de uma situação assim — o que para si não é a primeira vez, infelizmente —, vem-se como se fosse o segundo ou terceiro, ou estará no campeonato como se fosse o sexto?
— Não conto propriamente as participações, acho que conto mais os anos em que já ando aqui. O meu primeiro Mundial de seniores já foi há oito anos e foi justamente em Baku, em 2018, quando ainda era júnior. Por isso acho que vejo as coisas mais por aí: a evolução ao longo dos anos. Não conto o número de participações, nem deixo que isso altere o meu nível de nervosismo ou de preparação. A mentalidade com que compito não muda dependendo do número do campeonato do mundo em causa.
— Mas acha que no primeiro houve nervosismo?
— Há sempre algum nervosismo, porque nervosismo também é sinónimo de responsabilidade…
Femininos
-48 kg, Catarina Costa - 8.ª Mundial - 9.ª classificada (1 v- 1 d)
-63 kg, Joana Crisóstomo - 8.ª Mundial - 9.ª classificada (2 v- 1 d)
-70 kg, Taís Pina - 3.º Mundial - não classificada (0 v-1 d)
-78 kg, Patrícia Sampaio - 6.º Mundial - hoje
+78 kg, Rochele Nunes - 5.º Mundial - amanhã
Selecionador: Marco Morais
— Mesmo para quem vinha de ter sido duas vezes medalhada em Mundiais de juniores [bronze, e depois ainda foi uma terceira vez] e duas vezes em Europeus de juniores [ambas de ouro]? Existia esse nervosismo quando foi ao de seniores pela primeira vez?
— Penso que sim. Ia de coração aberto para o que fosse acontecer, mas sempre senti algum nervosismo, esse sentido de responsabilidade comigo mesma, e sempre tive muita vontade de conquistar mais. O nervosismo vem daí, de eu reconhecer a minha capacidade. Claro que agora é muito diferente relativamente ao que era o de uma júnior de segundo ano, mas vem de reconhecer essa capacidade de ambicionar ganhar cada vez mais. Se me é dada a oportunidade…
Não é o pensamento de querer chegar lá e ser campeã do mundo, é o de agarrar esta oportunidade com unhas e dentes e dar o meu melhor. Mas isso já pensava assim aos 19 anos e continuo a pensar hoje, com 27.
— Conhecendo o seu desejo, a sua ambição e o seu trabalho, é difícil acreditar que não tenha ido para lá para ser campeã mundial. Duvido que não o queira sempre; deve ser das poucas coisas que lhe faltam…
— Não, hoje em dia quero-o e já era um objetivo muito grande que tinha no ano passado. Sempre disse que tenho três sonhos, três títulos que queria na minha carreira: ser campeã da Europa, campeã do mundo e campeã olímpica. Já fui da Europa, mas quero voltar a sê-lo mais vezes. Ainda não fui campeã do mundo [bronze em Budapeste 2025], não fui campeã olímpica [bronze em Paris 2024] e também tenho sonhado muito com o dorsal vermelho. É verdade. E é uma coisa que alimenta um fogo que há aqui dentro. Obviamente, também quero o dorsal dourado daqui a dois anos. Mas quando vejo alguém com o dorsal vermelho, comento com quem está ao meu pé: «É aquilo que eu quero.»
Masculinos
-60 kg, Bernardo Tralhão - 1.º Mundial - 9.º classificado (2 v- 1d)
-66 kg, Miguel Gago - 2.º Mundial - não classificado (1 v-1 d)
-73 kg, Otari Kvantidze - 3.º Mundial - não classificado (0 v-1 d)
-100 kg, Jorge Fonseca - 10.º Mundial - hoje
— Para quem não saiba, o dorsal vermelho é para os campeões do mundo e o dorsal dourado para os campeões olímpicos.
— Sim, é claro que é uma coisa que quero ter no meu currículo.
— O seu currículo é enorme. Na época passada, até se lesionar em fevereiro, acho que em todas as provas em que esteve — e foram oito, desde os Jogos Olímpicos de Paris 2024 — foi medalhada em todas [3+1+4]. O dorsal vermelho tem assim tanto peso ou é mesmo mais a medalha? Ou então durante aquele ano seguinte em que está a usar o dorsal vermelho, e quando vai entrar num combate, aquilo impõe respeito…? O que é que esse dorsal vermelho significa mesmo para si?
