Mozer e Ricardo recordam sucesso e segredos do balneário do Benfica
Ricardo Gomes e Carlos Mozer, antigos defesas-centrais do Benfica e da seleção brasileira, marcaram uma geração e coincidiram nos encarnados — Mozer esteve no Benfica de 1987 a 1989 e depois em 1993/94; Ricardo vestiu a camisola das águias entre 1988 e 1991 e depois em 1995/96. Numa conversa longa sobre futebol, no podcast Resenha, os dois falaram sobre o futebol de então e o atual, e o Benfica não ficou de fora.
Uma parceria construída na Luz
Ricardo Gomes explicou que conheceu Mozer primeiro como adversário, antes de se tornarem companheiros no Benfica e, depois, na seleção brasileira. «Primeiro vi-o jogar, depois foi meu adversário e a seguir companheiro no Benfica e depois na seleção. Foram anos memoráveis», afirmou.
Mozer sublinhou a lógica tática que sustentava o entendimento entre os dois: «Ele marcava em cima e eu sobrava para obrigar o adversário a tentar jogar em velocidade. Eu fazia a cobertura. A gente se dava bem», contou o ex-central.
O antigo defesa do Benfica acrescentou que, quando Ricardo Gomes enfrentava atacantes mais lentos, a tarefa ficava ainda mais simples. «Quando ele pegava jogador mais lento, eu nem me preocupava. Ele limpava sempre», disse Mozer, com Ricardo a não poupar elogios à presença intimidadora do companheiro: «O que ele metia de medo nos atacantes? Eu dava risada. Os caras não se mexiam, não olhavam.»
Golos decisivos e um título do Benfica
Os dois recordaram uma fase em que o Benfica não atravessava o melhor momento, mas contava com Ricardo Gomes para decidir jogos. «Todo o jogo esse aqui fazia um golzinho e, no final, a gente ganhava de 1 a 0», brincou Mozer.
Ricardo Gomes confirmou a importância dos seus golos de cabeça naquela campanha. «Fizemos 10 golos. Era sempre golo dele. Ele fez muito mais do que eu. Eu fiz uns dois ou três para garantir a vitória do Benfica e conseguir chegar ao título», revelou Mozer.
Manuel Bento e a ousadia na área
Uma das histórias mais marcantes contadas por Mozer envolveu Manuel Bento, guarda-redes histórico do Benfica e da seleção portuguesa, falecido em 2007. O brasileiro recordou o primeiro jogo em que atuou ao lado de Ricardo Gomes, quando o guardião, apesar de medir apenas 1,72 metros, assumiu uma responsabilidade invulgar num lance de bola parada. «O Bento veio ter com o Ricardo e disse: ‘Tu pegas o primeiro poste, o moço pega o segundo poste e eu vou para o meio da área.’ Nós olhámos um para o outro. Ele tinha 1,72!», contou Mozer. «E não é que o baixinho foi buscar uma bola lá na marca da grande área, voando no meio de toda a gente? Caiu com ela coladinha ao peito», recordou.
Para Mozer, aquela atitude refletia uma época em que os treinadores exigiam mais aos guardiões na saída para cruzamentos. «Antigamente obrigava-se o guarda-redes a sair do golo [linha]. Hoje, por força da mudança nos cruzamentos, o guarda-redes fica mais dentro da pequena área», analisou.
A relação entre Mozer e Ricardo Gomes ganhou força no dia a dia do Benfica, num grupo de brasileiros que incluía Duílio, Valdo, Macaé, Elzo e Ademir, entre outros. «Começámos a conviver mais próximo lá no Benfica, não só eu e o Ricardo, mas todos os brasileiros que jogavam lá na época», recordou Mozer.
Ricardo Gomes garantiu que os encontros eram frequentes. «Quase todos os domingos tínhamos um churrasco.»
Apesar da boa sintonia, os dois lamentaram terem jogado juntos apenas uma temporada na Luz. «Tivemos o azar de jogar só um ano. Poderia ter sido cinco», disse Mozer. Ricardo Gomes respondeu, em tom de brincadeira: «Depois ainda tivemos três embates na Europa.»
Mozer e a influência de Mourinho
Mozer, que viveu 32 anos em Portugal, aproveitou o diálogo para refletir sobre a formação e o futebol europeu. O ex-defesa do Benfica foi adjunto de José Mourinho e garantiu que o treinador português valorizava diariamente os fundamentos técnicos.
«Ele fazia treino técnico de base todos os dias. Domina no peito, passa com o interior, domina e passa de chapa, dá de joelho, cabeceia curto, cabeceia longo, direciona a bola para um lado e para o outro», descreveu Mozer. «Se chegas ao jogo e não sabes fazer isso, não podes jogar futebol.»
O brasileiro defendeu que o futebol moderno exige mais compromisso coletivo e mais qualidade técnica no meio-campo, sobretudo na construção ofensiva. «É obrigatório no futebol de hoje atacar com todo mundo e defender com todo mundo», afirmou.
A lição do Benfica: o balneário decide
Ricardo Gomes deixou uma reflexão que pode resumir a filosofia daquele Benfica: a importância do grupo. «O balneário ganha e perde o jogo», afirmou. Mozer era o responsável por animar e exigir mais dos companheiros. «Ele pegava no Benfica e animava a rapaziada. Na hora do intervalo, quem cobrava mais era ele. Eu era o capitão, mas ele cobrava mais do que eu”, revelou Ricardo Gomes.
Mozer assumiu o papel com naturalidade. «Eu era mais doido, ele era mais senhor. Eu soltava o pau e, quando não estava a dar certo, era puxão de orelha para tudo quanto era lado. Mas só posso puxar a orelha se der exemplo», disse.
O ex-central concluiu com uma mensagem de saudade e otimismo: «Tempo bom. Isso vai voltar, se Deus quiser.»
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