O Mundial, em particular, tornou-se muito mais do que uma competição — Foto: IMAGO
O Mundial, em particular, tornou-se muito mais do que uma competição — Foto: IMAGO
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

O futebol como palco do poder global

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de André Batista, gestor desportivo e ex-presidente da SAD do Torreense

O futebol, hoje, já não pode ser lido apenas como um jogo. É um dos poucos fenómenos globais onde desporto, economia, política e cultura se cruzam de forma permanente e cada vez mais visível. Entre decisões institucionais, dinâmicas financeiras e disputas de influência internacional, o futebol transformou-se num espelho das tensões do mundo contemporâneo.

A expansão do futebol enquanto espetáculo global tornou-o também numa ferramenta de influência entre Estados e instituições. A organização de grandes competições ou investir em clubes de elite deixou de ser apenas desporto. Passou a ser uma forma de projetar imagem, influência e legitimidade internacional.

Este fenómeno é frequentemente descrito como soft power, a capacidade de um país influenciar outros através da atração cultural em vez da força. No futebol, isso traduz-se na utilização de super eventos, clubes e estrelas como veículos de diplomacia indireta. A FIFA assume aqui um papel central, regulando competições e gerindo equilíbrios delicados entre interesses desportivos, económicos e políticos, enquanto a UEFA desempenha esse papel no contexto europeu.

O Mundial, em particular, tornou-se muito mais do que uma competição. É um palco onde países se apresentam ao mundo, reforçam posições estratégicas e disputam visibilidade global. Esse processo transforma o futebol num espaço inevitavelmente político, mesmo quando se apresenta como neutro.

A edição de 2026, disputada nos Estados Unidos, no Canadá e no México e vencida pela Espanha na final, tornou este argumento ainda mais visível: pela primeira vez, a FIFA aplicou um sistema de preços dinâmicos à venda de bilhetes, o que levou entradas na fase de grupos a ultrapassar os milhares de euros e o bilhete mais barato da final a superar os dois mil euros, gerando críticas de adeptos, treinadores e até uma queixa formal junto da Comissão Europeia.

Um torneio pensado para unir o mundo à volta de um jogo tornou-se, também ele, um estudo de caso sobre até que ponto o espetáculo pode ser esticado antes de deixar de ser acessível a quem lhe deu origem.

Em vários casos recentes, o futebol europeu tem sido diretamente atravessado por conflitos históricos, políticos e até militares que extravasam o contexto desportivo.

O exemplo mais evidente é o da Rússia e Ucrânia. Desde a invasão da Ucrânia em 2022, a Rússia foi suspensa de competições internacionais pela UEFA e FIFA, afetando clubes e seleção nacional, uma suspensão que se mantém em vigor para a equipa principal e para os clubes nas provas europeias, incluindo o ciclo 2026/2027. Ainda assim, o processo já não é estático: em julho de 2026 o Comité Olímpico Internacional levantou provisoriamente a suspensão ao Comité Olímpico Russo, e a FIFA convidou a seleção sub-15 russa para o Mundial da categoria, em outubro, no Azerbaijão, o primeiro regresso oficial da Rússia a uma competição da FIFA desde 2022.

O próprio presidente da FIFA já se mostrou publicamente favorável a um regresso gradual, começando pelos escalões de formação. A Ucrânia, por sua vez, continua impedida de jogar em território próprio, e assim continuou mesmo depois de não se ter apurado para o Mundial 2026, ao perder no play-off europeu frente à Suécia; toda essa fase decisiva foi disputada em Espanha, por razões de segurança, com o futebol a assumir também um papel de representação nacional em contexto de guerra. Neste caso, a decisão institucional foi direta e imediata, mostrando que em cenários extremos o futebol europeu não se mantém neutro, ainda que a forma como esse afastamento é gerido continue, ela própria, a evoluir.

Nos Balcãs, o caso da Albânia e Sérvia mostra outro tipo de tensão. Não existe uma guerra ativa entre os dois países, mas sim um conflito histórico e identitário profundo, muito ligado ao Kosovo e às guerras da antiga Jugoslávia. O episódio de 2014 num jogo em Belgrado, interrompido após a entrada de um drone com símbolos políticos, expôs como rapidamente o futebol pode tornar-se palco de conflito. Desde então, a UEFA reforçou mecanismos de separação e segurança, evitando confrontos diretos entre seleções sensíveis.

Por outro lado, o caso da Grécia e Macedónia do Norte é mais diplomático e identitário. Durante anos, a disputa sobre o nome Macedónia condicionou o reconhecimento internacional da seleção. O Acordo de Prespa em 2018 resolveu o impasse político e permitiu a normalização da presença da seleção nas competições da UEFA e da FIFA. É um exemplo claro de como decisões diplomáticas podem desbloquear impasses desportivos e reintegrar países no sistema competitivo europeu.