— Não é pelo entrar na competição, nem pelos outros verem, é pelo que sei que aquilo significa para mim. O facto de o dorsal vermelho significar ser campeã do mundo... é efetivamente o título. Eu já fui durante algum tempo a número um do ranking mundial [até se lesionar], mas isso não é ser campeã do mundo, é apenas ser a número um do mundo naquele momento. Quero conquistar o título. Quero ir ao Mundial, hastear a bandeira de Portugal mais alto e poder cantar o hino. É uma coisa que desejo conquistar.
Mas, como disse, não é para os outros verem. Não é para me verem entrar no tapete com o dorsal vermelho — apesar de saber que isso dá outra presença, que tem outro peso —, é por mim. É porque sonho com isso e ambiciono que um dia seja a minha realidade.
— E agora o reverso da medalha: sempre que defrontou um dorsal vermelho, isso dava-lhe mais energia para combater contra a campeã do mundo?
— Não, para mim é igual. Até porque tento ignorar a pessoa com quem estou a lutar. É uma coisa que costumo dizer muitas vezes: vejo a adversária como se fosse um boneco sem cara. É só: existe aquela estratégia, ela vai fazer isto, e sabemos quem é. Estudamos as experiências dos combates anteriores e por isso identificamos quem é, mas no fundo não interessa o dorsal que ela tem. Já lutei contra um dorsal vermelho, contra um dorsal dourado, mas isso não interessa, até porque todas elas já caíram depois dessa conquista. O judo é assim.
— Aquele momento — não diria mágico, mas poderoso — desde o bronze nos Jogos Olímpicos, em que no período em que todas as provas em que participou ganhou ou terminou no pódio medalhada, sente que é repetível? A sua capacidade, até quando se magoou, fez com que sentisse: 'consigo prolongar este nível durante muito tempo?' Isto porque, sobretudo a parte física tem altos e baixos, enquanto a técnica vai lá ficando. Foi muito além do que esperava naquele período ou acreditava que podia acontecer por possuir este nível e saber que consegue manter-se lá e continuar a ser medalhada em todas as provas?
— Não digo que tenha sido além, porque confio muito em mim e nas minhas capacidades. Acredito com certeza que pode ser repetível mais um período assim, apesar de, antes de me ter magoado, ter perdido no Grand Slam de Paris [já em 2026, dias antes de se lesionar num estágio], por isso a partir daí quebrei o ciclo de medalhas que andava a ter. Mas sabia que, eventualmente, esse dia iria chegar, porque ninguém é indestrutível. Assim que perdi, pensei no que se estava a passar. O que é que aconteceu para este dia ter sido assim? Em que é que posso melhorar daqui para a frente?
Acredito que, se a minha saúde me permitir, estou neste momento mentalmente muito mais estruturada e estável do que estou fisicamente. Isso é uma verdade. Tenho já um histórico de lesões muito grande. Não tenho uma idade avançada, mas tenho um corpo muito gasto. A idade dá-nos isso, mas também nos dá uma experiência e maturidade diferentes para lidar com este tipo de situações. Sinto que isso pode ser a minha grande vantagem nos próximos dois anos para conseguir ter alguma consistência nos resultados.
— Mas agora que veio da recuperação de uma lesão, já foi a uma prova e voltou a ser medalhada [bronze no Grand Slam de Lausana, na Suíça]. O nível em que se encontra, depois de ter podido voltar a treinar, permite que tipo de ambição para este Mundial? Sonhar com o título ou já é uma questão daquilo que referia — de a sua parte psicológica (que é muito forte) e a experiência ajudarem a vertente física, que neste momento não se encontra tão elevada? Vai ter de trabalhar entre as duas, pois uma não pode estar a 100 por cento por ter estado magoada... Não há hipótese.
— Sim, estive magoada e a prova de Lausana, apesar de me ter corrido muito bem, também me deixou um bocadinho mais frágil, porque…
— Ah foi? Porquê?!
— Porque o meu joelho não está a 100 por cento e agora é um bocadinho uma bomba-relógio de segurar nestes dois anos. Mas quando vemos essa performance, é impossível dissociar a parte física da parte mental. Tudo está ligado e não é 50-50. Num dia uma vai ajudar a outra a subir e acredito que dá para sonhar com estes objetivos grandes que tenho — e é por isso que os tenho. Se achasse que eram inalcançáveis, não mandava isto da boca para fora, nem eu própria mantinha estes pensamentos para mim. Acredito que são atingíveis por esse equilíbrio. Sei que quanto melhor estiver em termos de saúde, obviamente melhor vou competir. Mas, apesar disso, consigo dar a volta.