Nestes contextos, FIFA e UEFA não são apenas organizadoras de competições, mas também mediadoras indiretas de conflitos internacionais.

O seu papel manifesta-se em três dimensões principais.

Primeiro, na regulação e exclusão, como acontece com suspensões de federações em situações de guerra ou violações graves, ou na definição de regras que impedem confrontos entre países politicamente sensíveis.

Segundo, na mediação indireta de tensões, através da separação de seleções em sorteios e da gestão de calendários e segurança em jogos de risco político.

Terceiro, na pressão diplomática e simbólica, já que decisões sobre torneios, competições e posicionamentos institucionais acabam por ter impacto político, mesmo quando não são apresentados como tal.

Ainda assim, este papel é frequentemente criticado por ser reativo e dependente da pressão externa, intervindo muitas vezes apenas quando o contexto já se tornou insustentável.

Para além da dimensão política e simbólica, estes conflitos têm também impactos económicos relevantes no ecossistema do futebol.

Em primeiro lugar, há efeitos diretos na exclusão de mercados. A suspensão de seleções ou clubes, como no caso da Rússia, retira receitas de competições internacionais, reduz visibilidade mediática e afeta contratos televisivos, patrocínios e direitos comerciais. Isto cria um efeito em cadeia que não se limita ao país sancionado, mas também às próprias competições, que perdem audiências e potencial de mercado.

Em segundo lugar, existe impacto na organização de eventos. Jogos considerados de alto risco político implicam custos acrescidos em segurança, policiamento e logística. Em alguns casos, podem obrigar mesmo a jogos à porta fechada ou em campo neutro, o que reduz receitas de bilheteira e impacto económico local.

Em terceiro lugar, há consequências no valor de marca dos próprios torneios. Conflitos internacionais associados ao futebol podem afetar a perceção global das competições, influenciando decisões de patrocinadores e investidores, que procuram ambientes estáveis e previsíveis.

Por fim, estes contextos também afetam o mercado de transferências e a mobilidade de jogadores, sobretudo quando há sanções, instabilidade política ou restrições legais, o que pode alterar fluxos económicos entre ligas e clubes.

Outro eixo central desta transformação é a crescente financeirização do futebol. O acesso ao espetáculo tornou-se progressivamente mais caro, acompanhando a lógica global da experiência premium.

A introdução de modelos de preços dinâmicos em grandes competições internacionais, como se viu de forma particularmente evidente no Mundial 2026, tem levado a aumentos significativos no custo dos bilhetes, afastando parte do público tradicional e gerando críticas sobre elitização do jogo. O futebol, enquanto produto global, parece cada vez mais orientado para maximizar receitas, mesmo que isso altere a sua relação histórica com os adeptos.

Para além da economia e da política internacional, o futebol continua a ser um espaço onde questões sociais emergem com força. Racismo, desigualdade, inclusão e identidade cultural são temas recorrentes que atravessam jogos, estádios e redes sociais.

Apesar das campanhas institucionais, episódios de discriminação continuam a surgir, revelando que o futebol não está isolado das dinâmicas sociais mais amplas. Pelo contrário, muitas vezes amplifica-as, precisamente pela sua visibilidade global.

Ao mesmo tempo, o futebol funciona como espaço de representação coletiva. Clubes e seleções tornam-se símbolos identitários, capazes de mobilizar emoções, pertença e até conflitos simbólicos entre comunidades.

A questão central talvez não seja se o futebol continua a ser apenas desporto, mas sim até que ponto isso ainda é possível.

Hoje o futebol é simultaneamente uma indústria multimilionária, uma ferramenta de influência geopolítica, um palco onde conflitos internacionais e históricos se projetam como Rússia e Ucrânia, Albânia e Sérvia, ou Grécia e Macedónia do Norte, um sistema regulado por entidades como FIFA e UEFA que atuam como mediadores indiretos de tensões políticas, um espaço de impactos económicos relevantes associados a sanções, exclusões e instabilidade, um espaço de disputas sociais e um espetáculo cultural global.

Estes exemplos mostram que o futebol não apenas reflete o mundo. Muitas vezes amplifica as suas tensões, ajuda a gerir memórias históricas ou a estabilizar relações diplomáticas, mas raramente é neutro.

No fim, o futebol continua a ser o mesmo em essência. Vinte e dois jogadores, uma bola, um objetivo. Mas o mundo à sua volta tornou-se irreconhecivelmente mais complexo, e é isso que o transforma num dos fenómenos mais relevantes da sociedade contemporânea.

Próximo artigo

A iniciar sessão com Google...