A preparação tem corrido bem, mesmo depois de seis meses fora [do Circuito Mundial]. Tinha algum receio de que esses seis meses sem experiência — em que as outras estavam a competir e eu encontrava-me sem rodagem — me atrapalhassem. No final, demonstrei que estou em boa forma, que consegui trabalhar muito bem mesmo estando fora da competição.
Mas vai ser sempre um bocadinho por aí. Desde sempre — e já tenho lesões há muito tempo — que comecei a aprender a contornar as coisas. A trabalhar, mesmo com alguma limitação, tudo aquilo que é possível. E isso foi uma das coisas que fortaleceu bastante a minha cabeça e a minha mentalidade. Penso que são coisas que andam todas de mão dada e é por isso que acredito que dá para pensar nestas coisas, tanto para este ano como para os próximos dois.
— Em abril, por se encontrar a recuperar da operação aos ligamentos do joelho, não foi ao Europeu de Tbilisi quando era a campeã da Europa. A lesão tirou-lhe a possibilidade de ir defender o título. Para alguém competitivo como é, custou-lhe estar a ver o campeonato e não estar lá? Não poder defender pelo menos aquele título na altura em que era campeã?
— Precisamente por me custar, não acompanhei grande coisa do Europeu. Só vi mais tarde e vejo apenas combates específicos quando quero estudar as adversárias. Mas enquanto estive fora de competição também não acompanhei nenhuma das provas a fundo. Vi algumas vezes os blocos de finais ou, depois de passar a competição, deixava passar uns dias e via os combates para estudar. Mas não estava ali a acompanhar as provas [em direto], só via os meus colegas [de Seleção].
— Não a ajudava psicologicamente estar a assistir às provas?
— Não me faz bem porque sei que era um sítio onde queria estar, mas onde não podia estar e não podia fazer nada para mudar isso. Estava a fazer o melhor que podia em casa, a recuperar. Além disso, o Europeu foi numa altura muito precoce da lesão [dois meses depois]. Ainda me encontrava abalada física e psicologicamente e não me ia ajudar ver outra pessoa a ganhar uma coisa que eu queria ter conquistado. Portanto, tentei gerir da forma que também a mim me fizesse menos mal psicologicamente.
— Sempre teve lesões e até referiu que não são novidade para si, mas aproveitou sempre esse tempo para crescer em qualquer coisa, seja fisicamente ou tecnicamente, para alargar o seu leque de técnicas. O que é que procurou nesta paragem longa?
— Primeiro terminei o curso. Acabei a licenciatura e fiz mais qualquer coisa pelo meio de que agora não me estou a recordar. Estive mais tempo em casa, o que também me soube bem. Apesar de estar impedida de viajar por estar a recuperar da lesão, foi numa altura em que tenho agora um novo sobrinho, por isso pude aproveitar mais tempo em casa. Mas, muito especificamente, sou muito fraca em elevações e melhorei bastante a minha força em termos de elevações, porque ainda estava com uma perna — não era engessada, mas com aquela joelheira ortopédica —, por isso fazia muitas elevações. Só podia fazer braços. Foi algo em que evoluí bastante.
E também tentei, por exemplo, melhorar a parte do sono, que é uma coisa em que ainda tenho de evoluir. Na altura da recuperação estava muito obcecada em dormir nove horas. Dormia sempre no mínimo nove horas. Mas também me preocupei com a alimentação. Acho que procurei fazer bem tudo aquilo que estava ao meu alcance.
— Também resistência?
— Sim, fiz muito cárdio de braços.
— Quem quer estar na final vai ter de ter uma grande resistência naquele dia.
— É verdade, especialmente neste Mundial. Esperam-nos muitos combates.
— É importante para se vencer, não é?
— Sim, sim…
— E essa resistência — para além da sua preocupação com o joelho —, esse nível de resistência está lá para conseguir chegar ao quinto e sexto combate?
— Fisicamente sinto-me muito capaz. Falando em termos de treino, de preparação física, sinto-me bastante capaz. Senti-me muito bem na Suíça [Grand Slam de Lausana]. Mesmo o combate que perdi foram nove minutos de combate, ou seja, estar ali nove minutos e ainda a conseguir atacar, a disputar. Acabei por só perder no chão. Durante a prova não sofri nenhuma vantagem em pé e levei poucos shidos [castigos], o que também significa que o encaixe das técnicas não está mal, apesar de dar para melhorar. Em termos de treino sinto-me bastante capacitada, muito capaz.
— Portanto, volta para o Mundial em grande?
— Espero que sim. Vou dar o meu melhor para isso.